segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Prólogo (A Origem de Lincoln Campbell)

                             


Edwin tem dificuldade para digerir tudo o que escutou. Sentado na cadeira de seu escritório, o mesmo tem o olhar vago, perdido, como se procurasse pelo rumo que ele acabara de perder.


No fundo ele sabia que havia algo de errado, estavam juntos havia três anos, sendo que no último ano Margaret vinha agindo de forma estranha, desaparecendo por dias a fio e retornando sem desculpas boas o suficiente para convencê-lo. Ele tinha várias teorias, a de traição era que mais lhe parecia provável, mas ele a amava tanto que preferia fechar os olhos, fingir que não novata, esperaria que ela confessasse seu erro e ele a perdoaria sem pestanejar. Margaret é a mulher de sua vida, mas agora ele nem mesmo sabe qual é o seu real nome.


Edwin Campbell é britânico e é 8 anos mais velho que Margaret e quando a mesma foi trabalhar como sua assistente, ajudando-o na sua clínica de cardiologia, ele logo se sentiu atraído pela jovem. Ele demorou para confessar seus sentimentos, temia que a mesma o rejeitasse por ser velho demais para ela, ou que ela confundisse seu afeto com assédio.


Ele não tinha ideia que a chegada daquela jovem mulher, com estatura mediana, cabelos longos, castanho escuro e franja, não tinha sido um golpe de sorte do destino em sua vida, mas sim parte do trabalho dela como espiã. Infelizmente o médico tinha como cliente um homem que estava sendo investigado pela CIA, o cliente em questão tinha uma grave doença afetando o funcionamento de seu coração e isso o levava constantemente ao consultório de Edwin, infiltrar-se como ajudante do cardiologista seria uma ótima oportunidade para ter contato com o suspeito sem chamar sua atenção.


A investigação de Margaret demorou dois anos para ser concluída, foram necessários muitos investimentos para comprovar que o mesmo estava envolvido com terroristas que estavam atuando tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra. Dois anos haviam sido o suficiente para que Margaret acabasse se entregando a paixão. Paixão que ela não deveria sentir, afinal, sua vida ao lado daquele médico cardiologista era uma grande mentira, era estritamente proibido que uma espiã se relacionasse com pessoas que estivessem envolvidas na investigação, não importando qual o grau de envolvimento do indivíduo.


Agora o relacionamento já havia se tornado noivado e Edwin, mesmo na incerteza da fidelidade da noiva, ainda ansiava pelo casamento. Mas o que fazer agora? Tudo era uma mentira!


Margaret nunca tinha passado por tal situação, no último ano tentou resolver essa confusão da qual se metera, o que a obrigou a deixar a Inglaterra e voltar para os Estados Unidos inúmeras vezes. Por ter dedicado bons anos sendo uma profissional exemplar, recebeu o perdão do governo americano e seria transferida da CIA para a NASA. Como castigo ela estaria num cargo menor e recebendo menos, teria acesso a menos informações confidenciais, mas poderia continuar ajudando a seu país, como sempre quis e ainda quer continuar a fazer. Com o tempo ela trabalharia para retomar a confiança do governo, porém não por agora. Nesse momento ela luta para reconquistar a confiança do homem que tanto ama, mesmo sabendo que não merece um voto de confiança do mesmo.


A ex-espiã estava se arriscando naquele momento, ela não sabia como seria a reação do homem que tanto amava, e se ele não a aceitasse? Pior, e se ele não fosse capaz de manter esse segredo? Ele poderia ser assassinado! Apesar de ter sido perdoada pelo governo de seu país, foi deixado bem claro as novas regras que seriam impostas a ela, caso a mesma decidisse manter sua relação com o médico. Inclusive, em seu novo contrato havia uma cláusula bem clara que a proibia de dizer a verdade sobre seu passado na CIA, ela até poderia manter sua relação com Edwin, mas deveria mantê-lo no escuro.


Margaret, porém, decidiu que deveria ser honesta, ela não queria que sua vida continuasse a ser uma mentira, Edwin não merecia isso. Ele desde o início sempre lhe tratou com todo respeito, sempre lhe acolheu, ele é um bom homem. O homem de sua vida.


– Qual o seu nome? - ele pergunta após longos minutos de completo silêncio. – O verdadeiro. - pede. Ele não olha para Margaret, ele ainda fita o horizonte distante, como se, apesar de estar se recuperando do baque, ainda não estivesse totalmente ali.


– Rosalind. - ela responde com a voz serena. – Rosalind Price.



Edwin torna-se para ela, olhando-a pela primeira vez desde que ela terminara sua confissão, mas ele não consegue manter seu olhar nela por muito tempo, ele logo abaixa a cabeça, olhando para sua mesa milimetricamente organizada, como sempre.


Rosalind era quem deveria estar se sentindo envergonhada, mas era ele que se sentia assim. Como ele poderia ter sido tão idiota? Como ele se deixara enganar assim? Tudo bem, ela é uma espiã, fora treinada para enganar, manipular, infiltrar-se... Ele era apenas um efeito colateral.


– Então é tudo mentira. - ele diz, sua voz está trêmula, ele quer chorar, mas se segura.


– Não! - Rosalind garante e se permite aproximar-se dele. Ela quer que ele a olhe diretamente, mas ele não o faz. – Me pergunte. - o incentiva. – Me pergunte o que você realmente quer saber.


Edwin respira fundo. Ele não está preparado para a possível resposta.


– Você... - ele hesita. – Nós... Você realmente... me... ama? - sua voz se afunda mais a cada palavra.


– Sim. Eu te amo Edwin. Sobre isso eu nunca menti. Eu realmente te amo! - ela não hesita em responder, ela quer que ele acredite nela, ela se arriscou demais por ele, e ela estava preparada para se arriscar ainda mais se assim fosse necessário.


Um minuto se passa até que ele decida fitá-la novamente. Desta vez ele mantém seu olhar.


– E a criança? - ele se odeia por fazer essa pergunta, se sente um lixo de homem, mas depois de tantas descobertas, ele duvidava até da própria sombra. Rosalind sabia que o mesmo faria essa pergunta, esperava que não fosse necessário responder, mas o compreendia por questionar. – É meu filho? - pergunta sobre a recém descoberta gestação.


– Sim. Podemos fazer o exame de DNA após o nascimento...


– Não. - ele a interrompe. – Não precisa. - ele volta seu olhar para a mesa. Edwin suspira novamente e depois se levanta. Ele ainda mantém seu olhar baixo, mas parece decidido a se recompor.


– Você pode me perdoar? - Rosalind pergunta e engole o seco.


– Eu te amei incondicionalmente como Margaret Williams. - responde e o chão de Rosalind começa a desmoronar. – Acho que posso tentar aprender a te amar como Rosalind Price. - ele a olha, seu olhar é triste, Rosalind não esperava outra coisa, mas ele dá um sorriso fraco, ele ainda a ama, talvez ele fosse um tolo por isso, mas o homem, apesar de cardiologista, não manda no coração.


O sorriso de Rosalind é bem menos discreto, o alívio que sentia por saber que ainda o teria em sua vida é demais para que ela escondesse.


– Obrigada. - ela não sabe mais o que dizer.


– É... Eu te apresentei a todos da minha família como Margaret... - diz coçando a cabeça e fazendo uma careta. Ele tentaria manter sua relação com a ex-espiã, mas não fazia ideia de como.


– Posso manter esse nome, é apenas um nome... O que importa é o sentimento. - ela diz e se aproxima ainda mais de Edwin. Delicadamente ela toca em seu queixo e o faz levantar a cabeça e assim olhá-la diretamente. – E o sentimento é real. Inteiramente real. - Edwin assente.


– Você aceitaria mudar seu nome mais uma vez? - ele pergunta olhando-a.


– Você quer que eu assuma meu nome? - pergunta incrédula. Ela sabe que não pode fazer isso. Nem mesmo Edwin poderia saber sobre ela, não tinha como ela contar para mais gente.


– Gostaria de acrescentar mais um. - sorri tímido. – Você gostaria de se chamar Margaret Campbell?




                                                                                       ...




No dia 17 de abril de 1985, Nasce Lincoln Williams Campbell, num hospital nos Estados Unidos, onde seus pais moravam agora.


Tudo indicava que aquela seria uma família perfeita, mas o tempo provou que uma vida cheia de segredos e mudanças não se sustenta. 



...


No dia 17 de abril de 1985, Nasce Lincoln Williams Campbell, num hospital nos Estados Unidos, onde seus pais moravam agora. 


Tudo indicava que aquela seria uma família perfeita, mas o tempo provou que uma vida cheia de segredos e mudanças não se sustenta.


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