Sexta-feira
Comemoro
internamente por ter lugares disponíveis para sentar, ao entrar no ônibus, eu
estava cansado, o dia tinha sido cheio, complicado, e por mais que o alivio de
saber que o fim de semana está logo ali invada minha mente, sou obrigado a
voltar para realidade, não existe fim de semana para mim.
Durante a semana trabalho num
restaurante, começo as 9 da amanhã e fico até as 16 horas, o restaurante é
grande e movimentado, muitas vezes, nós, funcionários temos que lidar com
pessoas mal educadas, mas jamais podemos reclamar, o cliente é quem tem a
razão. Sábado e domingo, no horário em que pessoas da minha idade estão se
arrumando parar irem curtir, irem para balada, sair com os amigos, irem a uma
festa, eu estou me arrumando para voltar para o restaurante que abre para o
jantar. Sempre vou aos mesmos lugares,
sempre sigo as mesmas rotinas, poucos feriados são realmente feriados para mim,
e as férias de uma semana e dois dias duas vezes no ano não são capazes de
recarregar minha energia nem de me consolar, esta não é a vida em que eu queria
viver. Biologia era minha paixão, biologia era meu curso na faculdade, eu
deveria estar a meio caminho de me tornar um biólogo, mas tudo tinha sido
tirado de mim de forma muito repentina e trágica.
Primeiro veio a doença de minha
mãe, depois as dividas e para fechar a morte de meu pai, o meu mundo, e a do
meu irmão, tinha virado de cabeça para baixo.
O ônibus para
e eu sei que Gregório irá subir nele agora, mesmo que seja para ficar sentado
por apenas dois quarteirões, já que nossa casa não é tão longe daqui. Mas se eu
estou cansado, meu irmão está pior, ele trabalha como estocador no
supermercado, carregar peso é algo comum em seu trabalho e o fato de que ele
começa as 7 e só sai agora, as 16, tendo apenas uma parada pequena para almoço,
posso dizer que ele está sempre um caco.
Vejo que a
mulher sentada um pouco a frente olha para trás, assustada, eu sei o que ela
está pensando: Mas este mesmo garoto já não entrou no ônibus?
Gregório e
eu somos irmãos gêmeos, ambos com 20 anos, temos os mesmos 1,72 metros, nós
dois somos loiros, os mesmos olhos castanhos, o mesmo rosto, tentamos nos
diferenciar como podemos. Desde que crescemos sempre cortamos o cabelo de
maneira diferente, enquanto o meu é grande, deixei crescer até quase o ombro, o
de meu irmão é mais curto, não muito abaixo de sua orelha. E sempre nos vestimos de maneira diferente,
apesar de termos gosto muito parecido na questão de roupa.
Gregório
senta do meu lado e bufa cansado.
_ Eu não
acredito que terei que voltar aqui amanhã. – ele se afunda na cadeira, ficando
mais a vontade, porém com uma postura péssima.
_ Pelo menos
você terá o domingo livre. – digo e ele olha para mim.
_ Semana que
vem você entra de férias, eu não.
_ De uma
semana, quando você entrar, suas férias durará um mês.
_ Você quer
competir quem está mais ferrado? – ele se irrita.
_ Não. – eu
digo. _ Você está mais mesmo. – assumo e ele bufa novamente.
_ Isso um
dia vai acabar? – ele pergunta e eu fico sem resposta.
_ Vamos. –
digo após um tempo. _ Já é o nosso ponto.
Gregório
levanta a contra gosto e descemos do ônibus. Temos que descer a rua para chegar
onde moramos, não é uma caminhada longa, não é nada cansativo, porém sempre
hesitamos antes de começar.
Nossa mãe
havia perdido muito em pouco tempo. Sua doença levou sua vitalidade, emprego e
cabelos, o destino levou seu marido de toda a vida e sua felicidade, tudo o que
ela tinha agora era a nós, seus dois filhos cansados. Chegar em casa, para nós,
não é o fim do trabalho, mas sim o começo de um trabalho diferente, tentar
anima-la não é uma missão fácil, mas é tudo o que queremos fazer, queremos ter
a nossa mãe feliz novamente, a mãe que sempre estava disposta ao acordar, que
sorria do nada, simplesmente porque queria, queremos a mãe que iria brigar com
a gente quando entrasse em nosso quarto que está uma verdadeira zona, queremos
a mãe que sempre saia na rua para comprar pão, ou algo assim, as vezes nem
precisava ir para algum lugar especifico, ela só queria sair, ver a luz do sol
tocar sua pele clara, sentir o vento fresco que vem do mar, que não fica muito
longe de onde vivemos, ela gostava de dar ‘bom dia’ a todos que passavam, ela
conhece a maioria das pessoas que moram
perto, todos torcem por ela, todos a querem bem, mas nada disso parece ser
suficiente mais.
_ Em algum
momento temos que chegar lá. – Gregório diz.
_ Sim. –
concordo, mas não me movo. _ Isso um dia vai acabar. – eu digo.
_ Quando? –
Gregório pergunta.
_ Eu não
sei. – respondo. _ Mas isso um dia terá que acabar. – falo e dou o primeiro
passo para frente. Gregório me acompanha.
_ Olá
garotos. – diz Emanuel, assim que atravessamos a rua e chegamos a calçada do
outro lado. Ele tem uma floricultura na rua de nossa casa, velho, porém muito simpático,
sempre que pode tenta nos ajudar. _ leve esta rosa a mãe de vocês. – ele diz,
pegando uma rosa branca e entregando-me. _ Ela gostava muito dessas. – diz sorrindo.
_ Isso é
muito gentil da sua parte, Emanuel. – digo.
_ É um
presente, o aniversario dela está chegando, não está? – pergunta. _ Seu pai
sempre comprava rosas nessa época do ano.
_ Todos os
dias, durante toda a semana. – Gregório relembra.
_ Sim. –
Emanuel confirma. _ Sempre rosas brancas, e no ultimo dia ele comprava um
buquê, e ia à padaria e comprava uma caixa grande de bombons. – ele lembra. _
Eu sei que não será igual, mas leve a rosa, mantenham a tradição. – ele diz. _
Isso pode alegra-la um pouco. – conclui.
_ Não temos dinheiro
para lhe pagar agora. – Gregório diz.
_ Não, não,
não. – Emanuel fala com certa urgência. _ Nada de dinheiro, é meu presente.
Seus pais já me ajudaram quando precisei também, não tenho condições de fazer muito,
mas posso dar essa rosa, e sei que isso significará muito.
_ Muito
obrigada, Emanuel. – vejo que os olhos de Gregório mareiam. Logo ele o irmão durão.
_ Ei,
durante a semana, sempre parem aqui, eu irei fornecer mais, sempre as mais
bonitas. – ele diz sorrindo.
Foi difícil de
sair da floricultura de Emanuel. A lembrança de nosso pai ainda é dolorosa.
Descemos
mais a rua e recebemos vários “Bom Dia” e olhares de compaixão.
Destranco a
porta para entrar em casa. Gregório entra e já corre para dentro. Ele tem essa
mania, sempre enrolamos para chegar, mas quando chegamos corremos para saber se
está tudo bem.
Tranco o
portão, mas não corro para dentro, fico olhando para a rosa em minha mão.
Emanuel provavelmente já estava esperando por nós, pois já havia retirado os
espinhos, trabalho que ele só faz, quando se confirma a venda.
Não sei se
Gregório estava como eu, mas eu me sentia tão cansado que por um momento havia esquecido
a data que se aproximava. Não temos o costume de fazer grandes festas na minha família,
mas temos pequenas tradições ou manias que sempre repetíamos na semana e no dia
do aniversário de algum de nós.
Meu pai
sempre foi o que mantinha tudo organizado e ele realmente seguia as tradições,
todo aniversario de minha mãe, ele trazia as rosas brancas, uma por dia durante
toda a semana e no dia do aniversario dela, um buquê e a caixa de bombom. No
fim do dia íamos a um restaurante, o que minha mãe quisesse, e lá comíamos feito
reis. No meu aniversario e no de Gregório, mamãe passava a semana fazendo nossos
pratos prediletos, mesmo que isso significasse fazer duas coisas totalmente
diferentes, e nosso pai, sempre dava um jeito de sair mais cedo do trabalho e
nos levava para jogar futebol, ou basquete e soltar pipa na rua de trás da
nossa casa, era legal, pois ele sempre trabalhava muito e essa era a semana que
mais o víamos em casa, no dia do nosso aniversario sempre acordávamos com um
bolo para cada um, meu pai tirava folga de um dia e nossa mãe, quando ainda
trabalhava, ia trabalhar mais tarde. Enquanto nossa mãe trabalhava, íamos com
nosso pai para a praia, entravamos no mar, jogávamos futebol na areia, simplesmente
conversávamos, no fim da noite podíamos sair para onde quiséssemos, eu e meu
irmão gostávamos de ir para o boliche, então quase sempre passávamos a noite de
nosso aniversario lá, às vezes levávamos alguns amigos conosco, mas na maioria
das vezes era algo entre a família, sem ninguém de fora. No aniversario de
nosso pai era um pouco mais complicado, ele não gostava de muitas coisas, então
durante a semana mamãe sempre inventava algo, algum tipo de surpresa, eles
saiam sozinhos ou junto com nós, íamos a lugares diferentes, comíamos coisas
diferentes, visitávamos cidades vizinhas, e no dia do aniversário dele sempre
era um bolo e uma noite a sós com nossa mãe, eu e meu irmão sempre dormíamos fora
de casa, quando menores íamos para casa da nossa avó ou tia e quando crescemos íamos
para casa de amigos ou da namorada que estivéssemos no momento. Tudo para não nos
traumatizarmos. Sei o que nossos pais fizeram para nos ter, mas não preciso presenciar
isso no quarto ao lado.
Nesse ano
não teríamos nada disso.
Descido
entrar em casa. Ficar ali relembrando me fez começar a chorar.
Limpo as
lágrimas ao passar pela porta, e encontro já na sala a TV ligada. Isso é
normal, sempre que chegávamos nossa mãe está vendo algo na televisão, porém
mesmo com a TV ligada, não a vejo sentada no sofá.
_ Mãe? –
chamo-a. Olho para a mesa e vejo que não há lanche pronto e isso é um sinal
ruim, nossa mãe, quando acorda bem, sempre nos faz lanche para quando chegarmos
cansados, comermos, porém no dia em que ela está muito triste, triste demais
para se quer conseguir levantar da cama, ela não faz o lanche. _ Gregório? – o
chamo e subo as escadas para o segundo andar, onde ficam os quartos.
Assim que
chego, levo um susto.
Vejo
Gregório desmaiado no chão.
_ Gregório! –
grito e vou até a ele. Balanço-o para ver se ele acorda, tento apertar seu
pulso para ver se ele está vivo, no nervosismo não consigo sentir nada, mas ao
tocar em seu rosto sinto o ar saindo pelas suas narinas. Ele está vivo.
Ainda assim
minha cabeça roda, eu fico imaginando o que pode ter acontecido. Ele teria
passado mal? Talvez algo no trabalho, ele carrega muito peso de vez em quando, ele
podia ter deslocado algo? Mas deslocar algo pode causar desmaio?
Tento lembra-me
se ele parecia passar mal enquanto vínhamos para cá, mas não consigo detectar o
momento em que ele deixa transparecer que algo de errado estava acontecendo.
_ Gregório. –
grito novamente. Quero descer, para pegar o telefone e ligar para a emergência,
mas antes corro até o quarto de nossa mãe, talvez ela soubesse como nos ajudar
e quem sabe, mesmo estando em seus dias ruins, ela levantaria da cama e
ajudaria.
Vou até lá e
abro a porta, mas não a vejo de imediato.
_ Mãe? – a chamo.
Fico
assustado, mas penso: será que ela saiu de casa? Será que ela estava se
sentindo melhor e saiu para caminhar? – uma leve onde de animação me inunda, só
de pensar que talvez minha mãe estivesse melhor.
Minha
alegria não dura muito, pois logo escuto sua voz.
_ Vitório? –
ela chama meu nome, bem baixinho. Entro no quarto e vejo-a sentada no canto
esquerdo, se espremendo entre a cômoda e a parede.
_ Mãe? –
fico sem entender nada. _ o que está acontecendo? – pergunto. Ela chora e isso
corta meu coração.
Minha mãe
estica suas mãos em minha direção, vou até a ela, agacho-me na sua frente e ela
toca meu rosto.
_ Filho. –
ela sorri, mas ainda há lágrimas jorrando de seus olhos.
Vejo que ela
olha para minha mão, nem mesmo tinha notado, mas eu ainda seguro a rosa que Emanuel
deu, porém o talo agora está quebrado na metade.
Eu entrego a
rosa, e ela tira a mão esquerda de meu rosto para pega-la.
_ Gregório
está desmaiado no corredor, temos que ajuda-lo. – eu digo com urgência. Minha
mãe me olha e sorri fraco.
_ Eu sei. –
ela diz triste. _ Chegou o dia. – ela fala.
_ Do que
você está falando mãe? O que está acontecendo? – pergunto.
_ Não
adiantou fugir. – ela diz. _ Eles nos encontraram. – ela fala. Penso que pode
ser alucinação, dizem que a mistura de remédios pode causar isso, ela nunca
teve, mas talvez hoje ela tivesse exagerado nas doses e por isso falava nada com
nada.
_ Mãe, eu
vou chamar a emergência. – digo.
_ Não. – ela
agarra meu braço, me mantendo no chão, junto a ela. _ Não há o que fazer. – ela
diz. _ Eles não irão desistir.
_ Mãe, por
favor, você está alucinando...
_ Não. – ela
me interrompe. _ Eu não também não entendi quando seu pai falou. – ela diz. _
Mas quando vieram nos visitar, falando do plano deles...
_ O que isso
tem a ver com o papai? – pergunto um pouco irritado, eu estava perdendo tempo,
eu precisava ajudar meu irmão.
_ Tudo.
Isso... Isso passa. – ela diz. _ É genético, está no seu sangue, é quem você é.
_ O quê que ‘passa’?
_ O que tem
dentro de você. – ela toca a mão que segura em meu peitoral, onde fica o
coração. _ O que você guarda dentro de você passa de pai para filho. – ela diz.
_ Eu estou
doente? – pergunto. _ Por isso Gregório está desmaiado? – insisto. _ Há cura? –
pergunto desesperado.
_ É algo
lindo, mas tome cuidado, use para o bem. – ela diz.
_ Mãe...
_ Não,
filho, você vai entender. – ela sorri, mas depois começa a chorar
compulsivamente. _ Eu só queria que vocês pudessem ficar comigo. – ela diz.
_ Mãe, eu
não vou te abandonar. – eu digo e tento abraça-la, porém ela me afasta e olha
para trás. Ela parece ver algo atrás de mim. Quero ver o que é, mas ela volta a
segurar meu rosto e me obriga a ficar olhando para ela. _ Feche os olhos.
_ Mãe...
_ Feche os olhos Vitório! – ela ordena. Eu não
quero, não entendo o porquê de ela estar agindo desta maneira estranha. _ por
favor. – ela pede com a voz fraca em meio ao choro.
Suspiro frustrado
por não entendê-la, mas fecho os olhos.
E não os
abro mais.
Continua
Mais um capítulo
postado, espero que tenham gostado, comentem o que acharam, quero muito saber a
opinião de vocês.
Bjsss
Anônimo: Creio
que agora já dá para começar a fazer algumas teorias, mas entendo que ainda não
dê pra entender toda a história, mas a partir que mais capítulos forem postados
ficará mais fácil fazer teorias. Muito obrigada por comentar. Bjssss
Esse capítulo já deu pra mim criar mil teorias na minha cabeça, posta logo, bjs!
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