domingo, 17 de setembro de 2017

19. Metamorfose


                – Rebecca, seu porteiro disse que você está aí, por favor, me atenda. – Sara esquece toda sua boa maneira e grita na porta do apartamento de sua amiga Rebecca, que está dentro de seu apartamento, desesperada, pois de um lado tem a amiga que tem consciência de sua presença e que está claramente desesperada, precisando de sua ajuda, do outro ela tem um pai bêbado no sofá, que não para de falar besteiras e encher o copo com cerveja barata. – Por favor, Becca, eu preciso de você. – e torna a bater na campainha.
                – Pai, vai para seu quarto, por favor. – Rebecca implora ao pai que em resposta a olha com um olhar perdido, já claramente longe da realidade. – Venha pai. – ela tenta puxa-lo para encaminha-lo até o quarto, mas ele é muito pesado para ela e ao invés de ajudar, ele prefere começar a rir. – Pai, pare com isso! – a menina se irrita. A campainha volta a tocar. Não tem jeito, Rebecca terá que atender a amiga.
                Assim que abre a porta Rebecca se prepara para levar uma bronca da amiga, pois ela havia demorado muito a atendê-la, mas Sara faz totalmente ao contrario, sem dizer nenhuma palavra ela se joga aos braços de Rebecca, a abraçando fortemente, de tal maneira que nunca havia feito antes.
                – Venha, entre. – Rebecca diz e Sara desfaz o abraço.
                Sara entra e assim que ela vê o pai de Rebecca, ela o cumprimenta, Rebecca gela ao seu lado. O pai de Rebecca, talvez em um surto de consciência, tenta agir normalmente, sentando-se ereto, mas ele não consegue falar nada, apenas acena com a cabeça de maneira desajeitava. Se estivesse em um bom dia, Sara sem duvidas questionaria Rebecca sobre o comportamento de seu pai, mas hoje, por estar tão fragilizada, a menina ignora.
                Já no quarto, Sara volta a chorar no colo da amiga, Rebecca começa a ficar preocupa.
                  – Amiga, por favor, fale alguma coisa, estou preocupada. – ela diz.
                 – O Heitor, ele está me ameaçando. – ela diz ainda chorosa.
                – Como assim o Heitor está te ameaçando? – Rebecca pergunta confusa.  Sara abre sua mochila e pega seu celular, deixa na mensagem e mostra a Rebecca. – E como você sabe que é ele? – Rebecca pergunta, após ler a mensagem.
                – Claro que é ele. Ele fugiu de casa, não pode usar o cartão porque os avós vão descobrir onde ele está e resolveu me ameaçar para sustentá-lo. – diz.
                – Ele falou isso? – volta a questionar.
                – Não. – Sara começa a parar de chorar. – Mas é o mais óbvio. Somente nós três sabemos sobre isso...
                – Tem certeza? – Rebecca pergunta e Sara engole o seco.
                – Bom... Tem minha empregada. – diz e solta um suspiro. – Por isso ela não pediu nada pelo... Remediozinho. – diz tentando amenizar a gravidade da ação das duas.
                – E o que você vai fazer?
                – Não sei, eu não posso ameaçar de volta, eu... Eu acho que terei que pagar. – diz em desespero. – Se eu fizer isso serei uma refém dela. – chora.
                – Ainda assim creio que será melhor, ela tem muito contra você. – Rebecca diz.
                – Quer saber? Eu sou a patroa, eu não posso deixa-la dominar. – diz decidida. – Eu vou enfrenta-la.

                O nojo no rosto de sua mãe não saia da memoria de Rafael, que não conseguiu prestar atenção em nenhuma aula do dia. Ele temia que tivesse feito a coisa errada em contar a verdade sobre a noite do acidente de sua irmã. Ele poderia muito bem se vingar sozinho, mas a cabeça quente não permitiu que ele pensasse direito.
                Agora era tarde, a verdade já tinha vindo à tona e ele só poderia torcer para que no final tudo desse certo.
                Quando o fim da aula chega, Rafael se despede de Ricardo, que parece estar preocupado com algo. Rafael sabia que o irmão do amigo tinha desaparecido e por isso concluiu que esse era o problema.
                Sozinho, ele retornou para casa e ao chegar encontrou a mãe a sua espera.
                – Está tudo bem? – ele pergunta, já que ela o observa, mas não diz nada.
                – O almoço já está pronto, assim que terminar, resolveremos o nosso problema. – ela diz sem demonstrar emoção alguma. Rafael sorri em resposta.
                 Na mesa de almoço, a família se reúne em uma oração e depois comem em harmonia, sorrisos são distribuídos sem razão aparente. Tudo, como sempre, parece estar perfeito.
                Assim que termina o almoço o pai corre para retornar ao trabalho, deixando que Rafael, a mãe e a pequena irmã, fiquem sozinhos.
                Antes de sair, a mãe de Rafael faz alguns telefonemas, tudo longe do filho, ela mantinha segredo sobre o que pretendia fazer e isso deixava o garoto muito ansioso.  
                A campainha bate e é uma amiga da mãe que chega.
                – Wanessa ficará com Anna até que voltemos. – a mãe explica e Rafael sorri agradecido. Ele sabe que não sairá coisa boa do plano de sua mãe e manter a pequena afastada é a melhor opção, envolve-la só lhe trouxe complicações.
                Rafael e a mãe adentram em um carro, que o garoto crê que foi alugado, já que não é o carro da família. A mãe dirige e o caminho usado para chegar ao prédio de Linda foi bem diferente do que o menino está acostumado, já que as duas únicas vezes que ele foi até lá, ele tinha usado o metrô.
                – É este o apartamento? – a mãe pergunta.
                – Sim. – Rafael confirma. – No terceiro andar. – diz.
                Outro carro para frente ao da mãe de Rafael. Dois homens saem e a mãe de Rafael vai ao encontro deles. Ele não se atreve a mover, fica ali temeroso pelo plano da mãe, plano no qual ele ainda não sabe qual é.
                A mãe de Rafael volta para o carro.
                – Feche os vidros.
                – Como?
                – Feche os vidros. – ela ordena já sem paciência. Rafael a obedece.
                Seu coração para, mas logo depois bate descontroladamente, ele não pode crer no que vê.
                Os dois homens que conversaram com a mãe, acendem fogo em duas bolas que provavelmente são feitas de algum material duro, mas também inflamável. Quando Rafael percebe, as duas bolas flamejantes acetam em cheio as janelas do apartamento de Linda, quebrando-as e caindo ainda incendiadas, dentro do apartamento. Outras duas bolão são acesas e, logo após, jogadas no mesmo lugar.
                Agora já é possível ver fumaça saindo pela janela quebrada. Para terminar, mais duas bolas flamejantes são jogadas, mas antes que elas atinjam a janela, a mãe de Lina sai pela porta principal do prédio, tossindo e se joga no chão. Os dois homens saem de disparada, correndo para o carro em que chegaram e fugindo. 
                Rafael tenta abrir a porta do carro, para ajudar a velhinha, mas a sua mãe lhe impede.
                 – Você está louco? – ela o pergunta.
                – Preciso ajuda-la. – sua mãe bufa e liga o carro. – Você já me deu problemas demais, pare de piorar sua situação. – reclama e acelera o carro. Assim que o carro sai de onde estava estacionado, ainda na mesma quadra, Rafael vê Linda, que parece já ter avistado a mãe e corre no meio da pista. Ele não sabe se ela chegou a vê-lo dentro do carro.
                A noite chega e as imagens ainda inundam a cabeça de Rafael, que encontra dificuldades para dormir. Na tentativa de se distrair, ele decide entrar nas redes sociais. Não demora muito pra ele receber uma mensagem de Linda, pedindo para que ele aparecesse na porta de sua casa.
                Rafael começa a ficar tremulo, não podia acreditar que ela estava ali, ou pior, talvez ela não estivesse, mas outro alguém aparecesse para vingar a mãe de Linda.
                Tomando cuidado, para não acordar os pais, ele sai do quarto e vai até a parte da frente da casa. Na porta de grade ele pode ver Linda, que não aparenta estar armando nada.
                – Eu só quero conversar. – ela grita e ele corre para impedi-la de continuar gritando.
                – Fale baixo, meus pais estão dormindo. – ele diz e abre a porta, mas para sair e não permite que Linda entre na casa.
                – Tudo bem, eu não estou aqui para arrumar confusão. – Linda parece bem calma. – Eu quero que isso termine...
                – Foi você que começou. – Rafael a interrompe e acusa.
                – Eu já falei que não fui eu, mas eu tampouco me importo se você acredita ou não, eu só preciso que você pare, minha mãe poderia ter morrido hoje. – Rafael sente um aperto no coração.
                – Eu não sabia que seria daquele jeito, foi ideia da minha mãe.
                – Eu não me importo, eu duvido muito que ela tenha acordado num dia e decidido fazer isso. Você contou para ela a sua versão e pronto, vamos vingar! – Rafael não consegue se defender. – você já parou para se ver no espelho? Como você dorme de noite?
        – Nada disso teria acontecido se você tivesse confessado ou já que você é inocente, que tivesse provado isso.
        – Você se transformou em um monstro, você é uma metamorfose que deu errado, que ao invés de ser evolutiva, foi retroativa. - ignora a acusação de Rafael
        – Eu não me importo com o que você pensa. - diz, mas no fundo ele sabe que mente.
        – Haverá justiça...
        – Você não tem como provar que fui eu, não há testemunhas, você não pode nem mesmo provar que me conhece, nos comunicávamos pela internet e eu estava em um perfil fake. - diz.
        – Se realmente existe uma justiça divina, ela irá cair sobre você.
        – Se realmente existe um ser divino, Ele não olha para aberrações como nós. – Rafael diz com a voz embargando. Ele não sabe bem no quê acredita, mas sua família é tradicional e religiosa, e quando ele se revelou para sua mãe, essa frase foi uma das primeiras coisas que ela disse a ele.
        – Para a aberração na qual você se transformou, talvez Ele realmente não olhe, mas Ele olha por mim sim, porque eu não sou uma aberração, eu sou uma pessoa, nada mais nada menos que uma pessoa. – diz e começa a se afastar para sair da porta da casa de Rafael. – Acabe com isso enquanto ainda há tempo. – pede. – Não deixe que eles te transformem num monstro de vez.


Continua

  

sábado, 2 de setembro de 2017

18. Quem é o (a) culpado (a)? (Parte 2)



                Sara não pode deixar de se sentir preocupada, após ter passado toda a tarde conversando com a amiga Rebecca, queria tê-la ao seu lado novamente na escola, porém ela não apareceu. Preocupada, assim que vê Lucas, que a contragosto da menina, é namorado de Rebecca, ela corre até a ele.
                – Lucas. – Sara o chama. – Lucas! – ela insiste, já que percebe que o garoto a ignora propositalmente.  – Lucas! – chega mais perto, deixando-o sem saída.
                – O que foi? – ele pergunta sem paciência.
                – Onde está Rebecca?
                – Não sei. – ele dá de ombros e tenta desviar dela.
                – Porque ela faltou? – ela insiste, indo atrás dele.
                – Não sei. – Sara começa a se enfurecer.
                – Você ficou com ela ontem a noite, você deve ter uma ideia do que aconteceu.
                – Olha, porque você não pergunta para ela, em? – Lucas para de andar e olha diretamente para Sara. A garota consegue sentir a raiva de Lucas e conclui que os dois brigaram feio.
                – Tudo bem. – amansa. – Me desculpe, perguntarei a ela depois da aula. – diz.
                Lucas sai sem dizer mais nada e Sara se conforma, indo até à sala de aula, para assistir as últimas duas aulas.
                A última aula começa, filosofia, Sara nunca gostou da matéria, nem mesmo dá a devida importância a ela, por isso, aproveita que não está sentada nas primeiras carteiras e começa a mexer em seu celular. Ao olhar envolta, percebe que metade da turma faz igual.
                Faltam apenas vinte minutos para o fim da aula, e Sara é surpreendida com uma mensagem via SMS de um número desconhecido.
                “Deposite quatro mil na conta 009130-5 ou contarei sobre o que aconteceu”
                Sara primeiramente acha que é apenas um grande mal entendido, mas ao reler a mensagem ela percebe que é mesmo para ela.
                Por impulso, ela retorna a mensagem:
                “Quem é você?” – ela pergunta.
                Demora dois minutos para que a resposta retorne.
                “Você sabe muito bem quem sou.”

                Assim que Lucas volta para casa encontra com o delegado o esperando na sala de espera. Ele toma um susto.
                 – O senhor não deveria estar aqui. – diz assim que o leva para seu quarto. –Meu pai não pode descobrir sobre nós. – explica.
                – Sei muito bem que seu pai está no trabalho. – o delegado dá de ombros.
                – Mas os empregados podem falar. – Lucas insiste.
                – Se você continuar reclamando, paro meus serviços por aqui. – o delegado fala grosso. – Não sou obrigado a escutar sermão de moleque. – Lucas bufa, acha um absurdo ter que aceitar uma humilhação do delegado sendo que ele está pagando pelos seus serviços, mas acaba aceitando, pois sabe que necessita dele.
                O delegado sorri ao ver o garoto calado, respeitando-o.
                – Com seu adiantamento foi miserável, não venho lhe trazer grandes informações. – diz, pegando um envelope em sua maleta. – Aqui tenho todas as chamadas e mensagens de telefone que foram feitas no perímetro e horário do acontecido. – diz tirando um pequeno maço de papeis de dentro do envelope. – Claramente que não tem o conteúdo da mensagem, muito menos da chamada, somente os números que fizeram e os que receberam as ligações. – Lucas se aproxima para olhar os números impressos nos papeis. – três telefones fizeram ligações para emergência no mesmo horário, um desses pode ser o da testemunha. – o delegado explica, apontando para os números, que foram marcados com um marca texto amarelo fluorescente. – Mas se fosse para apostar em um, eu diria que é este número. – ele aponta para um dos números marcados.
                – E por quê? – Lucas pergunta.
                – Este número recebeu uma chamada e trocou mensagens com esse outro número. – o delegado troca a página e aponta a um número marcado com marca texto rosa fluorescente. – a chamada durou pouquíssimos segundos, talvez uma das partes tenha desligado antes mesmo de se falarem, não sei, e depois trocaram duas mensagens, assim que a última mensagem foi trocada, o outro número ligou para a emergência.
                Lucas pega o papel em que o número marcado de rosa fluorescente aparece e sente todo o sangue de seu corpo borbulhar.
                – Você reconhece esse número, garoto? – o delegado percebe seu desconforto e o questiona.
                – Sim. – sua voz sai como um pio. – É o telefone de minha irmã.

Continua




Métis: Infelizmente é algo que grande parte das pessoas transexuais ou gays passam no seu dia a dia, acredito que isso um dia será algo totalmente do passado, e que viveremos em uma sociedade mais aberta as diferenças, principalmente agora que a mídia começou abrir mais espaço para falar e debater sobre esse assunto. Já me inscrevi no projeto, e estou muito ansiosa para poder participar. Muito obrigada por comentar. Bjsss.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

17. Quem é o (a) culpado (a)?


                O primeiro dia de aula tinha acabado bem para Rafael, sua reaproximação com Ricardo parecia promissora. Os dois haviam conversado muito durante o intervalo e mesmo Rafael escondendo sua transsexualidade, ele conseguiu relaxar e conversar com o amigo de igual para igual.
                Após voltar para casa, ele almoçou com a família, que parecia perfeita como uma família de comercial de margarina... Depois do almoço Rafael foi ao seu quarto e se permitiu tirar um cochilo, durante as férias seus horários haviam mudado muito e acordar tão cedo hoje, o deixou muito cansado.
                Seu cochilo acabou demorando duas horas, ele acorda assustado e se dirige ao banheiro. Quando retorna ao quarto ele decide adiantar as tarefas já passadas por alguns professores, a maioria era para ser entregues na quinta, mas ele não tinha outra coisa para fazer, então decide antecipar-se.
                Ao abrir sua bolsa, logo ele percebe um envelope estranho, ele não se lembrar de tê-lo posto ali, então ele o pega e o abre. Lá há uma folha A4 e nela uma mensagem escrita com recortes de letras de revistas. Algo infantil, como um trabalho de Artes do primário.
                Rafael fica sem entender nada, mas ao terminar de ler a mensagem, percebe o por que do trabalho, a pessoa queria se manter anônima.
                “Assuma que é uma bixinha, ou sua família descobrirá da pior forma.”
                Não havia assinatura, nada que indicasse o autor da ameaça, mas Rafael não precisava de nada disso. Ele tinha certeza que sabia quem era.
                Ele rasga a mensagem e joga de volta na mochila, para não correr o risco de alguém mais lê-la.
                Sem se arrumar ou se preocupar em avisar a sua mãe, ele sai apenas com sua carteira.
                A sua raiva é tão grande que ele não teme a nada. A última vez que fizera esse caminho estava de noite, e ele só se localizava porque tenha alguém o guiando, agora ele estava completamente sozinho, a única coisa que o guiava agora era seu ódio.
                Ele sai no metrô e puxa na memoria qual era o restante do caminho, seus passos começam a ficarem hesitantes, ele aos poucos se acalmava, mas agora já era tarde, ele não iria deixar isso barato.
                Ele chega ao prédio e sobe as escadas. Bate na porta e espera para ser atendido.
                Para sua sorte quem abre a porta é Linda. A mulher fica realmente surpresa em vê-lo e abre um sorriso, mas Rafael não permite que ela se anime muito.
                – É melhor você não se meter comigo! – ele já começa alterado, botando o dedo na face de Linda, que arregala os olhos, assustada.
                – Você está bem? – ela pergunta.
                – Pare de ser sínica. Você realmente acha que eu não iria adivinhar que era você?
                – Olha, eu não sei do que você está falando, eu...
                – Cale a boca. – ele grita.
                – Ei, quem você pensa que é para vir a minha casa e me mandar calar a boca? – Linda começa a se irritar.
                – Sem dúvidas, um ser bem mais digno que você. – acusa.
                – Se isso ainda for por causa da sua irmã, eu já lhe pedi desculpas, o que mais você quer que eu faça?
                – Pare de ser sínica. – ele repete, desta vez, mais irritado.
                – Eu não estou sendo sínica, eu realmente não estou entendendo.
                – Ah! Claro, você quer se fazer de boazinha. Você ainda quer que eu creia que você é um ser bondoso, que está do meu lado, que me entende.
                – Rafael...
                – Porque em? – ele a interrompe. – É por dinheiro? Quanto você quer?
                – Eu não preciso do seu dinheiro.
                – Então, por quê?
                – Porque o quê?
                – A ameaça. – ele grita e ela não diz nada. – Isso mesmo, aquela mensagem de recortes que você deixou na minha mochila.
                – Olha, não fui eu.
                – Claro que foi você. – volta a acusar.
                – Eu não cheguei perto da sua mochila, como você quer que seja eu?
                – Então como você sabe que estava na minha mochila?
                – Porque você acabou de falar isso. – Rafael se sente tonto, o nervosismo é tanto que ele começa a sentir o controle se esvaindo de seu corpo.
                – Eu não sei como você conseguiu colocar aquela ameaça na minha mochila, eu só sei que foi você!
                – Você já tentou se escutar? – Linda o questiona. – Você não percebe que está fora de si? Porque tem que ser eu? Porque não pode ser outro alguém que tenha acesso a sua mochila? – mesmo nervoso Rafael não se permite abalar.
                – Só você sabe o que sou, você é a única que tem motivos para querer atrapalhar minha vida.
                – Eu não tenho nenhum motivo para atrapalhar sua vida. – Linda se defende, agora mais calma, com a voz serena.
                – Ah, não tem não?
                – Não. – reafirma. Rafael quer dizer algo, mas não consegue rebater. – Eu não sou a única pessoa que sabe sobre você.
                – É sim. – Rafael não grita.
                – Sua mãe também sabe. – ela diz.
                – Ela não faria isso.
                – Você realmente acredita que eu tenho mais razões que ela para lhe prejudicar?
                – A ameaça fala sobre eu me assumir ou minha família descobrirá da pior maneira, minha mãe não quer que eu me assuma. – Rafael explica. – Não é ela. – afirma e Linda suspira.
                – Mas tampouco sou eu. – diz segura. – Eu não sei quem foi, mas eu juro que não fui eu! – Rafael não diz nada.  – Acredite em mim. – o garoto parece pensar, mas depois mexe sua cabeça em negativa.
                – Você não me engana mais. – diz e se distancia, indo embora sem se despedir. Linda não diz nada, nem volta a insistir.
                Na volta Rafael já está mais calmo, ele se permite pensar em alternativas diferentes, pensar em prováveis culpados, mas toda direção que ele segue retorna para Linda.
                 Foi ela!
                Ao chegar a sua casa, ele escuta o barulho de pratos sendo lavados. Ele vai até a cozinha e encontra a sua mãe, que não lhe pergunta onde ele fora.
                – Eu vou dizer a verdade sobre os pontos na cabeça de Anna, mas você tem que prometer que vai me ajudar a sair dessa e que a culpada pague caro por isso. – ele diz, a mãe dele larga os pratos e desliga a torneira.
                – Estou escutando. - diz inflando-se e Rafael percebe que terá sua vingança.

Continua




Métis: Lucas é aquele personagem que vai ser difícil de definir, acredito que ele tem potencial para fazer o bem e também tem potencial para fazer muito mal. Muito obrigada por comentar. 

sábado, 12 de agosto de 2017

16. Planos falíveis.


                O restaurante que Lucas se encontra com o delegado permite que seus clientes optem por comer em cabines reservadas, longe dos olhos do publico geral, e isso é imprescindível para o assunto que ele quer ter com o homem.
                Após lhe contar o que quer, o delegado parece ponderar sobre o pedido.
                – Esse assunto rendeu muito na polícia. – ele diz enquanto saboreia o prato de entrada do restaurante. – o retrato-falado não deu muita informação. – diz olhando para o garoto, que não consegue esconder o alivio. – mas o aleijado é persistente e tem dinheiro. – diz de maneira bruta. –  Irão fazer uma pericia no carro, em busca de algum DNA. – anuncia rindo de canto. – Para você ver como sou bonzinho, lhe passarei mais uma informação totalmente de graça. A pessoa que os salvou, deu seu testemunho anonimamente, e ele falou sobre certo carro esportivo. – diz. – Assim que o juiz liberar, os investigadores farão buscas em câmeras da região, para pegar a placa do carro. – Lucas não tocou em nada da comida. – Melhor você se livrar do carro logo.
                – Eu irei vendê-lo.
                – Não. – o delegado diz. – vendê-lo seria um tiro no pé, pois você estaria entregando seu atestado de culpa. Queime, abandone em algum lugar, finja que ele foi roubado.
                – Todo mundo sabe que meu carro não foi roubado. Meu pai sabe que não foi roubado. – o delegado arqueja as sobrancelhas.
                – É, meu rapaz, talvez seja bom começar a rezar então.
                – Como assim, não há nada que você possa fazer? – pergunta indignado.
                – Bom, posso fazer algumas imagens desaparecer, talvez um B.O. de um carro roubado, posso até mudar o nome do dono de um carro, posso até mesmo falar quem é a testemunha, mas... Você sabe, não é? O preço pode sair salgado.
                – Quero tudo isso, todos esses serviços. – Lucas diz convicto e o delegado gargalha.
                – Você ainda não sabe os valores. – ele começa a não mais levar o garoto a sério.
                – Então diga. – Lucas não hesita e o delegado para se sorrir.
                – Um milhão e meio. – fala e Lucas tenta não parecer surpreso pelo valor, ele não tem nem um terço disso na bolsa, e no banco ele tem guardado pouco mais da metade do valor.
                – Lhe pagarei a medida que me trazeres os resultados. – diz. O delegado nega.
                – Exijo adiantamento. – Lucas o entrega um envelope, com todo o dinheiro que havia tirado do banco. – Quanto tem aqui? – ele pergunta.
                – Alguns mil. – Lucas responde sem jeito.
                – Quanto? – o delegado exige um número.
                – Cinco mil. – o garoto responde.
                – Você acha que eu sou um otário? – o delegado pergunta. – Você chama isso de adiantamento?
                – Foi o que eu pude tirar no banco. – Lucas tenta se justificar.
                – Olha, eu vou deixar essa passar, mas se no nosso próximo encontro você vier com um valor a baixo de cinquenta mil, você pode esquecer de qualquer ajuda minha e se precisar ainda lhe prejudico. – ameaça.
                O almoço acaba e Lucas vai até sua casa descansar um pouco para se preparar para a noite de trabalho, ele teria que faturar muito bem hoje, pois ele precisa de dinheiro mais que nunca.
                Em casa tudo parece normal, o pai não está, os empregados fazem seus serviços, a mãe anda de um lado para o outro, sem fazer nada e sem nenhum interesse de arrumar algo para fazer, e a irmã está trancada no quarto, isolada.
                Lucas decide não falar nada com ela, ainda, pois quer ter mais notícias do delegado antes de abrir a boca.
                O garoto passa o dia no quarto, entrando em contato com seus clientes, para avisá-los que hoje havia entregas. Quando o sol já se pôs, ele toma um banho e se arruma para sair de casa.
                – Aonde você vai? – a mãe pergunta, ao vê-lo saindo de casa.
                – Vou sair, ele dá de ombros.
                – As férias já acabaram, comece a agir como um estudante... – sua mãe começa a reclamar, mas ele sai e a deixa falando sozinha.
                Não querendo usar seu caro esportivo, ele chama um táxi. Primeiro ele vai até seu fornecedor, ele já tinha confirmação de vários clientes e seu estoque não seria suficiente.
                Após conseguir mais drogas, ele vai até o apartamento de Rebecca.
                 Quando chega lá, ele é surpreendido pela presença de Sara, que parece ter acabado de chorar, ambas ainda usavam os seus uniformes.
                – Espere, vocês voltaram? – pergunta a loira, assim que o vê entrando no apartamento. Rebecca olha assustada para Lucas, sem saber como responder.
                – Sim. – Lucas mente e agarra Rebecca pela cintura. Rebecca não o desmente.
                – Então era isso que você estava me escondendo? – Sara pergunta.
                – Era. – Rebecca ri nervosamente.
                – Uau, não é algo bom, mas pensei que era outra coisa.
                – Outra coisa? – Lucas sente Rebecca tremer.
                – É, pensei que era algo mais sério. – Sara dá de ombros. – Bom, acho que já deu a minha hora. – ela começa a se despedir da amiga com um longo abraço, Lucas se afasta, para não atrapalhar as garotas e de longe tem a impressão que elas estão sussurrando algo no ouvido uma da outra.
                Sara se despede de Lucas apenas com um ‘tchau’ e um aperto de mão.
                – O quê você está fazendo aqui? – Rebecca pergunta brava, assim que fecha a porta, após ver a amiga entrando no elevador.
                – O quê eu estou fazendo aqui? – ele começa a rir. – Você sabe muito bem o quê eu estou fazendo aqui. – responde.
                – Você me contratou depois desapareceu por uma semana. – Rebecca dá um soco no peito de Lucas que se enfurece.
                – Você está louca? Eu não te abandonei, eu simplesmente não precisava da sua ajuda, pois não estava indo a boate.
                – Eu sei disso! – ela grita. – Descobri isso quando fui lá, no dia seguinte e Virginia me contou.
                – Você voltou lá sem mim? – ele a questiona surpreso. – Porque você fez isso?
                – Você não me disse que não era para voltar. – se justifica.
                – Mas se eu não vim te buscar, é porque não era para você ir!
                 – Você não disse nada disso, você queria que eu adivinhasse?
                – Não venha colocar a culpa em mim.
                –Tudo o que você tinha que fazer era ter me avisado!
                – Tá, tudo bem, me desculpe, mas agora você já sabe e hoje eu estou aqui para lhe levar novamente.
                – Não posso. – desta vez ela fala baixo.
                – E porque não?
                – Quando eu voltei a Virginia me apresentou como uma das garotas. E ela me pediu para não voltar lá enquanto eu não for maior de idade. – resume. Lucas faz uma careta.
                – Você virou puta? – ele pergunta enojado.
                – Você me colocou nessa situação! – ela responde se sentindo ofendida.
                – Não, você se colocou nessa situação, eu te levei lá para vender drogas, não para virar uma vadia. – Rebecca se surpreende pela maneira bruta que ele fala.
                – Você me levou com mascara, você sabia que as meninas de mascara eram garotas de programa. – ela volta a o acusar.
                – Mas você pode se recusar a ir para cama com eles, a áascara tem um significado, mas não te torna uma escrava, nem mesmo Virginia lhe abrigaria a nada, se você fez, foi porque quis. – ele bate o pé. – Quer saber? Não me importo mais... Eu quero mais é que todos descubram que você é uma pobre. – ele quase cospe em Rebecca.
                – Você não pode contar...
                – Eu não vou contar. – ele a corta. – Você não tem um tostão e agora tampouco tem mais emprego, mais cedo ou mais tarde vão lhe descobrir. – ela diz. – E eu vou estar lá para rir de você, sua puta. – Rebecca se segura para não começar a chorar.
                – Porque você está falando assim comigo, eu posso voltar próximo mês. Isso tudo é sua culpa. – ela começa a dizer, mas Lucas não quer mais discutir. Ele mesmo destranca a porta do apartamento e sai, deixando Rebecca para trás, totalmente acabada.


Continua




Métis: Muito obrigada por comentar e fico muito feliz por saber que está gostando. Me inscrevi no seu blogger e amanhã já começarei a ler suas histórias também ;). Bjssss

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

15. O Primeiro dia de aula.

Capítulo em homenagem ao grande cantor Chester Bennington e ao meu grande amigo Haroldo. Que vocês estejam ao lado de Deus.



                É um novo dia, o primeiro dia de aula. A diretora já terminou seu discurso e todos se dirigem para suas respectivas salas. Tudo parece normal. Os alunos se reencontram pelos corredores, os professores passam novas matérias... Após as férias conturbadas, a vida parecia ter voltado no eixo para os nossos quatro personagens.
                Para Lucas tudo estava bem, ele iria conversar com o delegado logo após a aula e durante a noite voltaria aos negócios com Rebecca. Rafael tinha dobrado seu pai, que acreditou em sua história e sua mãe não negou quando foi questionada pelo marido, ela inclusive começou a agir menos fria com o filho, para não mais despertar a curiosidade do homem. Rebecca economizava o que tinha ganhado no clube de Virginia, e considerava retornar ao local quando fosse maior de idade, ela não sabia se conseguiria comprar seus materiais escolares, pagar a mensalidade e todas as contas da casa com o dinheiro, caso não consiga, ela tentará recorrer a Lucas ou a Sara, mas ela tem esperança de conseguir lidar com isso sozinha, o pai parece estar melhorando, bebendo menos, talvez ele logo se reerga e volte a sustentar a casa. Sara tinha se livrado dos enjoos, e agora conseguia fingir melhor que nada tinha acontecido. Talvez o desaparecimento de Heitor a ajude, assim ela tem certeza que ele não contará nada. Ela tinha começado a tomar o pó que Eleonora tinha lhe dado no dia anterior, e estava confiante de que Ricardo nem mesmo desconfiaria sobre sua gravidez. Enfim, tudo estava dando certo.
                Durante o intervalo Rebecca e Sara conversaram, nenhuma das duas falou nada sobre seu segredo e isso ficou claro, pois ambas não pareciam tão à vontade na conversa, elas se comunicavam genericamente, o assunto ‘férias’ foi veemente evitado. Ricardo e Rafael também se falaram, o transexual se animou ao perceber que o amigo estava tentando se reaproximar dele, pois desde que brigara com Linda, se sentia muito sozinho e mesmo sentindo que sua amizade com Ricardo era superficial, ele aceitaria isso de bom grado.
                A manhã passa, o primeiro dia de aula termina e a realidade volta a bater na porta de alguns. Lucas corre para se encontrar com o delegado, ele sabe que o homem cobrará muito por menor que seja o serviço, por isso, antes de encontra-lo, ele passa no banco e tira a maior quantidade de dinheiro permitida, um pequeno rombo em sua conta bancaria que deverá ser preenchida mais a noite. Sara e Rebecca vão saindo juntas do colégio, mas a supervisora chama Rebecca antes que ela possa colocar o pé na rua.
                – Vá lá, eu te espero. – Sara diz simpática. Rebecca assente.
                A garota é levada ao escritório da supervisora, que parece desconfortável em dar a notícia.
                – Sinto muito por lhe chamar aqui para abordar este assunto, mas já tentei fazer contato com seu pai por inúmeras vezes e não obtive nenhuma resposta, está tudo bem com ele? – ela pergunta e Rebecca começa a ficar nervosa com a situação, parece ser algo sério e ela teme que isso a obrigue a revelar o falimento de seu pai.
                – Ele estava um pouco doente, mas agora está melhorando. – Rebecca mente.
                – Entendo. – a mulher não parece satisfeita com a resposta, mas aceita. – E você acha que ele pode vir ao meu encontro até, no máximo, amanhã? – pergunta esperançosa.
                – Não sei... – ela pondera. Rebecca não sabe qual é o assunto. No fundo ela gostaria que o pai resolvesse este problema, mas será que amanhã ele acordará bem? Se não, ele pode muito bem envergonhar Rebecca frente a todos, chegando bêbado na escola, ou pior, ele pode muito bem revelar que agora eles são pobres. – Ele foi a uma viajem de negócios, ele disse que chegaria ontem, mas parece que houve um imprevisto e agora ele não sabe muito bem qual será o dia de sua volta. – a mulher faz um semblante triste.
                – Como eu já disse, sinto muito por lhe chamar para tratar deste assunto, é algo que só resolvemos com os responsáveis pelos alunos, mas temo que não posso esperar pela volta de seu pai. – suspira, mas logo depois sorri. – Rebecca, o cheque que foi dado para pagar sua matrícula voltou por duas vezes, e recebemos informações de alguns professores que você não tem o material completo. Temo que você não possa continuar estudando aqui, se isso não for resolvido logo.
                – Mas hoje é o primeiro dia de aula ainda, eu não tive tempo de comprar meu material e... – ela se cala, não sabe como arranjar uma desculpa para o cheque da matricula.
                – Eu entendo, você sabe das regras da escola, muitas instituições aceitam que o aluno adquira os materiais ao decorrer do ano, mas aqui eles sempre deverão estar completo no primeiro dia de aula. – a mulher diz. – você sempre cumpriu essa regra. – a relembra. – poderíamos relevar a questão do material, se a matricula tivesse sido efetuada, mas o acumulo das duas situações... – deixa no ar. Rebecca não sabe o quê dizer. – Vocês estão com algum tipo de problema em casa? – ela pergunta.
                – Não! – Rebecca quase pula ao responder, de tanta urgência que sente em proteger seu segredo. – Eu irei olhar com meu pai, prometo que até o fim da semana tudo estará resolvido. – a menina diz sem nem mesmo respirar.
                – Rebecca, eu sinto muito, mas não temos uma semana, ou seu pai acerta, pelo menos, a matrícula até amanhã, ou você não poderá assistir as aulas. Se ele acertar a matrícula, permitirei que fique essa primeira semana de aula sem o material completo.
                Rebecca sai da sala em estado de choque, ela já havia usado parte do dinheiro que arrecadara de Virginia: Pagou a conta de luz e internet, fez a compra do mês, garantindo que a geladeira não ficasse vazia, comprou três dos dez livros exigidos pela escola como parte do material escolar, comprou cinco dos seis cadernos que também fazem parte do material da escola, pagara o táxi de ida e volta, para quando ela ia fazer essas compras, e hoje cedo ela pagara um táxi para vir até o colégio. O que restara, ela iria usar para pagar a conta de água e o transporte de sua casa para o colégio e vice-versa, se no fim sobrasse algo, ela tentaria pagar a primeira mensalidade da escola. Mas todo seu plano tinha ido por água abaixo, ou ela pagava a conta de água, comprava o resto dos materiais e se transportava de táxi no trajeto casa-colégio, ou ela pagava a matricula. O problema é, se pagasse a matricula, não conseguiria comprar o resto dos materiais e seria expulsa do mesmo jeito, contudo, não pagar a matricula revelaria ao mundo que ela estava falida. Rebecca não tinha se sujeitado a ficar a noite inteira torturando um velho nojento para no fim das contas ainda ser descoberta. Ela teria que fazer algo.
                Sara, ao perceber o torpor da amiga, decide acompanha-la até a sua casa, o que foi bom, já que Sara decidiu usar seu carro particular, salvando Rebecca de gastar com o táxi.
                Assim que chegam ao apartamento de Rebecca, Sara percebe que há algo de errado, a casa não está suja, mas tampouco está limpa e não há nenhum empregado por perto.
                – O que está acontecendo, Rebecca? – Sara pergunta.
                – Nada de sério. – a menina tenta disfarçar. – Você que parece estranhada. – joga na cara, pois sabe que isso pode ser sua salvação. Sara suspira indecisa e se joga na cama da amiga, que se senta ao seu lado.
                Sara se sente mal por esconder algo da amiga e acredita que ao contar a ela o que está acontecendo, Rebecca também se abrirá para ela, revelando o que há de errado em seu apartamento.
                – Se eu te contar você jura que mantem segredo? – pergunta receosa.
                – Claro. – Rebecca garante.
                – Você precisa jurar mesmo. – se ergue, ficando sentada na cama.
                – E alguma vez eu já contei algum segredo seu para alguém? – Rebecca questiona, se sentindo um pouco ofendida pela hesitação da amiga, porém ela não a julga, ela tampouco teria coragem de falar a amiga sobre o que a aflige.
                – Eu estou gravida. – Sara revela com a voz baixa.
                – Você o quê? – Rebecca deixa o queixo cair. Sara não repete. – Eu não acredito. – Rebecca arregala os olhos.                 – No fim Ricardo não resistiu mesmo em? – começa a rir, deixando o choque da notícia se esvair de seu corpo. Sara não a acompanha na risada e Rebecca percebe que há algo mais. – Sara... Você...
                – O filho não é de Ricardo. – ela não consegue olhar para os olhos da amiga, mesmo sabendo que a mesma não a julga, ela nunca tinha feito algo tão sujo antes. – É de Heitor. – revela e Rebecca perde a respiração por alguns segundos.
                – Sara o que você fez? – diz por fim.
                – Eu não sei, mas eu vou concertar. – diz e cai no choro. Rebecca se aproxima e abraça a amiga, consolando-a. – Eu juro que vou concertar isso.

Continua




Métis: Olá, desculpa pela demora em postar, mas espero que você tenha gostado da história até então. Muito obrigada por comentar. bjssss

sexta-feira, 14 de julho de 2017

14. Mantendo o Segredo (Parte 2)



Durante as férias           

                Rebecca ainda não entendia muito bem o sistema do lugar, no começo ela pensou que seria como um leilão, e a cada plaquinha que fosse levantada, mais alto o número ficaria, e ao mesmo tempo, a única coisa que Rebecca podia pensar era de um dia, quando ainda era criança, e seu pai lhe levou a um leilão de equinos. Seu pai queria fechar contrato com um grande empresário e como o homem era apaixonado com cavalos, o seu pai queria presenteá-lo. A garota não podia imaginar que se permitira chegar a este ponto.
                Mas agora ela via que não havia nada disso. Ela não precisou se exibir no palco, nem mesmo houve gritarias, plaquinhas ou martelo. Os garçons e até algumas meninas, chegavam e entregavam um pequeno papel nas mãos de Virginia. No papelzinho havia números, que era o valor que o cliente estava lançando, e o nome do cliente escrito embaixo. Era algo silencioso e, teoricamente, menos degradante.
                Virginia parecia analisar os lançamentos, sempre descartando os valores menores e ficando com os mais altos. A garota sempre foi rica e se acostumou a números extravagantes, mas não deixava de se espantar com o valor escrito.
                Nove mil.
                Nove mil e duzentos.
                Dez mil e quinhentos.
                Doze mil.
                Treze mil e novecentos.
                – Pare. – diz Virginia quando outro garçom vem lhe entregar um lance. – Será esse. – ela decide com o papelzinho na mão.
                – Mas o lance que eu trouxe é maior. – o garçom observa.
                – Não importa. – ela responde dura. – É esse. – bate o pé. Rebecca fica sem entender. – Jamais diga que eu não tentei lhe ajudar. – fala e Rebecca não se manifesta, principalmente porque não entende o comentário da mulher. – Você teve sorte, aproveite esse dinheiro, pegue-o e só retorno aqui quando já fores maior de idade. – diz séria. A menina apenas assente, concordando com a dona do estabelecimento.
                Assim que o vencedor levanta e vai à direção de Rebecca, ela se assusta com sua aparência. O homem é baixinho e barrigudo, ele veste uma calça social e uma blusa polo bem justa, ele carrega uma mala de mão.
                O cliente parece estar familiarizado com o ambiente e se dirige, sem pestanejar, até o quarto reservado, no fundo do estabelecimento.
                Era a primeira vez que Rebecca entrava ali, e seus olhos não podiam deixar de observar a todos os detalhes. A meia-luz, a cama redonda e enorme, com lenções brancos, espelho no teto...
                O homem logo tira sua blusa e revela um peito cheio de pelos, o que faz o estomago de Rebecca revirar. Ele tira a calça e ele usa uma cueca apertada e preta.
                Rebecca ainda estava próxima a porta, no fundo temia adentrar ao quarto, mas sua curiosidade a obriga a aproximar-se mais, a cueca não era apenas justa e preta, era uma cueca de couro.
                O homem começa a retirar alguns objetos de sua mala. A garota teme pelo que virá.
                – Pegue. – o homem diz a Rebecca, entregando-lhe um... Chicote?
                Ele se põe de quatro encima da cama e assim fica. Ao ver que nada acontece, ele olha para trás, onde Rebecca se encontra paralisada.
                – Bate. – ele pede e começa a balançar a mão, demonstrando-a como ele quer que ela faça.
                A garota está em choque, mas faz como o cliente manda, mas ela não agrada.
                – Mais forte. – ele pede. Ela o faz. – Não, não, mais forte. – ele insiste e Rebecca o chicoteia com vontade, e ao escutar o grito do cliente, se assusta, mas ele não a xinga, não reclama, apenas sorri, feliz com o que ela faz. – de novo. – pede e ela repete.
                Aquilo não era nada do que ela pensava que seria, porém, ela agora entendia o que Virginia queria dizer. Aquele homem não queria ir para cama com Rebecca, queria apenas que ela o batesse com o chicote e fizesse outras bizarrices.

                O desespero de Lucas poderia ser sentido de longe, mesmo ele se esforçando ao máximo para não demonstrar.
                O anúncio já estava publicado, o garoto estava fazendo de tudo para se livrar das evidências.
                – O que está fazendo? – o pai pergunta. – Porque você não foi ao escritório hoje? – reclama.
                – Estou vendendo o carro. – é sincero.
                – Como assim? – o pai se choca.
                – Não vejo necessidade ter um carro desses, temos tantos outros. – começa a mentir.
                – Você me atormentou meses por esse carro! – volta a reclamar.
                – Pois é, eu sei... Talvez eu esteja amadurecendo. – ele tenta amaciar o pai. – Não ligo mais para carros esportivos, acho que usar o carro da família já está bom. – dá de ombros.
                – Eu não vejo isso como amadurecimento. – o pai bufa.
                – Pois eu vejo. Vou reaver seu dinheiro.
                – Não completamente.
                – Mas, pai...
                – Olhe, eu não sei o que está acontecendo nessa casa, sua irmã agora é doida e você está indo para o mesmo caminho. Se isso for tédio, viagem para algum lugar, vocês ainda tem alguns dias antes da volta as aulas. Aproveitem de uma maneira mais produtiva. – O pai seguia com seu sermão, mas Lucas já tinha parado de prestar atenção há um bom tempo. O que o pai lhe falara, lhe dera uma ideia.
                Assim que se desvencilha do pai, Lucas corre para o quarto da irmã, que já dorme, mesmo ainda sendo cedo.
                – Acorde. – ele a sacode e a menina solta um grito de susto. O irmão não sabe, mas ela estava no meio de um pesadelo, ela sonhava com fogo e isso era algo recorrente desde o acidente. – Eu já tenho uma ideia. – Lucas ignora o susto da irmã e começa a falar. – Vamos viajar. – diz e Jade, agora mais consciente do mundo a sua volta, faz uma careta.
                – A gente pode ser preso e você quer viajar? – pergunta.
                – Tudo bem, acho que você não entendeu. – ele reformula. – Vamos fugir.
                – Está doido? E a escola? – Lucas ri.
                – Vamos ser presos, Jade. Sério que você está pensando na escola? – ele pergunta e a menina se cala por um instante.
                – Eu não sei se isso é uma boa ideia. – ela diz.
                – Claro que é.
                – O que você acha que o papai vai achar disso? – ela o questiona.
                – Ele não precisa saber.
                – Ele vai nos achar, Lucas, você sabe que ele vai. – e ao escuta-la dizer isso, o entusiasmo do garoto murcha.
                – Podemos pedir a ele para nos mudar de escola, que nos matricule em uma escola em outro país.
                – Ainda seremos presos.
                – Não, lá seria outra polícia, teríamos que ser extraditados... Seria uma confusão tão grande... – Lucas nem sabe se o que fala é verdade, mas ele sabe que estando longe, a captura dele e de sua irmã seria mais complicada.
                – Lucas, pare. – a irmã ordena. – Eu sei que não sou a pessoa ideal para dizer isso, mas: Se acalme. – Lucas ri em deboche. – Eu sei, eu sei, eu fui a primeira a me desesperar. Mas eu pensei... Até agora não aconteceu nada, eu estou procurando por notícias, mas não apareceu nada... Talvez o retrato-falado não tenha sido eficiente. Talvez ele não tenha nos enxergado direito. – ela diz. – Deveríamos olhar melhor, saber como está sendo a investigação. Estamos perdendo a cabeça, e nem mesmo sabemos se é necessário. – ela finaliza e Lucas pondera.
                – Eu sei exatamente o que vou fazer. – ele diz após pensar.
                Lucas corre para seu quarto e procura em seu celular o contato de um delegado, amigo da família.
                Ele disca o número.
                “Alo” – o delegado atende.
                – Delegado Martins?
                “Sim, é ele... Lucas, é você?” – o homem pergunta surpreso.
                – Sim, sou eu. – confirma.
                “Tudo bem, garoto?” – pergunta preocupado. Ele já havia feito vários serviços para o pai de Lucas, mas nunca havia recebido um telefonema do garoto.
                – Sim. – responde. – Eu preciso de um serviço seu. – fala. – Pagarei bem. – deixa claro.
                “Diga e eu farei.” – confirma e Lucas sorri aliviado. O seu inferno está prestes a se acabar...
                Ou prestes a começar?

Continua


sexta-feira, 30 de junho de 2017

13. Mantendo o segredo (Parte 1)


Durante as férias

                Os perfumes preferidos de Sara, a fazem mal, os alimentos, mesmo os mais leves, a fazem mal. Nunca em momento algum, a garota achava que se encontraria nessa situação.
                Percebendo o incomodo da namorada, Ricardo a questiona.
                 – Tem certeza que está tudo bem?
                – Sim. – ela insiste. – Acho que comi algo que me fez mal. – assume.
                – Você quer que eu a leve para o hospital? – pergunta.
                – Não. – ela deixa um pouco do desespero transpassar. – Meus pais podem fazer isso, fora que é só um mal-estar, não é como se eu estivesse doente. – tenta se tranquilizar, para assim também tranquilizar o namorado.
                – Você que sabe. – ele finalmente da de ombros. – Você quer voltar para casa? – pergunta. – Se estais tão mal, não creio que seja uma boa ideia irmos comer. – ele percebe.
                Ricardo tinha chamado Sara para passar o dia com ele, já que a as férias estavam acabando e ambos mal tinham se visto. Foram ao shopping, Sara aproveitou para fazer algumas compras e agora Ricardo havia dado a ideia de irem comer.
                – Acho melhor mesmo. – ela concorda. – Você não ficará triste? – ela pergunta.
                – Claro que não, tivemos um bom dia juntos, e não será o último. – ele garante e Sara sorri. Como que ela iria fazer para contar a verdade a ele?
                Os dois retornam para a casa de Sara e lá ficam conversando por mais um tempo, Ricardo tenta engatar um envolvimento mais quente, com beijos longos, mas Sara não consegue, a sua consciência não permite. No fim, Ricardo a deixa e vai para sua casa.
                Ás seis da tarde, quase na hora de encerrar seu expediente, Eleonora entra no quarto da patroa, que, por estar com mal-estar, já se encontra deitada. A empregada se aproxima da cama, mas não o suficiente para encostar, sabe o quanto a menina é nervosa, não quer que ela brigue.
                – Senhorita Sara. – ela a chama com a voz delicada. Sara abre os olhos e faz uma careta ao ver a empregada, mas não diz nada, talvez a gravidez já esteja lhe amolecendo. – Trouxe algo para você. – a emprega abre a mão, revelando um saquinho com um pó cinza.
                – O que é isso? – Sara se levanta num pulo.
                – É o que eu lhe prometi. – Eleonora responde. – Para... O... – fica indecisa se deve falar a palavra ‘aborto’ ou não.
                – Ah... Sim... – Sara sorri e pega o saquinho.
                – O gosto é um pouco forte, amargo, mas não deve lhe incomodar muito, coloque num suco ou vitamina, ou iogurte, uma colher de sopa por dia, durante uma semana.
                – Uma semana? – Sara reclama.
                – Pode ser que funcione antes, mas para garantir... – Eleonora orienta. – Você não deve sentir nada se seguir as orientações. No fim do processo, refaça o teste. – a mulher sorri.
                – E quanto lhe devo? – Sara pergunta. Eleonora hesita.
                – Só quero lhe ajudar. – responde por fim. Sara fica desconfiada da bondade, ninguém faz isso.
                – Amanhã deixarei algo para você na primeira gaveta da minha escrivaninha. – Sara diz, ela precisa garantir o silêncio da empregada. – Como forma de agradecimento. – finaliza. Eleonora apenas assente e se vai sem dizer mais nada.


                Enquanto isso, Rafael vive dias infernais em sua casa. Ele tentou arranjar desculpas para justificar os pontos na cabeça da irmã, mas nada convencera a mãe, e desde então, ela não mais fala com ele, percebendo isso, o pai, preocupado, vai falar com o filho.
                – Não entendo muito bem o que está acontecendo com vocês dois, tentei falar com sua mãe, mas ela disse que era para eu falar com você. – o pai parece sem jeito, não sabe como falar com o filho, pois nem mesmo sabe por onde começar.
                – Não é nada, pai. – Rafael tenta desconversar.
                – Filho, eu sei que não sou tão presente, mas ainda sou seu pai, eu amo a nossa família, vê-la assim... Se destruindo... Eu quero ajudar.
                Rafael hesita, seu pai parece aberto a escutar, mas o quanto ele está aberto a aceitar o que ele tem a dizer, ainda é uma dúvida.
                Falar sobre sua transexualidade com o pai seria o último passo para a conquista da sua liberdade, pois após isso, ele aceitando ou não, Rafael começaria sua transição. Mas isso, ao invés de incentiva-lo, só o deixava mais nervoso. O‘não’ ou o ódio do pai seria demais para ele, que já tanto sofria pela forma fria que a mãe vinha lhe tratando.
                Rafael desiste.
                – Ela está chateada comigo porque eu quero sair do futebol. – mente. Seu pai parece ter dificuldade em assimilar o que escutara.
                – Só por isso? – ele estranha.
                – Pois é, eu disse, não é nada. – Rafael torce para ter convencido ele.
                – Confesso que tampouco entendo porque você quer sair do futebol, você sempre pareceu gostar de jogar.
                – Sim, eu ainda gosto, mas é o último ano, quero me concentrar nos estudos. – segue mentindo.
                – Ir bem no futebol também lhe ajudará a entrar na faculdade. – o pai pondera.
                – Ajuda caso eu queira ir para área dos esportes, mas prefiro fazer algo que ajude na empresa. – o pai fica realmente surpreso e começa a rir de felicidade.
                – Eu não sabia que queria seguir com a empresa. – ele o abraça brevemente. – Sempre temi que no fim você somente levaria o nome e deixaria tudo nas mãos dos investidores. – diz o pai. – Eu fico tão feliz em saber que você quer liderar. – ao ver a felicidade do pai, Rafael não pode evitar de imaginar em como seria seu futuro frente a empresa, já se imagina fechando bons negócios, triplicando a renda... Mas assim que se vê de terno, como homem, seu sorriso se desmancha. – Assim que você entrar na faculdade, já lhe colocarei em estágio na empresa, algo leve, para que não lhe atrapalhe... Mas será ótimo para experiência. Afinal, assim que você formar, me aposentarei. – anuncia.
                – Mas... Pai...
                – Fique tranquilo, ficarei pelo menos um ano lhe orientando por trás das cortinas, tampouco sou louco, sei que não se sai pronto da faculdade, mas acredito em você, meu filho, meu menino, meu homem. – e dá um tapa nas costas de Rafael, não é um tapa forte, para machucar, mas sim uma forma de ostentar a masculinidade, o orgulho por ter um filho homem. Homem.


Continua