domingo, 17 de setembro de 2017

19. Metamorfose


                – Rebecca, seu porteiro disse que você está aí, por favor, me atenda. – Sara esquece toda sua boa maneira e grita na porta do apartamento de sua amiga Rebecca, que está dentro de seu apartamento, desesperada, pois de um lado tem a amiga que tem consciência de sua presença e que está claramente desesperada, precisando de sua ajuda, do outro ela tem um pai bêbado no sofá, que não para de falar besteiras e encher o copo com cerveja barata. – Por favor, Becca, eu preciso de você. – e torna a bater na campainha.
                – Pai, vai para seu quarto, por favor. – Rebecca implora ao pai que em resposta a olha com um olhar perdido, já claramente longe da realidade. – Venha pai. – ela tenta puxa-lo para encaminha-lo até o quarto, mas ele é muito pesado para ela e ao invés de ajudar, ele prefere começar a rir. – Pai, pare com isso! – a menina se irrita. A campainha volta a tocar. Não tem jeito, Rebecca terá que atender a amiga.
                Assim que abre a porta Rebecca se prepara para levar uma bronca da amiga, pois ela havia demorado muito a atendê-la, mas Sara faz totalmente ao contrario, sem dizer nenhuma palavra ela se joga aos braços de Rebecca, a abraçando fortemente, de tal maneira que nunca havia feito antes.
                – Venha, entre. – Rebecca diz e Sara desfaz o abraço.
                Sara entra e assim que ela vê o pai de Rebecca, ela o cumprimenta, Rebecca gela ao seu lado. O pai de Rebecca, talvez em um surto de consciência, tenta agir normalmente, sentando-se ereto, mas ele não consegue falar nada, apenas acena com a cabeça de maneira desajeitava. Se estivesse em um bom dia, Sara sem duvidas questionaria Rebecca sobre o comportamento de seu pai, mas hoje, por estar tão fragilizada, a menina ignora.
                Já no quarto, Sara volta a chorar no colo da amiga, Rebecca começa a ficar preocupa.
                  – Amiga, por favor, fale alguma coisa, estou preocupada. – ela diz.
                 – O Heitor, ele está me ameaçando. – ela diz ainda chorosa.
                – Como assim o Heitor está te ameaçando? – Rebecca pergunta confusa.  Sara abre sua mochila e pega seu celular, deixa na mensagem e mostra a Rebecca. – E como você sabe que é ele? – Rebecca pergunta, após ler a mensagem.
                – Claro que é ele. Ele fugiu de casa, não pode usar o cartão porque os avós vão descobrir onde ele está e resolveu me ameaçar para sustentá-lo. – diz.
                – Ele falou isso? – volta a questionar.
                – Não. – Sara começa a parar de chorar. – Mas é o mais óbvio. Somente nós três sabemos sobre isso...
                – Tem certeza? – Rebecca pergunta e Sara engole o seco.
                – Bom... Tem minha empregada. – diz e solta um suspiro. – Por isso ela não pediu nada pelo... Remediozinho. – diz tentando amenizar a gravidade da ação das duas.
                – E o que você vai fazer?
                – Não sei, eu não posso ameaçar de volta, eu... Eu acho que terei que pagar. – diz em desespero. – Se eu fizer isso serei uma refém dela. – chora.
                – Ainda assim creio que será melhor, ela tem muito contra você. – Rebecca diz.
                – Quer saber? Eu sou a patroa, eu não posso deixa-la dominar. – diz decidida. – Eu vou enfrenta-la.

                O nojo no rosto de sua mãe não saia da memoria de Rafael, que não conseguiu prestar atenção em nenhuma aula do dia. Ele temia que tivesse feito a coisa errada em contar a verdade sobre a noite do acidente de sua irmã. Ele poderia muito bem se vingar sozinho, mas a cabeça quente não permitiu que ele pensasse direito.
                Agora era tarde, a verdade já tinha vindo à tona e ele só poderia torcer para que no final tudo desse certo.
                Quando o fim da aula chega, Rafael se despede de Ricardo, que parece estar preocupado com algo. Rafael sabia que o irmão do amigo tinha desaparecido e por isso concluiu que esse era o problema.
                Sozinho, ele retornou para casa e ao chegar encontrou a mãe a sua espera.
                – Está tudo bem? – ele pergunta, já que ela o observa, mas não diz nada.
                – O almoço já está pronto, assim que terminar, resolveremos o nosso problema. – ela diz sem demonstrar emoção alguma. Rafael sorri em resposta.
                 Na mesa de almoço, a família se reúne em uma oração e depois comem em harmonia, sorrisos são distribuídos sem razão aparente. Tudo, como sempre, parece estar perfeito.
                Assim que termina o almoço o pai corre para retornar ao trabalho, deixando que Rafael, a mãe e a pequena irmã, fiquem sozinhos.
                Antes de sair, a mãe de Rafael faz alguns telefonemas, tudo longe do filho, ela mantinha segredo sobre o que pretendia fazer e isso deixava o garoto muito ansioso.  
                A campainha bate e é uma amiga da mãe que chega.
                – Wanessa ficará com Anna até que voltemos. – a mãe explica e Rafael sorri agradecido. Ele sabe que não sairá coisa boa do plano de sua mãe e manter a pequena afastada é a melhor opção, envolve-la só lhe trouxe complicações.
                Rafael e a mãe adentram em um carro, que o garoto crê que foi alugado, já que não é o carro da família. A mãe dirige e o caminho usado para chegar ao prédio de Linda foi bem diferente do que o menino está acostumado, já que as duas únicas vezes que ele foi até lá, ele tinha usado o metrô.
                – É este o apartamento? – a mãe pergunta.
                – Sim. – Rafael confirma. – No terceiro andar. – diz.
                Outro carro para frente ao da mãe de Rafael. Dois homens saem e a mãe de Rafael vai ao encontro deles. Ele não se atreve a mover, fica ali temeroso pelo plano da mãe, plano no qual ele ainda não sabe qual é.
                A mãe de Rafael volta para o carro.
                – Feche os vidros.
                – Como?
                – Feche os vidros. – ela ordena já sem paciência. Rafael a obedece.
                Seu coração para, mas logo depois bate descontroladamente, ele não pode crer no que vê.
                Os dois homens que conversaram com a mãe, acendem fogo em duas bolas que provavelmente são feitas de algum material duro, mas também inflamável. Quando Rafael percebe, as duas bolas flamejantes acetam em cheio as janelas do apartamento de Linda, quebrando-as e caindo ainda incendiadas, dentro do apartamento. Outras duas bolão são acesas e, logo após, jogadas no mesmo lugar.
                Agora já é possível ver fumaça saindo pela janela quebrada. Para terminar, mais duas bolas flamejantes são jogadas, mas antes que elas atinjam a janela, a mãe de Lina sai pela porta principal do prédio, tossindo e se joga no chão. Os dois homens saem de disparada, correndo para o carro em que chegaram e fugindo. 
                Rafael tenta abrir a porta do carro, para ajudar a velhinha, mas a sua mãe lhe impede.
                 – Você está louco? – ela o pergunta.
                – Preciso ajuda-la. – sua mãe bufa e liga o carro. – Você já me deu problemas demais, pare de piorar sua situação. – reclama e acelera o carro. Assim que o carro sai de onde estava estacionado, ainda na mesma quadra, Rafael vê Linda, que parece já ter avistado a mãe e corre no meio da pista. Ele não sabe se ela chegou a vê-lo dentro do carro.
                A noite chega e as imagens ainda inundam a cabeça de Rafael, que encontra dificuldades para dormir. Na tentativa de se distrair, ele decide entrar nas redes sociais. Não demora muito pra ele receber uma mensagem de Linda, pedindo para que ele aparecesse na porta de sua casa.
                Rafael começa a ficar tremulo, não podia acreditar que ela estava ali, ou pior, talvez ela não estivesse, mas outro alguém aparecesse para vingar a mãe de Linda.
                Tomando cuidado, para não acordar os pais, ele sai do quarto e vai até a parte da frente da casa. Na porta de grade ele pode ver Linda, que não aparenta estar armando nada.
                – Eu só quero conversar. – ela grita e ele corre para impedi-la de continuar gritando.
                – Fale baixo, meus pais estão dormindo. – ele diz e abre a porta, mas para sair e não permite que Linda entre na casa.
                – Tudo bem, eu não estou aqui para arrumar confusão. – Linda parece bem calma. – Eu quero que isso termine...
                – Foi você que começou. – Rafael a interrompe e acusa.
                – Eu já falei que não fui eu, mas eu tampouco me importo se você acredita ou não, eu só preciso que você pare, minha mãe poderia ter morrido hoje. – Rafael sente um aperto no coração.
                – Eu não sabia que seria daquele jeito, foi ideia da minha mãe.
                – Eu não me importo, eu duvido muito que ela tenha acordado num dia e decidido fazer isso. Você contou para ela a sua versão e pronto, vamos vingar! – Rafael não consegue se defender. – você já parou para se ver no espelho? Como você dorme de noite?
        – Nada disso teria acontecido se você tivesse confessado ou já que você é inocente, que tivesse provado isso.
        – Você se transformou em um monstro, você é uma metamorfose que deu errado, que ao invés de ser evolutiva, foi retroativa. - ignora a acusação de Rafael
        – Eu não me importo com o que você pensa. - diz, mas no fundo ele sabe que mente.
        – Haverá justiça...
        – Você não tem como provar que fui eu, não há testemunhas, você não pode nem mesmo provar que me conhece, nos comunicávamos pela internet e eu estava em um perfil fake. - diz.
        – Se realmente existe uma justiça divina, ela irá cair sobre você.
        – Se realmente existe um ser divino, Ele não olha para aberrações como nós. – Rafael diz com a voz embargando. Ele não sabe bem no quê acredita, mas sua família é tradicional e religiosa, e quando ele se revelou para sua mãe, essa frase foi uma das primeiras coisas que ela disse a ele.
        – Para a aberração na qual você se transformou, talvez Ele realmente não olhe, mas Ele olha por mim sim, porque eu não sou uma aberração, eu sou uma pessoa, nada mais nada menos que uma pessoa. – diz e começa a se afastar para sair da porta da casa de Rafael. – Acabe com isso enquanto ainda há tempo. – pede. – Não deixe que eles te transformem num monstro de vez.


Continua

  

sábado, 2 de setembro de 2017

18. Quem é o (a) culpado (a)? (Parte 2)



                Sara não pode deixar de se sentir preocupada, após ter passado toda a tarde conversando com a amiga Rebecca, queria tê-la ao seu lado novamente na escola, porém ela não apareceu. Preocupada, assim que vê Lucas, que a contragosto da menina, é namorado de Rebecca, ela corre até a ele.
                – Lucas. – Sara o chama. – Lucas! – ela insiste, já que percebe que o garoto a ignora propositalmente.  – Lucas! – chega mais perto, deixando-o sem saída.
                – O que foi? – ele pergunta sem paciência.
                – Onde está Rebecca?
                – Não sei. – ele dá de ombros e tenta desviar dela.
                – Porque ela faltou? – ela insiste, indo atrás dele.
                – Não sei. – Sara começa a se enfurecer.
                – Você ficou com ela ontem a noite, você deve ter uma ideia do que aconteceu.
                – Olha, porque você não pergunta para ela, em? – Lucas para de andar e olha diretamente para Sara. A garota consegue sentir a raiva de Lucas e conclui que os dois brigaram feio.
                – Tudo bem. – amansa. – Me desculpe, perguntarei a ela depois da aula. – diz.
                Lucas sai sem dizer mais nada e Sara se conforma, indo até à sala de aula, para assistir as últimas duas aulas.
                A última aula começa, filosofia, Sara nunca gostou da matéria, nem mesmo dá a devida importância a ela, por isso, aproveita que não está sentada nas primeiras carteiras e começa a mexer em seu celular. Ao olhar envolta, percebe que metade da turma faz igual.
                Faltam apenas vinte minutos para o fim da aula, e Sara é surpreendida com uma mensagem via SMS de um número desconhecido.
                “Deposite quatro mil na conta 009130-5 ou contarei sobre o que aconteceu”
                Sara primeiramente acha que é apenas um grande mal entendido, mas ao reler a mensagem ela percebe que é mesmo para ela.
                Por impulso, ela retorna a mensagem:
                “Quem é você?” – ela pergunta.
                Demora dois minutos para que a resposta retorne.
                “Você sabe muito bem quem sou.”

                Assim que Lucas volta para casa encontra com o delegado o esperando na sala de espera. Ele toma um susto.
                 – O senhor não deveria estar aqui. – diz assim que o leva para seu quarto. –Meu pai não pode descobrir sobre nós. – explica.
                – Sei muito bem que seu pai está no trabalho. – o delegado dá de ombros.
                – Mas os empregados podem falar. – Lucas insiste.
                – Se você continuar reclamando, paro meus serviços por aqui. – o delegado fala grosso. – Não sou obrigado a escutar sermão de moleque. – Lucas bufa, acha um absurdo ter que aceitar uma humilhação do delegado sendo que ele está pagando pelos seus serviços, mas acaba aceitando, pois sabe que necessita dele.
                O delegado sorri ao ver o garoto calado, respeitando-o.
                – Com seu adiantamento foi miserável, não venho lhe trazer grandes informações. – diz, pegando um envelope em sua maleta. – Aqui tenho todas as chamadas e mensagens de telefone que foram feitas no perímetro e horário do acontecido. – diz tirando um pequeno maço de papeis de dentro do envelope. – Claramente que não tem o conteúdo da mensagem, muito menos da chamada, somente os números que fizeram e os que receberam as ligações. – Lucas se aproxima para olhar os números impressos nos papeis. – três telefones fizeram ligações para emergência no mesmo horário, um desses pode ser o da testemunha. – o delegado explica, apontando para os números, que foram marcados com um marca texto amarelo fluorescente. – Mas se fosse para apostar em um, eu diria que é este número. – ele aponta para um dos números marcados.
                – E por quê? – Lucas pergunta.
                – Este número recebeu uma chamada e trocou mensagens com esse outro número. – o delegado troca a página e aponta a um número marcado com marca texto rosa fluorescente. – a chamada durou pouquíssimos segundos, talvez uma das partes tenha desligado antes mesmo de se falarem, não sei, e depois trocaram duas mensagens, assim que a última mensagem foi trocada, o outro número ligou para a emergência.
                Lucas pega o papel em que o número marcado de rosa fluorescente aparece e sente todo o sangue de seu corpo borbulhar.
                – Você reconhece esse número, garoto? – o delegado percebe seu desconforto e o questiona.
                – Sim. – sua voz sai como um pio. – É o telefone de minha irmã.

Continua




Métis: Infelizmente é algo que grande parte das pessoas transexuais ou gays passam no seu dia a dia, acredito que isso um dia será algo totalmente do passado, e que viveremos em uma sociedade mais aberta as diferenças, principalmente agora que a mídia começou abrir mais espaço para falar e debater sobre esse assunto. Já me inscrevi no projeto, e estou muito ansiosa para poder participar. Muito obrigada por comentar. Bjsss.