sábado, 12 de agosto de 2017

16. Planos falíveis.


                O restaurante que Lucas se encontra com o delegado permite que seus clientes optem por comer em cabines reservadas, longe dos olhos do publico geral, e isso é imprescindível para o assunto que ele quer ter com o homem.
                Após lhe contar o que quer, o delegado parece ponderar sobre o pedido.
                – Esse assunto rendeu muito na polícia. – ele diz enquanto saboreia o prato de entrada do restaurante. – o retrato-falado não deu muita informação. – diz olhando para o garoto, que não consegue esconder o alivio. – mas o aleijado é persistente e tem dinheiro. – diz de maneira bruta. –  Irão fazer uma pericia no carro, em busca de algum DNA. – anuncia rindo de canto. – Para você ver como sou bonzinho, lhe passarei mais uma informação totalmente de graça. A pessoa que os salvou, deu seu testemunho anonimamente, e ele falou sobre certo carro esportivo. – diz. – Assim que o juiz liberar, os investigadores farão buscas em câmeras da região, para pegar a placa do carro. – Lucas não tocou em nada da comida. – Melhor você se livrar do carro logo.
                – Eu irei vendê-lo.
                – Não. – o delegado diz. – vendê-lo seria um tiro no pé, pois você estaria entregando seu atestado de culpa. Queime, abandone em algum lugar, finja que ele foi roubado.
                – Todo mundo sabe que meu carro não foi roubado. Meu pai sabe que não foi roubado. – o delegado arqueja as sobrancelhas.
                – É, meu rapaz, talvez seja bom começar a rezar então.
                – Como assim, não há nada que você possa fazer? – pergunta indignado.
                – Bom, posso fazer algumas imagens desaparecer, talvez um B.O. de um carro roubado, posso até mudar o nome do dono de um carro, posso até mesmo falar quem é a testemunha, mas... Você sabe, não é? O preço pode sair salgado.
                – Quero tudo isso, todos esses serviços. – Lucas diz convicto e o delegado gargalha.
                – Você ainda não sabe os valores. – ele começa a não mais levar o garoto a sério.
                – Então diga. – Lucas não hesita e o delegado para se sorrir.
                – Um milhão e meio. – fala e Lucas tenta não parecer surpreso pelo valor, ele não tem nem um terço disso na bolsa, e no banco ele tem guardado pouco mais da metade do valor.
                – Lhe pagarei a medida que me trazeres os resultados. – diz. O delegado nega.
                – Exijo adiantamento. – Lucas o entrega um envelope, com todo o dinheiro que havia tirado do banco. – Quanto tem aqui? – ele pergunta.
                – Alguns mil. – Lucas responde sem jeito.
                – Quanto? – o delegado exige um número.
                – Cinco mil. – o garoto responde.
                – Você acha que eu sou um otário? – o delegado pergunta. – Você chama isso de adiantamento?
                – Foi o que eu pude tirar no banco. – Lucas tenta se justificar.
                – Olha, eu vou deixar essa passar, mas se no nosso próximo encontro você vier com um valor a baixo de cinquenta mil, você pode esquecer de qualquer ajuda minha e se precisar ainda lhe prejudico. – ameaça.
                O almoço acaba e Lucas vai até sua casa descansar um pouco para se preparar para a noite de trabalho, ele teria que faturar muito bem hoje, pois ele precisa de dinheiro mais que nunca.
                Em casa tudo parece normal, o pai não está, os empregados fazem seus serviços, a mãe anda de um lado para o outro, sem fazer nada e sem nenhum interesse de arrumar algo para fazer, e a irmã está trancada no quarto, isolada.
                Lucas decide não falar nada com ela, ainda, pois quer ter mais notícias do delegado antes de abrir a boca.
                O garoto passa o dia no quarto, entrando em contato com seus clientes, para avisá-los que hoje havia entregas. Quando o sol já se pôs, ele toma um banho e se arruma para sair de casa.
                – Aonde você vai? – a mãe pergunta, ao vê-lo saindo de casa.
                – Vou sair, ele dá de ombros.
                – As férias já acabaram, comece a agir como um estudante... – sua mãe começa a reclamar, mas ele sai e a deixa falando sozinha.
                Não querendo usar seu caro esportivo, ele chama um táxi. Primeiro ele vai até seu fornecedor, ele já tinha confirmação de vários clientes e seu estoque não seria suficiente.
                Após conseguir mais drogas, ele vai até o apartamento de Rebecca.
                 Quando chega lá, ele é surpreendido pela presença de Sara, que parece ter acabado de chorar, ambas ainda usavam os seus uniformes.
                – Espere, vocês voltaram? – pergunta a loira, assim que o vê entrando no apartamento. Rebecca olha assustada para Lucas, sem saber como responder.
                – Sim. – Lucas mente e agarra Rebecca pela cintura. Rebecca não o desmente.
                – Então era isso que você estava me escondendo? – Sara pergunta.
                – Era. – Rebecca ri nervosamente.
                – Uau, não é algo bom, mas pensei que era outra coisa.
                – Outra coisa? – Lucas sente Rebecca tremer.
                – É, pensei que era algo mais sério. – Sara dá de ombros. – Bom, acho que já deu a minha hora. – ela começa a se despedir da amiga com um longo abraço, Lucas se afasta, para não atrapalhar as garotas e de longe tem a impressão que elas estão sussurrando algo no ouvido uma da outra.
                Sara se despede de Lucas apenas com um ‘tchau’ e um aperto de mão.
                – O quê você está fazendo aqui? – Rebecca pergunta brava, assim que fecha a porta, após ver a amiga entrando no elevador.
                – O quê eu estou fazendo aqui? – ele começa a rir. – Você sabe muito bem o quê eu estou fazendo aqui. – responde.
                – Você me contratou depois desapareceu por uma semana. – Rebecca dá um soco no peito de Lucas que se enfurece.
                – Você está louca? Eu não te abandonei, eu simplesmente não precisava da sua ajuda, pois não estava indo a boate.
                – Eu sei disso! – ela grita. – Descobri isso quando fui lá, no dia seguinte e Virginia me contou.
                – Você voltou lá sem mim? – ele a questiona surpreso. – Porque você fez isso?
                – Você não me disse que não era para voltar. – se justifica.
                – Mas se eu não vim te buscar, é porque não era para você ir!
                 – Você não disse nada disso, você queria que eu adivinhasse?
                – Não venha colocar a culpa em mim.
                –Tudo o que você tinha que fazer era ter me avisado!
                – Tá, tudo bem, me desculpe, mas agora você já sabe e hoje eu estou aqui para lhe levar novamente.
                – Não posso. – desta vez ela fala baixo.
                – E porque não?
                – Quando eu voltei a Virginia me apresentou como uma das garotas. E ela me pediu para não voltar lá enquanto eu não for maior de idade. – resume. Lucas faz uma careta.
                – Você virou puta? – ele pergunta enojado.
                – Você me colocou nessa situação! – ela responde se sentindo ofendida.
                – Não, você se colocou nessa situação, eu te levei lá para vender drogas, não para virar uma vadia. – Rebecca se surpreende pela maneira bruta que ele fala.
                – Você me levou com mascara, você sabia que as meninas de mascara eram garotas de programa. – ela volta a o acusar.
                – Mas você pode se recusar a ir para cama com eles, a áascara tem um significado, mas não te torna uma escrava, nem mesmo Virginia lhe abrigaria a nada, se você fez, foi porque quis. – ele bate o pé. – Quer saber? Não me importo mais... Eu quero mais é que todos descubram que você é uma pobre. – ele quase cospe em Rebecca.
                – Você não pode contar...
                – Eu não vou contar. – ele a corta. – Você não tem um tostão e agora tampouco tem mais emprego, mais cedo ou mais tarde vão lhe descobrir. – ela diz. – E eu vou estar lá para rir de você, sua puta. – Rebecca se segura para não começar a chorar.
                – Porque você está falando assim comigo, eu posso voltar próximo mês. Isso tudo é sua culpa. – ela começa a dizer, mas Lucas não quer mais discutir. Ele mesmo destranca a porta do apartamento e sai, deixando Rebecca para trás, totalmente acabada.


Continua




Métis: Muito obrigada por comentar e fico muito feliz por saber que está gostando. Me inscrevi no seu blogger e amanhã já começarei a ler suas histórias também ;). Bjssss

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

15. O Primeiro dia de aula.

Capítulo em homenagem ao grande cantor Chester Bennington e ao meu grande amigo Haroldo. Que vocês estejam ao lado de Deus.



                É um novo dia, o primeiro dia de aula. A diretora já terminou seu discurso e todos se dirigem para suas respectivas salas. Tudo parece normal. Os alunos se reencontram pelos corredores, os professores passam novas matérias... Após as férias conturbadas, a vida parecia ter voltado no eixo para os nossos quatro personagens.
                Para Lucas tudo estava bem, ele iria conversar com o delegado logo após a aula e durante a noite voltaria aos negócios com Rebecca. Rafael tinha dobrado seu pai, que acreditou em sua história e sua mãe não negou quando foi questionada pelo marido, ela inclusive começou a agir menos fria com o filho, para não mais despertar a curiosidade do homem. Rebecca economizava o que tinha ganhado no clube de Virginia, e considerava retornar ao local quando fosse maior de idade, ela não sabia se conseguiria comprar seus materiais escolares, pagar a mensalidade e todas as contas da casa com o dinheiro, caso não consiga, ela tentará recorrer a Lucas ou a Sara, mas ela tem esperança de conseguir lidar com isso sozinha, o pai parece estar melhorando, bebendo menos, talvez ele logo se reerga e volte a sustentar a casa. Sara tinha se livrado dos enjoos, e agora conseguia fingir melhor que nada tinha acontecido. Talvez o desaparecimento de Heitor a ajude, assim ela tem certeza que ele não contará nada. Ela tinha começado a tomar o pó que Eleonora tinha lhe dado no dia anterior, e estava confiante de que Ricardo nem mesmo desconfiaria sobre sua gravidez. Enfim, tudo estava dando certo.
                Durante o intervalo Rebecca e Sara conversaram, nenhuma das duas falou nada sobre seu segredo e isso ficou claro, pois ambas não pareciam tão à vontade na conversa, elas se comunicavam genericamente, o assunto ‘férias’ foi veemente evitado. Ricardo e Rafael também se falaram, o transexual se animou ao perceber que o amigo estava tentando se reaproximar dele, pois desde que brigara com Linda, se sentia muito sozinho e mesmo sentindo que sua amizade com Ricardo era superficial, ele aceitaria isso de bom grado.
                A manhã passa, o primeiro dia de aula termina e a realidade volta a bater na porta de alguns. Lucas corre para se encontrar com o delegado, ele sabe que o homem cobrará muito por menor que seja o serviço, por isso, antes de encontra-lo, ele passa no banco e tira a maior quantidade de dinheiro permitida, um pequeno rombo em sua conta bancaria que deverá ser preenchida mais a noite. Sara e Rebecca vão saindo juntas do colégio, mas a supervisora chama Rebecca antes que ela possa colocar o pé na rua.
                – Vá lá, eu te espero. – Sara diz simpática. Rebecca assente.
                A garota é levada ao escritório da supervisora, que parece desconfortável em dar a notícia.
                – Sinto muito por lhe chamar aqui para abordar este assunto, mas já tentei fazer contato com seu pai por inúmeras vezes e não obtive nenhuma resposta, está tudo bem com ele? – ela pergunta e Rebecca começa a ficar nervosa com a situação, parece ser algo sério e ela teme que isso a obrigue a revelar o falimento de seu pai.
                – Ele estava um pouco doente, mas agora está melhorando. – Rebecca mente.
                – Entendo. – a mulher não parece satisfeita com a resposta, mas aceita. – E você acha que ele pode vir ao meu encontro até, no máximo, amanhã? – pergunta esperançosa.
                – Não sei... – ela pondera. Rebecca não sabe qual é o assunto. No fundo ela gostaria que o pai resolvesse este problema, mas será que amanhã ele acordará bem? Se não, ele pode muito bem envergonhar Rebecca frente a todos, chegando bêbado na escola, ou pior, ele pode muito bem revelar que agora eles são pobres. – Ele foi a uma viajem de negócios, ele disse que chegaria ontem, mas parece que houve um imprevisto e agora ele não sabe muito bem qual será o dia de sua volta. – a mulher faz um semblante triste.
                – Como eu já disse, sinto muito por lhe chamar para tratar deste assunto, é algo que só resolvemos com os responsáveis pelos alunos, mas temo que não posso esperar pela volta de seu pai. – suspira, mas logo depois sorri. – Rebecca, o cheque que foi dado para pagar sua matrícula voltou por duas vezes, e recebemos informações de alguns professores que você não tem o material completo. Temo que você não possa continuar estudando aqui, se isso não for resolvido logo.
                – Mas hoje é o primeiro dia de aula ainda, eu não tive tempo de comprar meu material e... – ela se cala, não sabe como arranjar uma desculpa para o cheque da matricula.
                – Eu entendo, você sabe das regras da escola, muitas instituições aceitam que o aluno adquira os materiais ao decorrer do ano, mas aqui eles sempre deverão estar completo no primeiro dia de aula. – a mulher diz. – você sempre cumpriu essa regra. – a relembra. – poderíamos relevar a questão do material, se a matricula tivesse sido efetuada, mas o acumulo das duas situações... – deixa no ar. Rebecca não sabe o quê dizer. – Vocês estão com algum tipo de problema em casa? – ela pergunta.
                – Não! – Rebecca quase pula ao responder, de tanta urgência que sente em proteger seu segredo. – Eu irei olhar com meu pai, prometo que até o fim da semana tudo estará resolvido. – a menina diz sem nem mesmo respirar.
                – Rebecca, eu sinto muito, mas não temos uma semana, ou seu pai acerta, pelo menos, a matrícula até amanhã, ou você não poderá assistir as aulas. Se ele acertar a matrícula, permitirei que fique essa primeira semana de aula sem o material completo.
                Rebecca sai da sala em estado de choque, ela já havia usado parte do dinheiro que arrecadara de Virginia: Pagou a conta de luz e internet, fez a compra do mês, garantindo que a geladeira não ficasse vazia, comprou três dos dez livros exigidos pela escola como parte do material escolar, comprou cinco dos seis cadernos que também fazem parte do material da escola, pagara o táxi de ida e volta, para quando ela ia fazer essas compras, e hoje cedo ela pagara um táxi para vir até o colégio. O que restara, ela iria usar para pagar a conta de água e o transporte de sua casa para o colégio e vice-versa, se no fim sobrasse algo, ela tentaria pagar a primeira mensalidade da escola. Mas todo seu plano tinha ido por água abaixo, ou ela pagava a conta de água, comprava o resto dos materiais e se transportava de táxi no trajeto casa-colégio, ou ela pagava a matricula. O problema é, se pagasse a matricula, não conseguiria comprar o resto dos materiais e seria expulsa do mesmo jeito, contudo, não pagar a matricula revelaria ao mundo que ela estava falida. Rebecca não tinha se sujeitado a ficar a noite inteira torturando um velho nojento para no fim das contas ainda ser descoberta. Ela teria que fazer algo.
                Sara, ao perceber o torpor da amiga, decide acompanha-la até a sua casa, o que foi bom, já que Sara decidiu usar seu carro particular, salvando Rebecca de gastar com o táxi.
                Assim que chegam ao apartamento de Rebecca, Sara percebe que há algo de errado, a casa não está suja, mas tampouco está limpa e não há nenhum empregado por perto.
                – O que está acontecendo, Rebecca? – Sara pergunta.
                – Nada de sério. – a menina tenta disfarçar. – Você que parece estranhada. – joga na cara, pois sabe que isso pode ser sua salvação. Sara suspira indecisa e se joga na cama da amiga, que se senta ao seu lado.
                Sara se sente mal por esconder algo da amiga e acredita que ao contar a ela o que está acontecendo, Rebecca também se abrirá para ela, revelando o que há de errado em seu apartamento.
                – Se eu te contar você jura que mantem segredo? – pergunta receosa.
                – Claro. – Rebecca garante.
                – Você precisa jurar mesmo. – se ergue, ficando sentada na cama.
                – E alguma vez eu já contei algum segredo seu para alguém? – Rebecca questiona, se sentindo um pouco ofendida pela hesitação da amiga, porém ela não a julga, ela tampouco teria coragem de falar a amiga sobre o que a aflige.
                – Eu estou gravida. – Sara revela com a voz baixa.
                – Você o quê? – Rebecca deixa o queixo cair. Sara não repete. – Eu não acredito. – Rebecca arregala os olhos.                 – No fim Ricardo não resistiu mesmo em? – começa a rir, deixando o choque da notícia se esvair de seu corpo. Sara não a acompanha na risada e Rebecca percebe que há algo mais. – Sara... Você...
                – O filho não é de Ricardo. – ela não consegue olhar para os olhos da amiga, mesmo sabendo que a mesma não a julga, ela nunca tinha feito algo tão sujo antes. – É de Heitor. – revela e Rebecca perde a respiração por alguns segundos.
                – Sara o que você fez? – diz por fim.
                – Eu não sei, mas eu vou concertar. – diz e cai no choro. Rebecca se aproxima e abraça a amiga, consolando-a. – Eu juro que vou concertar isso.

Continua




Métis: Olá, desculpa pela demora em postar, mas espero que você tenha gostado da história até então. Muito obrigada por comentar. bjssss