sexta-feira, 14 de julho de 2017

14. Mantendo o Segredo (Parte 2)



Durante as férias           

                Rebecca ainda não entendia muito bem o sistema do lugar, no começo ela pensou que seria como um leilão, e a cada plaquinha que fosse levantada, mais alto o número ficaria, e ao mesmo tempo, a única coisa que Rebecca podia pensar era de um dia, quando ainda era criança, e seu pai lhe levou a um leilão de equinos. Seu pai queria fechar contrato com um grande empresário e como o homem era apaixonado com cavalos, o seu pai queria presenteá-lo. A garota não podia imaginar que se permitira chegar a este ponto.
                Mas agora ela via que não havia nada disso. Ela não precisou se exibir no palco, nem mesmo houve gritarias, plaquinhas ou martelo. Os garçons e até algumas meninas, chegavam e entregavam um pequeno papel nas mãos de Virginia. No papelzinho havia números, que era o valor que o cliente estava lançando, e o nome do cliente escrito embaixo. Era algo silencioso e, teoricamente, menos degradante.
                Virginia parecia analisar os lançamentos, sempre descartando os valores menores e ficando com os mais altos. A garota sempre foi rica e se acostumou a números extravagantes, mas não deixava de se espantar com o valor escrito.
                Nove mil.
                Nove mil e duzentos.
                Dez mil e quinhentos.
                Doze mil.
                Treze mil e novecentos.
                – Pare. – diz Virginia quando outro garçom vem lhe entregar um lance. – Será esse. – ela decide com o papelzinho na mão.
                – Mas o lance que eu trouxe é maior. – o garçom observa.
                – Não importa. – ela responde dura. – É esse. – bate o pé. Rebecca fica sem entender. – Jamais diga que eu não tentei lhe ajudar. – fala e Rebecca não se manifesta, principalmente porque não entende o comentário da mulher. – Você teve sorte, aproveite esse dinheiro, pegue-o e só retorno aqui quando já fores maior de idade. – diz séria. A menina apenas assente, concordando com a dona do estabelecimento.
                Assim que o vencedor levanta e vai à direção de Rebecca, ela se assusta com sua aparência. O homem é baixinho e barrigudo, ele veste uma calça social e uma blusa polo bem justa, ele carrega uma mala de mão.
                O cliente parece estar familiarizado com o ambiente e se dirige, sem pestanejar, até o quarto reservado, no fundo do estabelecimento.
                Era a primeira vez que Rebecca entrava ali, e seus olhos não podiam deixar de observar a todos os detalhes. A meia-luz, a cama redonda e enorme, com lenções brancos, espelho no teto...
                O homem logo tira sua blusa e revela um peito cheio de pelos, o que faz o estomago de Rebecca revirar. Ele tira a calça e ele usa uma cueca apertada e preta.
                Rebecca ainda estava próxima a porta, no fundo temia adentrar ao quarto, mas sua curiosidade a obriga a aproximar-se mais, a cueca não era apenas justa e preta, era uma cueca de couro.
                O homem começa a retirar alguns objetos de sua mala. A garota teme pelo que virá.
                – Pegue. – o homem diz a Rebecca, entregando-lhe um... Chicote?
                Ele se põe de quatro encima da cama e assim fica. Ao ver que nada acontece, ele olha para trás, onde Rebecca se encontra paralisada.
                – Bate. – ele pede e começa a balançar a mão, demonstrando-a como ele quer que ela faça.
                A garota está em choque, mas faz como o cliente manda, mas ela não agrada.
                – Mais forte. – ele pede. Ela o faz. – Não, não, mais forte. – ele insiste e Rebecca o chicoteia com vontade, e ao escutar o grito do cliente, se assusta, mas ele não a xinga, não reclama, apenas sorri, feliz com o que ela faz. – de novo. – pede e ela repete.
                Aquilo não era nada do que ela pensava que seria, porém, ela agora entendia o que Virginia queria dizer. Aquele homem não queria ir para cama com Rebecca, queria apenas que ela o batesse com o chicote e fizesse outras bizarrices.

                O desespero de Lucas poderia ser sentido de longe, mesmo ele se esforçando ao máximo para não demonstrar.
                O anúncio já estava publicado, o garoto estava fazendo de tudo para se livrar das evidências.
                – O que está fazendo? – o pai pergunta. – Porque você não foi ao escritório hoje? – reclama.
                – Estou vendendo o carro. – é sincero.
                – Como assim? – o pai se choca.
                – Não vejo necessidade ter um carro desses, temos tantos outros. – começa a mentir.
                – Você me atormentou meses por esse carro! – volta a reclamar.
                – Pois é, eu sei... Talvez eu esteja amadurecendo. – ele tenta amaciar o pai. – Não ligo mais para carros esportivos, acho que usar o carro da família já está bom. – dá de ombros.
                – Eu não vejo isso como amadurecimento. – o pai bufa.
                – Pois eu vejo. Vou reaver seu dinheiro.
                – Não completamente.
                – Mas, pai...
                – Olhe, eu não sei o que está acontecendo nessa casa, sua irmã agora é doida e você está indo para o mesmo caminho. Se isso for tédio, viagem para algum lugar, vocês ainda tem alguns dias antes da volta as aulas. Aproveitem de uma maneira mais produtiva. – O pai seguia com seu sermão, mas Lucas já tinha parado de prestar atenção há um bom tempo. O que o pai lhe falara, lhe dera uma ideia.
                Assim que se desvencilha do pai, Lucas corre para o quarto da irmã, que já dorme, mesmo ainda sendo cedo.
                – Acorde. – ele a sacode e a menina solta um grito de susto. O irmão não sabe, mas ela estava no meio de um pesadelo, ela sonhava com fogo e isso era algo recorrente desde o acidente. – Eu já tenho uma ideia. – Lucas ignora o susto da irmã e começa a falar. – Vamos viajar. – diz e Jade, agora mais consciente do mundo a sua volta, faz uma careta.
                – A gente pode ser preso e você quer viajar? – pergunta.
                – Tudo bem, acho que você não entendeu. – ele reformula. – Vamos fugir.
                – Está doido? E a escola? – Lucas ri.
                – Vamos ser presos, Jade. Sério que você está pensando na escola? – ele pergunta e a menina se cala por um instante.
                – Eu não sei se isso é uma boa ideia. – ela diz.
                – Claro que é.
                – O que você acha que o papai vai achar disso? – ela o questiona.
                – Ele não precisa saber.
                – Ele vai nos achar, Lucas, você sabe que ele vai. – e ao escuta-la dizer isso, o entusiasmo do garoto murcha.
                – Podemos pedir a ele para nos mudar de escola, que nos matricule em uma escola em outro país.
                – Ainda seremos presos.
                – Não, lá seria outra polícia, teríamos que ser extraditados... Seria uma confusão tão grande... – Lucas nem sabe se o que fala é verdade, mas ele sabe que estando longe, a captura dele e de sua irmã seria mais complicada.
                – Lucas, pare. – a irmã ordena. – Eu sei que não sou a pessoa ideal para dizer isso, mas: Se acalme. – Lucas ri em deboche. – Eu sei, eu sei, eu fui a primeira a me desesperar. Mas eu pensei... Até agora não aconteceu nada, eu estou procurando por notícias, mas não apareceu nada... Talvez o retrato-falado não tenha sido eficiente. Talvez ele não tenha nos enxergado direito. – ela diz. – Deveríamos olhar melhor, saber como está sendo a investigação. Estamos perdendo a cabeça, e nem mesmo sabemos se é necessário. – ela finaliza e Lucas pondera.
                – Eu sei exatamente o que vou fazer. – ele diz após pensar.
                Lucas corre para seu quarto e procura em seu celular o contato de um delegado, amigo da família.
                Ele disca o número.
                “Alo” – o delegado atende.
                – Delegado Martins?
                “Sim, é ele... Lucas, é você?” – o homem pergunta surpreso.
                – Sim, sou eu. – confirma.
                “Tudo bem, garoto?” – pergunta preocupado. Ele já havia feito vários serviços para o pai de Lucas, mas nunca havia recebido um telefonema do garoto.
                – Sim. – responde. – Eu preciso de um serviço seu. – fala. – Pagarei bem. – deixa claro.
                “Diga e eu farei.” – confirma e Lucas sorri aliviado. O seu inferno está prestes a se acabar...
                Ou prestes a começar?

Continua


sexta-feira, 30 de junho de 2017

13. Mantendo o segredo (Parte 1)


Durante as férias

                Os perfumes preferidos de Sara, a fazem mal, os alimentos, mesmo os mais leves, a fazem mal. Nunca em momento algum, a garota achava que se encontraria nessa situação.
                Percebendo o incomodo da namorada, Ricardo a questiona.
                 – Tem certeza que está tudo bem?
                – Sim. – ela insiste. – Acho que comi algo que me fez mal. – assume.
                – Você quer que eu a leve para o hospital? – pergunta.
                – Não. – ela deixa um pouco do desespero transpassar. – Meus pais podem fazer isso, fora que é só um mal-estar, não é como se eu estivesse doente. – tenta se tranquilizar, para assim também tranquilizar o namorado.
                – Você que sabe. – ele finalmente da de ombros. – Você quer voltar para casa? – pergunta. – Se estais tão mal, não creio que seja uma boa ideia irmos comer. – ele percebe.
                Ricardo tinha chamado Sara para passar o dia com ele, já que a as férias estavam acabando e ambos mal tinham se visto. Foram ao shopping, Sara aproveitou para fazer algumas compras e agora Ricardo havia dado a ideia de irem comer.
                – Acho melhor mesmo. – ela concorda. – Você não ficará triste? – ela pergunta.
                – Claro que não, tivemos um bom dia juntos, e não será o último. – ele garante e Sara sorri. Como que ela iria fazer para contar a verdade a ele?
                Os dois retornam para a casa de Sara e lá ficam conversando por mais um tempo, Ricardo tenta engatar um envolvimento mais quente, com beijos longos, mas Sara não consegue, a sua consciência não permite. No fim, Ricardo a deixa e vai para sua casa.
                Ás seis da tarde, quase na hora de encerrar seu expediente, Eleonora entra no quarto da patroa, que, por estar com mal-estar, já se encontra deitada. A empregada se aproxima da cama, mas não o suficiente para encostar, sabe o quanto a menina é nervosa, não quer que ela brigue.
                – Senhorita Sara. – ela a chama com a voz delicada. Sara abre os olhos e faz uma careta ao ver a empregada, mas não diz nada, talvez a gravidez já esteja lhe amolecendo. – Trouxe algo para você. – a emprega abre a mão, revelando um saquinho com um pó cinza.
                – O que é isso? – Sara se levanta num pulo.
                – É o que eu lhe prometi. – Eleonora responde. – Para... O... – fica indecisa se deve falar a palavra ‘aborto’ ou não.
                – Ah... Sim... – Sara sorri e pega o saquinho.
                – O gosto é um pouco forte, amargo, mas não deve lhe incomodar muito, coloque num suco ou vitamina, ou iogurte, uma colher de sopa por dia, durante uma semana.
                – Uma semana? – Sara reclama.
                – Pode ser que funcione antes, mas para garantir... – Eleonora orienta. – Você não deve sentir nada se seguir as orientações. No fim do processo, refaça o teste. – a mulher sorri.
                – E quanto lhe devo? – Sara pergunta. Eleonora hesita.
                – Só quero lhe ajudar. – responde por fim. Sara fica desconfiada da bondade, ninguém faz isso.
                – Amanhã deixarei algo para você na primeira gaveta da minha escrivaninha. – Sara diz, ela precisa garantir o silêncio da empregada. – Como forma de agradecimento. – finaliza. Eleonora apenas assente e se vai sem dizer mais nada.


                Enquanto isso, Rafael vive dias infernais em sua casa. Ele tentou arranjar desculpas para justificar os pontos na cabeça da irmã, mas nada convencera a mãe, e desde então, ela não mais fala com ele, percebendo isso, o pai, preocupado, vai falar com o filho.
                – Não entendo muito bem o que está acontecendo com vocês dois, tentei falar com sua mãe, mas ela disse que era para eu falar com você. – o pai parece sem jeito, não sabe como falar com o filho, pois nem mesmo sabe por onde começar.
                – Não é nada, pai. – Rafael tenta desconversar.
                – Filho, eu sei que não sou tão presente, mas ainda sou seu pai, eu amo a nossa família, vê-la assim... Se destruindo... Eu quero ajudar.
                Rafael hesita, seu pai parece aberto a escutar, mas o quanto ele está aberto a aceitar o que ele tem a dizer, ainda é uma dúvida.
                Falar sobre sua transexualidade com o pai seria o último passo para a conquista da sua liberdade, pois após isso, ele aceitando ou não, Rafael começaria sua transição. Mas isso, ao invés de incentiva-lo, só o deixava mais nervoso. O‘não’ ou o ódio do pai seria demais para ele, que já tanto sofria pela forma fria que a mãe vinha lhe tratando.
                Rafael desiste.
                – Ela está chateada comigo porque eu quero sair do futebol. – mente. Seu pai parece ter dificuldade em assimilar o que escutara.
                – Só por isso? – ele estranha.
                – Pois é, eu disse, não é nada. – Rafael torce para ter convencido ele.
                – Confesso que tampouco entendo porque você quer sair do futebol, você sempre pareceu gostar de jogar.
                – Sim, eu ainda gosto, mas é o último ano, quero me concentrar nos estudos. – segue mentindo.
                – Ir bem no futebol também lhe ajudará a entrar na faculdade. – o pai pondera.
                – Ajuda caso eu queira ir para área dos esportes, mas prefiro fazer algo que ajude na empresa. – o pai fica realmente surpreso e começa a rir de felicidade.
                – Eu não sabia que queria seguir com a empresa. – ele o abraça brevemente. – Sempre temi que no fim você somente levaria o nome e deixaria tudo nas mãos dos investidores. – diz o pai. – Eu fico tão feliz em saber que você quer liderar. – ao ver a felicidade do pai, Rafael não pode evitar de imaginar em como seria seu futuro frente a empresa, já se imagina fechando bons negócios, triplicando a renda... Mas assim que se vê de terno, como homem, seu sorriso se desmancha. – Assim que você entrar na faculdade, já lhe colocarei em estágio na empresa, algo leve, para que não lhe atrapalhe... Mas será ótimo para experiência. Afinal, assim que você formar, me aposentarei. – anuncia.
                – Mas... Pai...
                – Fique tranquilo, ficarei pelo menos um ano lhe orientando por trás das cortinas, tampouco sou louco, sei que não se sai pronto da faculdade, mas acredito em você, meu filho, meu menino, meu homem. – e dá um tapa nas costas de Rafael, não é um tapa forte, para machucar, mas sim uma forma de ostentar a masculinidade, o orgulho por ter um filho homem. Homem.


Continua


terça-feira, 20 de junho de 2017

12. As consequências de Lucas



                Na primeira noite Lucas havia dormido muito mal, os gritos, tanto da mulher quanto da sua irmã, ecoavam em sua mente, só após se entupir de soníferos que ele conseguiu dormir. O segundo dia tinha sido difícil, por ter tomado tanto remédio, ele custou para acordar e quando conseguiu já era tarde da noite. O terceiro dia foi bom, ele conseguiu acordar num horário normal, e o seu pai lhe chamou para acompanha-lo na empresa e foi nesse dia que ele decidira: Não iria deixar aquele acidente abala-lo. No mesmo instante ele se aprontou e saiu de casa, voltaria com seu negócio como traficante e desta vez procuraria a ajuda de alguém, e graças a algo que acontecera na empresa do pai, ele já sabia muito bem a quem chamaria. O quarto dia parecia promissor. Envolto em dinheiro, Lucas dormira como um bebê, sem remorso, pesadelo ou angustia, após uma noite com Rebecca no luxuoso prostibulo, ele havia faturado bem, mesmo contando com o valor pago a Rebecca, ele tinha uma margem de lucro favorável. Porém assim que chegou a mesa do café da manhã seu animo decaiu.
                Sua meia-irmã, Jade, estava um verdadeiro caco, era bem claro que ela não havia superado o que acontecera.
                O pai estava sentando a mesa, concentrado em seu jornal nem mesmo viu quando o filho se aproximou, a mãe dele tomava com seu café com cara de nojo, ela olhava para a filha postiça e fazia caretas de reprovação. Apesar de sempre ter cuidado da garota, ela nunca gostou muito da menina, e agora, que a mesma se deteriorava, o horror que a mulher sentia estava aumentado.
                – Bom dia, Lucas. – o pai o cumprimenta, assim que se permite distrair um pouco jornal. – acordou disposto hoje? Pois precisarei de você na empresa novamente. – anunciou.
                – Claro, pai. – Lucas sorri fraco, ele não queria ir, mas não poderia falar não, por mais que esteja faturando bem, ele só pretende se rebelar quando já for tão rico quanto o próprio pai.
                – Ótimo, sairemos daqui uma hora, então não demore muito nesse desjejum. – diz e volta a ler seu jornal.
                Enquanto Lucas começa a se servir, Jade se levanta sem tocar num pedaço da comida e sem dizer nada, ela se refugia em seu quarto.
                – O que aconteceu com essa garota? – pergunta o pai.
                – Não sei, já faz uns dias que ela está assim. – a mãe dá de ombros.
                – Você deveria saber. – pai reclama. – Você é a mãe.
                – Não. – a mãe contesta. – Você é o pai.
                – Eu trabalho, você fica em casa, você tem como única obrigação cuidar das crianças. – ele ignora o que a mulher diz.
                – Crianças? – Lucas pergunta rindo, querendo acabar com o clima de briga.
                – Crianças. – o pai confirma. – Você por acaso trabalha e conquista o seu próprio dinheiro?
                Sim.
                – Não. – mente.
                – Então, sim, você ainda é uma criança. – diz duro.
                – Como achar melhor. – Lucas diz divertido.
                – Se você continuar a agir assim, talvez eu repense sobre o seu cargo na empresa. – seu pai se estressa. – Não vou dar minha cadeira para alguém que não leva nada a sério.
                – Você nunca vai dar sua cadeira a ninguém. – Lucas diz monótono.
                – Eu... – o pai começa a gritar, mas a mãe o interrompe gritando ainda mais alto.
                – Pelo amor de Deus, será que não podemos ter um café da manhã em paz? – bufa. Os dois homens se entreolham assustados com a reação da mulher.
                – Acho que vou me arrumar. – Lucas diz, largando uma torrada comida pela metade, no prato a sua frente. – afinal, preciso mostrar seriedade para roubar a cadeira de meu pai. – ele diz e ri.
                Antes de sair Lucas pode jurar que escutou o pai rosnar.
               
                Antes que chegue a seu quarto, Lucas passa na frente do quarto de sua irmã, que deixou a porta entreaberta.
                Ele hesita, mas adentra ao local.
                O quarto está com as luzes apagas e com as cortinas fechadas, como elas tem blackout, o lugar está escuro, mesmo estando dia.
                – Ei, dá para você parar de agir assim? – ele tenta pedir da maneira mais delicada possível.
                A irmã está sentada em sua escrivaninha, lá o abajur está ligado e é o único ponto de luz no local.
                – Me desculpe se não consigo ser tão insensível. – ela rebate.
                – Não é ser insensível, nós fizemos o que pudemos, não tinha o que fazer naquele momento. – ele diz se aproximando mais ainda da irmã.
                – Não tinha? – ela pergunta, se levantando e encarando o irmão. – será que não tinha mesmo?
                – Não tinha. – ele garante.        
                Jade pega algo de cima da escrivaninha e entrega ao irmão. É um pedaço de jornal, nela apenas uma notícia e o título diz: Família sobrevive a gravíssimo acidente em rodovia.
                – Alguém os encontrou logo após a gente sair, e chamou o socorro. O carro não explodiu, o fogo se manteve apenas na parte dianteira do carro, e pegou apenas as pernas da mulher, que teve 89% das pernas queimadas, ela está em estado grave, mas estável, o bebê foi retirado com vida e está na UTI neonatal, os médicos dizem que a chance de sobrevivência é grande, o homem está internado, sem risco de vida, mas ele perdeu os movimentos da perna, os médicos acreditam que ele não perdeu os movimentos por causa da batida, mas sim por causa do atropelamento que ele sofreu, ao ir pedir ajuda na estrada. – Jade resume. Lucas olha para a irmã, boquiaberto, não podia acreditar que ela estava falando a verdade. – A mulher está sobre efeito de fortes medicações, por isso não pode dar depoimento, a polícia estava esperando o homem se acalmar, para fazer o retrato falado do atropelador que negou socorro, pois negar ajuda a vítima, após atropela-lo, é crime. –a irmã continua. – Isso foi há quatro dias, então eu acredito que o depoimento do homem já deve ter sido feito. – ela faz uma pausa. – Eu não estou agindo assim apenas pelo que aconteceu, irmãozinho, eu estou assim porque já sei o que vai acontecer em breve.
Continua

Capítulo postado, espero que tenham gostado.

Obg. 

terça-feira, 13 de junho de 2017

11. As Consequências de Rebecca

Durante as férias
               

                Rebecca sorria enquanto reexperimentava as roupas adquiridas no dia anterior, ela nunca dera tanto valor a roupa nova como dava agora, pois hoje ela sabe o real valor que elas têm.
                 A hora de voltar à luxuosa boate, de clientes especiais, já estava chegando e ela se arrumou com ainda mais emprenho. O vestido é mais justo, o decote levemente mais acentuado, o perfume mais forte.
                Assim que fica pronta ela vai ao quarto do pai, ele está jogado em sua cama e totalmente desacordado, ela nem mesmo precisa chegar perto para sentir o cheiro de álcool que flui de seus poros.
                Rebecca tem que suspirar fundo umas duas vezes antes de conseguir sair dali sem chorar.
                Desta vez ela vai sozinha, de táxi. Sim, ela tinha que economizar, e se não fosse um lugar longe, ela até iria a pé, mas nunca, jamais, em hipótese alguma, ela se sujeitaria a entrar num transporte público.
                Assim que chega à boate, ela termina de se preparar, colocando a mascara em sua face. Ela adentra no salão, e o local já esta cheio de clientes, Rebecca procura, mas não encontra a Lucas, ela fica sem saber o que fazer. A garota não tem nem mercadoria, nem a lista com os nomes dos clientes.
                Rebecca pega seu celular para entrar em contato com Lucas, mas antes que tivesse a oportunidade de discar o número completo, alguém a aborda.
                – Nada de celular dentro do salão. – a pessoa diz. Rebecca olha para a dona da voz e percebe o mal intendido, ela já havia visto aquela mulher falando com as garotas que trabalhavam ali. Lucas havia explicado que ela é a dona do estabelecimento, ele até tinha falado seu nome, mas ela não lembrava mais.
                A mulher é alta e bem magra, sua pele é negra e lisa, quando as luzes dos refletores tocam em sua pele, sua pele brilha de tão uniforme. Ela tem a cabeça raspada, e isso deixou Rebecca confusa no primeiro dia, pensava que a dona do lugar tinha alguma doença, mas Lucas logo esclareceu que não era por isso, a careca era por vontade da negra e não uma consequência de alguma doença.
                De perto, Rebecca podia ver os grandes cílios e a boca carnuda da dona do local, o brinco que ela usa é grande e de aparência pesada, mas é um brinco muito bonito. Seu corpo esguio é coberto por um vestido de alcinha, preto e longo, e um decote grande que quase chega a seu umbigo, completa seu visual.
                – Eu não trabalho aqui. – a garota diz.
                – Trabalha sim. – a mulher responde. – Junto a Lucas. – sorri e revela dentes extremamente brancos e grandes. – Não tente me enganar, eu sei de tudo.
                – Mas eu trabalho com o Lucas, não sou... – ela hesita em dizer a palavra que tem em mente.
                – Uma prostituta? – a mulher levanta uma das sobrancelhas. Rebecca engole o seco, no fundo ela tinha esperança que o local fosse apenas para bebedeiras e diversão, não esperava que aquelas meninas fossem realmente garotas de programa. – Eu sei muito bem o negocio que você e o Lucas fazem. Não gosto, mas aceito porque me traz mais clientela. – a mulher começa. – a questão é que quando era só ele, tudo estava bem, mas agora, com você...
                – O que tem eu? – Rebecca se assusta.
                – Estes homens pagam fortunas para terem a noite de estreia da ‘garota nova’ e, teoricamente, você é a ‘garota nova’. – a mulher explica.
                – Mas meu trabalho é outro. – Rebecca deixa claro.
                – Eu sei. – a mulher diz. – Mas eles. – diz apontando para os clientes no local. – eles não sabem. Muitos não se importariam em descobrir a verdade sobre você, mas outros não reagiriam da mesma forma. – a mulher se põe frente à Rebecca, obrigando a garota a olha-la. – Eu construí esse lugar do zero, uma lugar onde homens da classe alta pudessem realizar seus desejos mais obscuros sem temer, eu não vou deixar que você e aquele moleque do Lucas estraguem isso. – a maneira em que a mulher fala deixa Rebecca arrepiada.
                – O Lucas pode conversar com eles, só espere ele chegar. – Rebecca não sabe o que dizer.
                – Você confia muito no garoto e isso não é bom. – a mulher diz. – conheço pessoas como ele. Ele não se importa, Rebecca.
                – Mas ele me contratou. – Rebecca continua nervosa.
                – Eu sei. – a mulher sorri. – Mas, pelo jeito, esqueceu-se de lhe avisar que ele não vem todos os dias. – informa e solta uma gargalhada ao ver a cara de Rebecca. – Ele só vem quando precisa, portanto, você está aqui sozinha hoje. –diz.
                – Então é melhor eu ir. – ri nervosamente.
                A dona do estabelecimento não abre passagem para que a garota saia.
                – Se você está aqui é porque precisa do dinheiro. Correto? – a mulher pergunta e não recebe uma resposta. – Imaginei. – sorri amigável. – Muitas que estão aqui são como você, bem de vida, mas que estão falidas, ou simplesmente são rebeldes. Eu não pego qualquer uma na rua. – diz orgulhosa.
                – O que o Lucas falou com você? – Rebecca pergunta nervosa, querendo bater no rapaz que a trouxe neste lugar, na noite anterior, afinal, ele havia prometido que não contaria sobre a falência de seu pai a ninguém.
                – Ele não precisou falar nada. – a mulher diz. – Só de olhar sua pele, seu cabelo, suas roupas... Só de você andar com o Lucas, eu vejo que não és uma traficante pobre, você não está aqui porque precisa alimentar a família inteira, ou por má influencia, pois vive numa vizinhança perigosa. Você não está aqui porque não teve uma boa educação. Ou você está sem dinheiro, e decidiu pegar o caminho mais fácil, ou você quis colocar um pouco de adrenalina nesta vida vazia, mas cheia de luxo, que você leva.
                – Você parece saber demais para o meu gosto. – Rebecca se irrita.
                – Já você não parece nem saber meu nome. – observa. – Virginia. – estende a mão para, finalmente, cumprimenta-la. Rebecca não retribui. – A questão é, os lances em você já estão em 7 mil...
                – Espere. – Rebecca a interrompe. – Você está me leiloando?
                – Você que apareceu aqui, não é como se eu tivesse o controle.
                – Você mesmo disse que é a dona do lugar...
                – O sistema aqui é simples. – Virginia a interrompe. – Uma garota de mascara aparece, os lances são dados, quem der mais leva a garota para o quarto, é algo simultâneo, automático, uma regra da casa, se você não tivesse colocado esta maldita mascara, nem se achegado nos homem ontem, nada disso estaria acontecendo. Mulheres de cara limpa não são para dar lances, mulheres de máscara são. – Virginia diz firme e Rebecca novamente fica calada. – Você não foi para cama com nenhum cliente ontem, por isso seu valor aumentou consideravelmente, caso você seja virgem eu consigo triplicar o valor em um minuto. – a mulher sugere.
                – Eu... Eu não sou... – Rebecca responde sem nem saber o porquê. Virginia faz uma careta.
                – Nem sei por que pergunto, vocês nunca são... – lamenta.
                – Eu sou menor de idade. – Rebecca se surpreende ao lembrar-se disso, sua menor idade nunca a impediu de fazer nada antes. Ainda faltavam três semanas para seu aniversário, onde ela se tornaria, perante a lei, uma adulta.
                – Isso sem duvidas duplica seu valor. – Virginia diz como se não escutasse o absurdo que acabara de dizer.
                – Isso é... – Rebeca está chocada com tudo isso.
                – Nojento e ilegal. – Virginia confessa. – Mas eu não disse que esses homens são santos, eles amam uma virgem e adoram uma novinha. É repugnante, mas é lucrativo. – diz. –Eu não vou lhe obrigar a nada, Rebecca, mas quero que saiba, a ‘garota nova’ sempre recebe o valor integral e em dinheiro vivo, se você aceitar eu ainda consigo aumentar seu valor. – Rebecca não podia acreditar que realmente estava pensando em aceitar. – Beba um pouco, disfarce o nojo, faça barulho, no fim, diga que ele foi o melhor de sua vida e vá embora para casa com muito dinheiro na bolsa. – aconselha e sorri.  – Eu tenho o seu sim?

Continua


Novo capítulo postado, espero que gostem.

domingo, 4 de junho de 2017

10. As consequências de Rafael



                O pronto socorro está movimentado, o bairro de classe baixa é perigoso e isso reflete nos casos de urgência que surgem a cada instante, ainda assim, o movimento intenso não parece afetar a Rafael, que, sentado no canto da sala de espera, já não se importa com os olhares que recebe, afinal, ele tirou a peruca e sua maquiagem está borrada, sua aparência causa estranhamento. Linda está sentada a seu lado e se mantem calada, não sabe o que dizer, não sabe como se desculpar... A mulher transexual resolveu deixar sua mãe em casa, a pobre idosa estava desesperada demais, leva-la ao pronto socorro só deixaria a Rafael ainda mais apreensivo.
                – Vocês são os parentes da Anna Barcellos? – o médico pergunta e Rafael salta da cadeira.
                – Sim, eu sou o irmão dela. – ele diz e o médico o olha de maneira estranha. – Ela está bem?  - Rafael pergunta tentando voltar à atenção do médico ao assunto que realmente interessava.
                – Ela já está acordada e consciente, não apresentou nenhuma alteração nem na tomografia nem no Raio-x, ela tem um grande corte na parte de trás da cabeça, tivemos de dar cinco pontos, mas no mais não parece ter nada de errado. – Rafael suspira aliviado. – Ainda assim, não vamos libera-la ainda, queremos mantê-la em observação, só para garantir que está realmente tudo bem. – o medico completa.
                – Tudo bem. – Rafael concorda enquanto ainda assimila tudo o que acabara de escutar. – Posso vê-la? – pergunta.
                – Sim, ela está sob o efeito de um remédio para dor, por isso está um pouco mais letárgica, mas não se preocupe, ela está bem. – o médico avisa e Rafael assente. – Você também quer entrar? – o médico pergunta a Linda, que a todo o momento esteve ao lado de Rafael, mesmo sem se manifestar.
                – Acho melhor ele ir sozinho. – Linda responde, querendo respeitar o espaço do amigo, que até o momento se apresentou arredio a sua presença.
                – Eu quero que você vá. – ele diz de maneira bruta, sem olhar para a amiga.
                Ambos entram no quarto em que a menina está internada, ela divide o mesmo ambiente com outras três pacientes, uma, que parece jovem, da idade de Rafael, está bem machucada e ele é obrigado a virar o rosto para não ver a profundidade dos ferimentos. Já a outra mulher é bem mais velha, recebe soro na veia e faz uma careta ao ver as amigas entrarem no quarto.
                – Ei pequenina. – a menina sorri ao vê-lo. – Você está bem? – ele pergunta carinhosamente. Confusa a menina o olha, ela nunca tinha visto o irmão daquela maneira. – Sou eu. – ele toca em sua mãozinha. – Seu irmão. – a menina volta a sorrir, parece reconhecê-lo agora. Linda se mantem dois passos atrás, observa a menina de longe, e agradece a Deus por ver que a ela está sã e salva. – E agora, o que eu faço? – Rafael se dirige a amiga. – Como que eu vou esconder isso? – ele diz pegando a cabeça da irmã e mostrando onde ficaram os pontos. – O cabelo dela já é ralo, ainda rasparam essa parte, como que eu escondo isso? – Rafael começa a se alterar.
                – Não sei. – Linda se mantem calma. – Mas podemos pensar. – ela começa a tentar encontrar ideias em sua mente, instantaneamente.
                – Eu nunca deveria tê-la deixado com sua mãe. – ele lamenta. – Ela é velha, é claro que ela iria dormir com um livro na mão.
                – Foi um acidente. – Linda parte em defesa da mãe.
                – Isso não teria acontecido se eu tivesse ficado em casa, quieto, apenas brincando com ela. – Rafael responde alterado.
                – Então a culpa é minha? – Linda pergunta, se segurando para não se descontrolar.
                – Você que insistiu. – Rafael responde seco.
                – Claro. – Linda morde os lábios. – Talvez você devesse falar a verdade, começar com isso seria uma boa, evitaria que coisas assim acontecessem. – ela diz e Rafael fica vermelho de raiva.
                – A primeira coisa que você me disse quando me conheceu é que todos nós temos nosso tempo, que eu não deveria me cobrar e muito menos apressar-me. Você teve seu tempo, você teve seu apoio, eu não tive isso, eu não estou tendo isso! – ele já se alterou completamente.
                – Eu tive meu tempo? Eu fui obrigada a me assumir, fui obrigada por eu precisava que alguém me apoiasse, porque eu estava sofrendo, pessoas riam de mim, e falavam de mim, eu apanhava... Porque você acha que eu vivo nesse fim de mundo? Sabe essa velha que você tanto culpa? Ela lutou contra tudo e todos para me defender, sim, eu tive o suporte dela, mas ela foi abandonada pelo marido, virou inimiga da família, perdeu a maior parte dos amigos dela, passou fome só para que fosse quem eu sou. Eu já apanhei demais nessa vida, Rafael, e eu só queria te ajudar. Você pensa que está sofrendo? Você acha que eu tenho a vida perfeita? Que tudo foi perfeito para mim? Não existe vida perfeita para pessoas como nós. – Linda não consegue segurar.
                – Por favor. – uma enfermeira os interrompe. – Aqui não é lugar para discussões. – ela diz séria.
                – Eu já estava indo. – Linda responde antes que Rafael tenha a oportunidade de falar algo. – Eu realmente espero que seja melhor para você do que foi para mim, Rafael. – ela diz agora mais calma. – Melhoras para sua irmã. – deseja e parte junto à enfermeira.
               
                A menina recebe alta ainda durante a manhã do dia anterior. Rafael a leva para casa e passa o dia tentando encontrar os melhores penteados para esconder a linha dos pontos na cabeça da irmã. A pequena reclama algumas vezes e isso o faz se desesperar, ele teria apenas um dia para inventar uma desculpa cabível.
                Depois de muito tentar, Rafael consegue amarrar o cabelo da irmã em um coque torto, mas que deixa um tufo denso de cabelo bem encima dos pontos, que acabam sendo escondidos. Ele sabia que esse penteado não duraria para sempre, mas tinha esperança que isso o desse mais tempo para pensar numa justificativa válida.
                Aquele seria o domingo mais apreensivo da vida de Rafael, após receber a ligação que os pais já estavam retornando para casa, ele deixou que a apreensão tomasse conta de si.
                Tomou repetidos banhos, para ter certeza que não havia mais nenhum vestígio de maquiagem ou brilho em sua pele, certificou-se de que as vestes e a peruca que Linda o colocara estavam bem escondidas, e fez e refez o coque na cabeça da irmã, até que a mesma já se irritasse e corresse do irmão, sempre que o via com a escova na mão.
                Quando os pais de Rafael chegaram, já era tarde da noite, ambos estavam cansados da viagem. O pai pouco falou, apenas cumprimentou os filhos, perguntou ao garoto se tudo estava bem e foi tomar um banho para se deitar, já a mãe, após fazer as mesmas perguntas que o pai fizera, andou pela casa a procura de alguma bagunça, talvez ela suspeitasse que o filho tivesse feito alguma festa na ausência dela, no fundo ele acredita que ela teria gostado, caso isso tivesse acontecido, mas como, obviamente, não encontrou nada, pediu ao menino que pedisse uma pizza, caso este estivesse com fome e foi dar atenção a filha menor, que já estava sonolenta a essa altura.
                Rafael dormira aliviado durante aquela noite, mas ao acordar deu de cara com a mãe bem ao lado de sua cama.
                No susto o garoto deu um pulo, revelando seus trajes de dormir, que consistiam em uma cueca samba-canção azul, e uma meia, branca, nos pés.
                Séria, sem nenhum sorriso em seu rosto e com os braços cruzados, a mãe perguntou:
                – Você pode me dizer o que é aquilo na cabeça da sua irmã?

Continua


Olá a todos, mais um capítulo postado, espero que gostem.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

9. O Segredo de Rafael (Parte 2)

                Rafael joga no time de futebol da escola, o time é bom e ele é um ótimo jogador. Ele já está acostumado a vencer campeonatos, ser louvado como o melhor jogador do time, ter seu nome enaltecido nas arquibancadas, quando ele joga bem. Ele está acostumado a levantar troféus e medalhas, e tudo isso é ótimo, mas ele nunca se sentiu tão radiante como agora, que se olha no espelho da penteadeira e vê o que realmente é. Uma mulher.
                – Deveríamos sair. – Linda sugere. – Para estrear seu look num lugar bem legal, para todo mundo verem.
                – Não sei se é uma boa ideia.
                – Claro que vamos a um lugar legal, que tenha outras como nós. – Linda sente o medo de Rafael. – Nada de boate hétero. – ela revira os olhos.
                Rafael se sente tentado a aceitar, mas recua novamente.
                – Talvez outro dia. – suspira. – Tenho que cuidar de minha irmã.
                – Ela pode ficar com minha mãe. – Linda insiste. – Vamos lá... – Rafael continua indeciso. – Sério que você me deu esse trabalho todo por nada?
                – Foi você que deu a ideia. – Rafael se defende.
                – Ainda assim, você deu trabalho. – Linda contrapõe. – Olhe esse nariz. – Linda força o queixo de Rafael, para que ele se olhe mais de perto no espelho. – ele está três vezes menor. – ela o solta. –Não mesmo garota. Você vai fazer jus ao meu trabalho.
                – Eu nem trouxe dinheiro para algo assim. Boates são caras.
                – Você está me chamando de mão fechada é? Eu posso muito bem pagar para você hoje, e você fica me devendo uma. – ela diz.
                – Não sei...
                – Eu me cansei de escutar você falando que só não se transformava ou andava comigo porque seus pais estavam por perto, mas agora eu lhe pergunto: o que te impede? – Linda o questiona. – Eles não estão aqui para lhe impedir, se for só medo, diga, eu posso lhe ajudar, eu quero lhe ajudar, mas eu não posso fazer nada se você não falar o que realmente te aflige.
                – As pessoas vão perceber...
                – Pare com isso. – Linda o interrompe antes que ele possa terminar a frase. – Olhe para mim, eu já estou quase totalmente transformada, falta muito pouco para que minha transição esteja completa, e eu ainda recebo olhares, e é bem provável que eu receberei olhares minha vida inteira. Se você quer ser o que é, é preciso que você encare isso de frente.  – Rafael sente seu coração acelerar, sua cabeça está confusa, queria que fosse diferente, queria não sentir o que sente, mas ao mesmo quer sentir o que sente, quer ser quem é. Ele quer que se assumir, queria se mostrar como é para os outros, e queria que isso não o deixasse com tanto medo.
                – Vamos ficar pouco. – ele diz. – E se eu me sentir incomodado...
                – Incomodada. – Linda o corrige e ele ri. – É melhor começar ir se acostumando.
                – Incomodada. – Rafael corrige com um sorriso na face. – Voltaremos no mesmo instante. – termina.
                – Prometo. – Linda sorri. – Pronta para se divertir?
               
                Linda e Rafael deixam Anna sobre os cuidados da velha mãe, que assim que soube de sua tarefa, largou sua TV e foi ao quarto da filha, com um livro na mão, lá iria se dedicar apenas à pequenina.

                Novamente as duas se encontram no metrô, Linda percebe o medo da amiga e segura sua mão durante a maior parte do percurso.
                Ambos desembarcam a apenas um quarteirão da rua mais badalada de toda a cidade, bares e boates se espremem de ambos os lados da rua, chamando a atenção de jovens de diferentes tribos.
                A rua está movimentada, há barulho vindo de várias partes.
                – Eu conheço aqueles dois. – Rafael aponta a um casal que adentra em uma boate.
                – Aquele casalzinho ali? – Linda zomba e Rafael ri.
                – Eles não são um casal. – Rafael estranha.
                – Agora são. – Linda dá de ombros. – Muito pode ocorrer durante as férias. – joga uma indireta que Rafael, distraído, não pega.
                – Não. – Rafael implica. – Eles não podem namorar, ela namora o irmão dele. – ele se sente irritado.
                – Uau, babado. – Linda ri. – Sério que isso vai lhe desanimar? – ela percebe que ver o casal traidor desanimou a Rafael.
                – O namorado dela é meu amigo. – ele se justifica.
                – Então diga a ele o que você viu, quando tiver a oportunidade, só não estrague o avanço que você acabou de fazer. – Linda pede.
                – Tudo bem. – Rafael suspira, após convencido.
                A boate em que entram está lotada, plumas voam para todo lado, música alta e luzes bailam pelo ar. A pista de dança está cheia, então as amigas se refugiam no bar.
                Não bebem muitos drinques, pois são interrompidas por uma ligação inesperada.
                Ambas correm para fora da boate e, ao invés de pegarem o metrô, voltam à casa de Linda de táxi.
                O valor cobrado pelo taxista é alto, e Linda gasta tudo o que tinha na carteira.
                Quando chegam, a rua estranha e escura, está cheia, uma roda de pessoas curiosas se forma bem a frente do prédio de Linda.
                Antes que elas possam chegar perto, são interrompidas pela mãe de Linda, que chora em desespero.
                – Me perdoem, eu dormi, eu não vi! – ela repete compulsivamente.
                Rafael a ignora e se aprofunda na multidão, lá ele vê a irmã, estirada no chão. Há sangue e ele não consegue reagir.

Continua

Segunda parte postada, espero que gostem.
Agora a história estrará em uma segunda parte, e muita coisa vai acontecer.

Comentem se gostaram.

8. O Segredo de Rafael (Parte 1)



Durante as férias

                A porta se abre e Rafael dá um pulo de susto. Seu coração está acelerado e seus olhos arregalados.
                É só sua mãe.
                Ele se acalma, mas não fica feliz, pois seu olhar de reprovação não permite.
                – Poderia ser seu pai. – ela diz num tom amargurado e fecha a porta, atrás de si, bem rapidamente.
                – Eu sei. – Rafael olha para o chão, sem coragem para encarar a mãe.
                – Tire isso logo ou, pelo menos, vista algo por cima, tampouco sou obrigada a ver isso. – a mãe ordena e Rafael tira o sutiã, e se olha no espelho, seu tronco agora está nu, e para ele, incompleto.
                Sua mãe percebe seu incomodo, mas ignora, ainda é difícil para ela entender ao filho, ou filha, ou sabe-se lá o que ele realmente é.
                Ela trás as roupas que acabara de lavar e as coloca, vagarosamente, no armário do filho.
                – Você vai ficar trancado aqui durante as férias? – ela o questiona. – Você não saiu com nenhum amigo desta vez. E não falta muito para que suas aulas voltem. – observa.
                – Talvez eu saia. – ele dá de ombros.
                – Talvez... – sua mãe não fica satisfeita. – Olha, eu sei que tem todo esse... Negócio...
                – Não é ‘negócio’, sou eu. – ele diz. – Você não entende.
                – Não entendo mesmo, você não é isso que você quer insistir que é. – a mãe briga.
                – Eu não sou esse que vocês insistem em dizer que eu sou! – Rafael contrapõe e a mãe olha para ele de maneira reprovativa.
                – Você é o melhor jogador do time de futebol da escola, você é o garoto que trouxe a primeira namoradinha aqui em casa aos 11 anos, você é um homem, tem um corpo bonito de homem, feito para enlouquecer todas as garotas...
                – Mãe, mãe, pare. – Rafael a interrompe. – Você está se escutando? – ele a pega pelo braço e a obriga a olhar em seus olhos. – Tudo isso é um absurdo.
                – Absurdo? – ela ri nervosamente. – Absurdo é isso que você está fazendo, Rafael, como você acha que nossa família vai reagir? – Rafael se cala. – Exatamente. – a mãe diz. – Pare com isso, Rafael, pare enquanto você ainda pode. – ela pede e se desvencilha das mãos do garoto.
                Sem animo para continuar colocando as roupas no armário, ela sai do quarto, deixando a cesta de roupa no chão.
                Rafael se olha no espelho que fica na porta do seu armário. Sua face demonstra sua tristeza e desanimo.
                Seu corpo não é seu corpo, para muitos ele pode parecer ter o corpo ideal, alto, magro e com músculos bem formados, mas Rafael não consegue se sentir feliz por isso, pois este não é o corpo em que ele se sente confortável. O corpo ideal teria as curvas e delicadezas de um corpo feminino. Seus lábios seriam mais comportados e menores, seus peitos e bunda seriam maiores, seu cabelo seria longo, sua sobrancelha estaria feita e ele não teria aquele pomo de adão bem no meio de sua garganta. Mas, antes de tudo, ele não teria o que tem entre as pernas, e no fim, para ficar tudo completo, ele não seria ele. Ele seria ela.
                Sua mãe o surpreende ao adentrar novamente ao quarto. Ela não sorri e mal o olha.
                – Seu pai e eu passaremos o fim de semana na casa de sua tia, já que você não vai sair, pode olhar sua irmã? – a mãe pergunta, tentando não soar rígida.
                – Claro. – Rafael sorri. Ele ama a irmã caçula, e cuidar dela seria um prazer.
                A irmã mais nova de Rafael, Anna, tem apenas dois anos de idade, sua inocência é o que mais encanta a Rafael, com ela, ele se sente à vontade para conversar, porque ela não o julga, talvez pela falta de entendimento ou pela falta da maldade e preconceitos, e ultimamente, a menina é a única que Rafael pode contar nesse quesito.
                – Tudo bem. – a mãe suspira. – Iremos hoje durante o fim da tarde. – ela anuncia. – qualquer coisa, há uma chave de emergência debaixo do tapete da sala, dinheiro reserva, dentro do fundo falso, da segunda gaveta da escrivaninha de seu pai e deixaremos nossos telefones sempre ligados, caso você precise se comunicar conosco. – ela diz e isso magoa Rafael, pois ainda faltam horas até que os pais saiam de casa, se a mãe está ditando todas as precauções agora, era porque não tinha o interesse de falar com ele novamente. – Devo me preocupar com possíveis festas na casa? – ela pergunta.
                – Não. – Rafael responde, e a mãe assente e torna a deixa-lo só.
                O dia passa vagarosamente. Rafael mal sai do quarto, ele assiste alguns episódios de sua série favorita e depois começa a conversar pelo chat de uma rede social, com uma nova amiga, Linda, que é transexual, assim como ele, porém ela já está avançada na sua transição.
                Linda se tornou sua melhor amiga nos últimos tempos, desde que Rafael resolveu aceitar sua condição.                 Aproveitando que seus pais não estariam em casa, Rafael decide convida-la para ir a sua casa e ela aceitou.

                Os pais de Rafael se despedem demoradamente da pequena Anna, seu pai também demora na despedida com Rafael, mas a mãe não o acompanha.
                Assim que saem, Rafael começa a brincar com a irmã, na sala de estar, e ela se divide em rabiscar os cadernos de desenhos e brincar com uma boneca Barbie.
                A casa de Rafael fica em um bairro familiar de classe alta, porém, a sua residência é a menor de todas, três pequenos quartos, dois banheiros, uma cozinha e uma sala, o quintal é grande e tem uma piscina, e este é o maior luxo da casa inteira. Ele, ao contrario da maioria de seus colegas de classe, não nasceu rico, seu avô ganhou uma indenização quase milionária de uma empresa que ele trabalhou na sua juventude, e com o dinheiro, o avô e o pai construíram uma empresa de construções. No começo, ambos não se saíram muito bem, mas depois de um tempo, com os investimentos certos, a empresa cresceu em disparada. Hoje o avô já é falecido, mas a empresa segue em crescimento.
                Mesmo já tendo uma renda que ultrapassa os milhões, o pai de Rafael gosta de manter tudo simples, não quis gastar demais em uma mansão, nem fica trocando de carro uma vez por ano, sua mãe faz a maior parte das tarefas domesticas, só tem a ajuda de uma domestica uma vez no mês. A única coisa que seu pai não se incomoda em gastar é na educação dos filhos. Anna, mesmo muito pequena, já está na escolinha e também já está aprendendo a tocar piano, e Rafael está em uma das melhores escolas particulares da cidade.
                Linda chega após uma hora da saída dos pais de Rafael.
                Assim que entra na casa dele, ela fica encantada com a pequena Anna. Delicada, ela faz uma trança com o cabelo loiro e ralo da pequena, enquanto conversa com Rafael.
               
                – Quero lhe produzir. – diz Linda, olhando fixamente a Rafael, que não entende logo de cara o que a amiga quer dizer. A voz de Linda ainda é grossa, ela ainda se esforça muito para controlar seu tom, mas os remédios hormonais já começam a fazer um grande efeito e ela sabe que logo o tom feminino sairá bem mais naturalmente.
                – Não tenho nada aqui.
                – Vamos a minha casa. – ela sugere.  – É um pouco longe, mas se pegarmos o metrô nem vai perceber a distancia.
                – Mas e minha irmã?
                – Podemos leva-la. – Linda dá de ombros. – Vivo com minha mãe, ela é velha, mas pode nos ajudar a cuidar dela.
                Rafael hesita, mas Linda insiste muito e o convence.
                Os três saem e o sol já se foi do céu. No começo Anna está animada com a caminhada noturna, mas em menos de cinco minutos a menina pede colo e logo depois já está dormindo nos braços de Rafael.
                O garoto não pode evitar perceber os olhares dirigidos à Linda, alguns parecem confusos, outros não se enganam, eles sabem que Linda é trans e a matam com os olhos.
                Linda tinha razão, após entrarem no metrô, a distancia entre as duas casas, parece pequena.
                A rua da amiga de Rafael é totalmente diferente da rua dele, as casas são menores, as luzes mais fracas, as ruas menos cheirosas.
                Eles entram num prédio, que não tem portaria, e sobem dois andares de escada, já que não há elevador.
                O apartamento de Linda é pequeno, mas aconchegante. A sala é acoplada com a cozinha, e um pequeno corredor abriga dois quartos e um banheiro pequeno.
                A mãe de Linda é simpática, sorri a Rafael e a menininha que está em seu colo.
                Os três vãos até o quarto de Linda. O quarto é cheio de perucas e há uma grande penteadeira cheia de maquiagens, o armário de Linda nem mesmo fecha com tantos vestidos e sapatos. Rafael se encanta com tudo o que vê, e sente inveja de Linda, pois ela tem aceitação da mãe e já pode viver sem se esconder.
                Rafael vai até ao pequeno banheiro e tenta retirar sua barba o mais rente possível. Assim que termina, encontra Anna dormindo na cama de Linda.
                A transformação não é rápida, quilos de maquiagens são gastos e Rafael experimenta várias perucas, na questão de roupas ele não tem muita opção, Linda é menor que ele e já tem  algumas curvas, e a maioria das roupas que ela tem não cabem ou não ficam bem no corpo do garoto.
                Um vestido solto é tudo o que Rafael pode usar. Para finalizar, pela primeira vez em sua vida, Rafael coloca um salto alto que não seja de sua mãe. Fica um pouco apertado em seu pé, pois Linda tem o pé um número menor que o dele, mas Rafael não se importa, ele está tão feliz por se ver daquela maneira pela primeira vez, que não sente dor, nem mesmo cansaço pelas horas que acabara de passar se transformando.
                – Eu estou lindo. – Ele sorri bobo, olhando-se no espelho da de Linda. A amiga, que também sorri ao seu lado, se aproxima de sua orelha e diz bem baixinho.
                – Não. – ela o corrige. – Você está linda.

Continua



Olá, peço perdão por novamente não postar na data correta.
Sei que isso é ruim, mas serei obrigada a não mais marcar uma data fixa para as postagens, pois não estou conseguindo controlar meus horários.
Tentarei postar pelo menos uma vez por semana, e espero conseguir tal feito.

No mais, obrigada e espero que tenham gostado do capítulo. 
Amanhã postarei a parte 2