domingo, 12 de março de 2017

9. Daniel (Penúltimo capítulo)



Domingo

           Não é normal eu precisar vir até aqui durante os domingos, eu nem mesmo sabia que aqui ficava aberto durante os domingos, mas não nego que gosto de descobrir isso, pois domingo não é um dia feliz para mim.
           Entro na sala do Dr. Luiz e a sala está bem escura, apenas o abajur da sua mesa está aceso, todas as janelas estão fechadas e tampadas pelas cortinas.
           Estranho.
           – Boa Tarde. Doutor Luiz. – digo e assim que ele levanta a cabeça para me olhar, percebo que não se trata do Doutor Luiz.
           – Perdão. – o homem diz. – O Doutor Luiz não pode comparecer hoje, e eu cuidarei da sessão no lugar dele, espero que isso não lhe incomode. – o homem sorri, não consigo ver muitos detalhes, pois está bem escuro na sala, mas seu cabelo brilha sobre a fraca luz, é um loiro dourado, quase como se ele tivesse cabelo feito de ouro.
           – Eu já estou acostumado com o Doutor Luiz. – digo.
           – Ele me passou tudo o que devo saber, para poder lhe orientar melhor. – faço uma careta, tudo o que eu digo aqui deveria ser privado, ninguém mais deveria saber. – Ele apenas falou o necessário, nada muito intimo, afinal de contas, isso seria ilegal. – o homem fala como se já soubesse do meu pensamento.
           Eu sorrio fraco.
           O homem se levanta e me encontra perto da porta.
           – Meu nome é Dalton. – ele diz, oferecendo-me a mão, eu o comprimento.
           – Daniel. – eu digo. – Mas você já deve saber disso. – falo fraco e ele ri.
           – Tudo bem, não precisa ficar tímido comigo, você vai ver, você nem vai sentir diferença. – ele diz. – Vamos? – ele abre espaço para que eu adentre mais a sala.
           Entro e vou até o divã que fica perto de uma das janelas, que hoje está fechada. Normalmente por ela consigo ver o céu, as nuvens... No horário em que geralmente venho o sol já está quase se pondo, então minha visão sempre é bem clara e agradável, nada de luz do sol no meu olho.
           – Fique a vontade, fale comigo como se eu fosse o Doutor Luiz. – Dalton diz de algum ponto atrás de mim.
           Fecho os olhos e suspiro. Não gosto da troca de doutores, mas preciso falar. Talvez ele seja bom também e possa me ajudar até melhor...
           – Essa semana foi difícil... – começo. Geralmente já começo dizendo meu problema, mas mesmo tentando ignorar que hoje falo com Dalton, não consigo, por mais que ele tenha dito que já sabe da minha história, meu cérebro não entende e me faz querer falar tudo desde o começo. – Talvez eu realmente não vá mudar de escola novamente. – digo cabisbaixo. – Vai ser a quarta só nesse ano... – Dalton escuta atencioso. – Não sei como consigo isso. Eu sempre acho que vai ser diferente, mas todos me conhecem, todos riem de mim, todos... Eu tento, mas eu nunca me adapto.
           – Porque você acha que nunca se adapta? – ele pergunta.
           – Não sei... Quer dizer... No começo eu só era diferente, mas depois teve um vídeo que se espalhou e... O vídeo me persegue até hoje.
           – Você acha que se não fosse o vídeo, você teria se dado bem nesta escola?
           – Acho que sim... Pelo menos no começo.
           – E porque apenas no começo?
           – Porque no fim eles veriam que eu sou diferente.
           – Ser diferente não é ruim, é algo bom...
           – É bom. – confirmo.  – Todos nós somos diferentes um dos outros, isso nos torna nós mesmos. – digo à frase que já escutei por várias vezes e que odeio. – Mas quando sua diferença lhe impede de se enturmar com as pessoas, isso te atrapalha.
           – Você só é uma pessoa especial. – Dalton diz e essa é a primeira diferença que sinto entre ele e Doutor Luiz. O meu psiquiatra usual não falaria dessa forma.
           – Você faz parecer que eu sou deficiente. – reclamo.
           – Eu não digo nesse sentido. Tanto você quanto eu, somos pessoas especiais.
           – Você também é louco? – pergunto e ele ri.
           – Não. – ele responde. – Eu vou te mostrar. – diz.
           Levanto-me e vou até a janela, abro a cortina e a luz do sol incomoda meus olhos.
           – Você sabe por que você fez isso? – ele pergunta. Eu estranho sua pergunta, mas logo percebo que ela faz sentindo. Eu não tinha motivo para ter feito isso.
           – Não sei. – dou de ombros. – Talvez eu quisesse um pouco mais de luz. – não quero que ele pense que sou mais louco do que realmente sou.
           – Não. – ele contradiz. – Você fez isso porque eu quis que você fizesse. – eu acabo rindo. – Você não acredita? – pergunta.
           – Não. – respondo obvio.
           – Você vai sentar agora. – ele diz e eu me sento. Olho para ele, recostado na mesa e ele espera pela minha reação, mas eu não vi o seu ponto ainda. – Você vai levantar a mão direita. – ele diz e eu o faço. Acho estanho minha ação e faço uma careta.
           – É porque você está falando antes, você está me condicionando a fazer o que você fala. – digo dando de ombros, mais uma vez.
           – Então tá. – ele diz sorrindo.
           Levanto-me, começo a pular no chão e a gritar, pareço fazer sons de macacos, como se eu fosse um macaco na floresta, eu pulo e grito, mãos para cima, balançando, pulo encima do divã, que eu estava sentado a pouco, continuo pulando sem dó, não sou grande nem pesado, mas não sei se este móvel aguentaria tantos pulos sem quebrar. Sigo pulando e fazendo barulhos, mas, desastrado como sempre, acabo tropeçando em meu próprio pé, tento me equilibrar, mas quando vejo já estou quase caindo, de costas.
           Minha mente sabe que me machucarei feio, pois o divã fica perto da parede e eu vou cair de costas virada para a parede, provavelmente baterei a cabeça e ficarei mais doido ainda.
           Dalton me segura pela minha blusa, com apenas uma mão, e eu fico no ar, olho para cima e se ele tivesse esperado mais um segundo, eu bateria com minha nuca em cheio na quina da janela.
           Estou ofegante, com medo e confuso.
           – Você fez isso? – pergunto. Ele ainda me segura pela blusa.
           – Sim. – ele responde e me alça, para que eu fique de pé.
           Estou de pé, encima do divã e ele de pé no chão e ainda assim não fico mais alto que ele. Vendo de perto seus olhos são claros e ele tem uma barba rala, seu cabelo é realmente dourado e agora que a luz do sol entra pela janela, posso dizer que até mesmo brilha. Ele volta a se sentar, perto da mesa, onde estava antes.
           – Você pode se sentar ou ficar de pé. – dá de ombros. – Mas já aviso que você não irá fugir. – ele diz.
           – E porque não? – pergunto enquanto desço do divã.
           – Você acreditaria se eu te falasse que existem nesse planeta terra, vários series, series que os humanos nunca ouviram antes falar? – ele ignora minha pergunta e me faz uma intrigante.
           Sento no divã e fico pensativo.
           – Não sei. – confesso. – Talvez...
           – E se eu te dissesse que você talvez não seja humano? – pergunta e eu começo a rir.
           – Eu sou humano. –afirmo.
           – No mundo temos seres bizarros, alguns feios, de personalidade e aparência, alguns que nunca saem à superfície para os olhos humanos verem. Quer dizer, alguns até saem e chegaram a virar grandes lendas. – sorri. – Outros seres, como eu e você, somos iguais aos humanos, podemos viver entre eles, agir como eles, mas não somos humanos.
           – Você é louco. – digo. – O que você fez com Doutor Luiz?
           – Ele está vivo e bem, em casa com a família, provavelmente. – dá de ombros. – Eu quero lhe dar uma oportunidade, Daniel, oportunidade de desenvolver seu poder.
           – Eu não tenho poder.
           – Você não sabe disso. – ele diz. – O seu pai é igual a mim, o poder dele se iguala muito ao meu, aposto você o respeita bem mais do que respeita sua mãe. – ele diz e não posso deixar de ficar desconfiado, eu realmente sempre fiz tudo o que meu pai manda, mesmo sem querer, mesmo sem achar que conseguia, mesmo sem ver.
           – Ainda assim, isso não prova nada.
           – O que você perde em vi comigo?
           – Minha família. – digo após longos segundos pensando.
           – Eles já sabem que você irá comigo. – ele diz e eu hesito. – Eles querem te proteger, Daniel. Você não e humano, mas é uma mistura de dois seres, dois seres que não devem se misturar. – ele começa a explicar. – Vir comigo é sua melhor chance, seus pais sabem disso, e você deve escolher, eu estou lhe dando a chance de escolher, agarre-se a isso, pois alguns não tiveram. – o que ele diz e a forma com que ele diz me aterrorizam.
           – Nada disso faz sentido. – falo. – Mas... Seria legal. – pondero. – Ter poder. – me pego rindo ao falar essa palavra. – Eu sou realmente poderoso? – pergunto.
           – Só há uma maneira de descobrir. – ele diz. – Se você vir comigo. – ainda estou desconfiado, toda essa história me parece loucura, mas ele tem um bom ponto e o meu lado garoto sonhador sempre quis que algo assim acontecesse.
           – Você pode muito bem ser um maníaco querendo me raptar. – digo e ele ri alto.
           – Um maníaco com poder querendo te raptar... Talvez você devesse aprender a usar seu pode para me derrotar. – ele diz rindo, divertido.
           – Acho que é minha melhor opção. – riu também e entro na brincadeira. – Eu vou. – decido-me.
           – Bem que me falaram que eu iria gostar de você.


Continua

Este é o penúltimo capítulo e nele já se fala um pouco mais sobre o que pode estar acontecendo. No último capítulo mais coisas serão reveladas.
Espero que tenham gostado.


Fernanda: Eita, esse xis parece ser imenso, e muito bom... Aqui onde moro também tem várias coisas boas, e talvez até algumas variações do xis, mas não iguais. Quem sabe um dia vou pro sul e experimento né? Obrigada por comentar. bjsssss

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