Rafael
joga no time de futebol da escola, o time é bom e ele é um ótimo jogador. Ele
já está acostumado a vencer campeonatos, ser louvado como o melhor jogador do
time, ter seu nome enaltecido nas arquibancadas, quando ele joga bem. Ele está
acostumado a levantar troféus e medalhas, e tudo isso é ótimo, mas ele nunca se
sentiu tão radiante como agora, que se olha no espelho da penteadeira e vê o
que realmente é. Uma mulher.
–
Deveríamos sair. – Linda sugere. – Para estrear seu look num lugar bem legal,
para todo mundo verem.
–
Não sei se é uma boa ideia.
–
Claro que vamos a um lugar legal, que tenha outras como nós. – Linda sente o
medo de Rafael. – Nada de boate hétero. – ela revira os olhos.
Rafael
se sente tentado a aceitar, mas recua novamente.
–
Talvez outro dia. – suspira. – Tenho que cuidar de minha irmã.
–
Ela pode ficar com minha mãe. – Linda insiste. – Vamos lá... – Rafael continua
indeciso. – Sério que você me deu esse trabalho todo por nada?
–
Foi você que deu a ideia. – Rafael se defende.
–
Ainda assim, você deu trabalho. – Linda contrapõe. – Olhe esse nariz. – Linda força
o queixo de Rafael, para que ele se olhe mais de perto no espelho. – ele está
três vezes menor. – ela o solta. –Não mesmo garota. Você vai fazer jus ao meu
trabalho.
–
Eu nem trouxe dinheiro para algo assim. Boates são caras.
–
Você está me chamando de mão fechada é? Eu posso muito bem pagar para você
hoje, e você fica me devendo uma. – ela diz.
–
Não sei...
–
Eu me cansei de escutar você falando que só não se transformava ou andava
comigo porque seus pais estavam por perto, mas agora eu lhe pergunto: o que te
impede? – Linda o questiona. – Eles não estão aqui para lhe impedir, se for só
medo, diga, eu posso lhe ajudar, eu quero lhe ajudar, mas eu não posso fazer
nada se você não falar o que realmente te aflige.
–
As pessoas vão perceber...
–
Pare com isso. – Linda o interrompe antes que ele possa terminar a frase. –
Olhe para mim, eu já estou quase totalmente transformada, falta muito pouco
para que minha transição esteja completa, e eu ainda recebo olhares, e é bem
provável que eu receberei olhares minha vida inteira. Se você quer ser o que é,
é preciso que você encare isso de frente.
– Rafael sente seu coração acelerar, sua cabeça está confusa, queria que
fosse diferente, queria não sentir o que sente, mas ao mesmo quer sentir o que
sente, quer ser quem é. Ele quer que se assumir, queria se mostrar como é para
os outros, e queria que isso não o deixasse com tanto medo.
–
Vamos ficar pouco. – ele diz. – E se eu me sentir incomodado...
–
Incomodada. – Linda o corrige e ele ri. – É melhor começar ir se acostumando.
–
Incomodada. – Rafael corrige com um sorriso na face. – Voltaremos no mesmo
instante. – termina.
–
Prometo. – Linda sorri. – Pronta para se divertir?
Linda
e Rafael deixam Anna sobre os cuidados da velha mãe, que assim que soube de sua
tarefa, largou sua TV e foi ao quarto da filha, com um livro na mão, lá iria se
dedicar apenas à pequenina.
Novamente
as duas se encontram no metrô, Linda percebe o medo da amiga e segura sua mão
durante a maior parte do percurso.
Ambos
desembarcam a apenas um quarteirão da rua mais badalada de toda a cidade, bares
e boates se espremem de ambos os lados da rua, chamando a atenção de jovens de
diferentes tribos.
A
rua está movimentada, há barulho vindo de várias partes.
–
Eu conheço aqueles dois. – Rafael aponta a um casal que adentra em uma boate.
–
Aquele casalzinho ali? – Linda zomba e Rafael ri.
–
Eles não são um casal. – Rafael estranha.
–
Agora são. – Linda dá de ombros. – Muito pode ocorrer durante as férias. – joga
uma indireta que Rafael, distraído, não pega.
–
Não. – Rafael implica. – Eles não podem namorar, ela namora o irmão dele. – ele
se sente irritado.
–
Uau, babado. – Linda ri. – Sério que isso vai lhe desanimar? – ela percebe que
ver o casal traidor desanimou a Rafael.
–
O namorado dela é meu amigo. – ele se justifica.
–
Então diga a ele o que você viu, quando tiver a oportunidade, só não estrague o
avanço que você acabou de fazer. – Linda pede.
–
Tudo bem. – Rafael suspira, após convencido.
A
boate em que entram está lotada, plumas voam para todo lado, música alta e
luzes bailam pelo ar. A pista de dança está cheia, então as amigas se refugiam
no bar.
Não
bebem muitos drinques, pois são interrompidas por uma ligação inesperada.
Ambas
correm para fora da boate e, ao invés de pegarem o metrô, voltam à casa de
Linda de táxi.
O
valor cobrado pelo taxista é alto, e Linda gasta tudo o que tinha na carteira.
Quando
chegam, a rua estranha e escura, está cheia, uma roda de pessoas curiosas se
forma bem a frente do prédio de Linda.
Antes
que elas possam chegar perto, são interrompidas pela mãe de Linda, que chora em
desespero.
–
Me perdoem, eu dormi, eu não vi! – ela repete compulsivamente.
Rafael
a ignora e se aprofunda na multidão, lá ele vê a irmã, estirada no chão. Há
sangue e ele não consegue reagir.
Continua
Segunda parte postada, espero que gostem.
Agora a história estrará em uma segunda parte, e muita coisa vai
acontecer.
Comentem se gostaram.




