domingo, 26 de fevereiro de 2017

7. David



Domingo

           Gosto de sentir o ar fresco em meu rosto. O vento do mar, o pôr do sol...
           _ David, suba mais. – Elliot me chama, para que eu suba mais na formação rochosa da praia. Olho para todos os lados, para garantir que não conheço ninguém que está na praia, pois se contassem para minha mãe que eu subi no topo da rocha, eu teria que escutar muito quando voltasse para casa.
           Subo na rocha e deixo que o vento forte me receba.
           O barulho do mar, a cor do céu, o vento. Estou no paraíso.
           Sento-me no topo da rocha e permito-me deixar levar pela tranquilidade, geralmente não sou tranquilo, mas a natureza sempre me acalmou.
           Elliot começa a pular de um lado para o outro, ele gosta de explorar tudo, gosta de aventura, gosta de provocar os limites da natureza.
           _ Fique quieto. – peço.
           _ Fique aí relaxando, deixe-me divertir. – ele responde.
           Não gosto da resposta, mas deixo quieto, não quero brigar com ele por bobagens, cada um tem sua forma de divertir e relaxar, a minha é apreciar a natureza, a de Elliot é provocando-a.
           Ficamos ali até o sol se por completamente.
           _ Vamos descer cara, daqui a pouco nossas mães vão voltar para casa e se não estivermos lá. – digo e ele assente, concordando.
           Tudo acontece muito rápido. Quando vamos descer Elliot se desequilibra e despenca na areia.
           Vejo sangue, mas não sei dizer se ele apenas raspou as costas na rocha ou se ele bateu a cabeça em alguma pedra. Tento tomar muito cuidado para terminar minha descida e socorre-lo.
           Vejo que ele está acordado, mas parece confuso, perturbado, peço para que ele fique calmo e que se mantenha deitado, e corro para o calçadão em busca de alguém que possa nos ajudar.
           Quando, finalmente, me aproximo da alguém, ele se assusta ao me ver aproximar.
           _ Calma, não vou te roubar. – já digo, não é como se esta fosse a primeira vez que as pessoas acham que sou um delinquente.
           A mulher sorri envergonhada.
           _ Meu amigo caiu das rochas, preciso de ajuda. – digo. _ Você pode chamar a ambulância? – pergunto. Ela volta a me olhar receosa. Suspiro fundo. _ Deixa para lá, vou procurar outra pessoa. – eu entendo seu olhar, ela ainda não confia tirar o celular perto de mim.
           Continuo meio correndo meio andando pelo calçadão, a procura de alguém que pareça mais receptivo.
           Vejo um carro de polícia. Vou até eles e eles já param o carro, alarmados.
           _ Meu amigo caiu das rochas, ele precisa de ajuda. – já saio dizendo.
           Um dos dois policiais olha para mim e diz.
           _ Fique aqui, vou olhar lá. – ele fala.
           _ Eu posso te ajudar a acha-lo. – digo.
           _ Fique aqui! – o policial grita.
           Fico observando-o, para garantir que ele está indo na direção certa.
           O outro policial sai do carro e para do meu lado.
           _ Qual seu nome? – pergunta autoritário.
           _ David. – respondo.
           _ Mora onde?
           _ Na vila. – respondo e ele me olha de cima a baixo.
           Moro na Vila, um lugar não bem quisto na cidade e sei que respondê-lo com a verdade foi um erro. Eu poderia dizer que morava em um bairro chique ou pelo menos um menos perigoso.
           _ E o que você estava fazendo na rocha? – pergunta, agora já suspeitando de mim.
           _ Apreciando o sol. – digo, sabendo que essa resposta não será bem vista por ele.
           _ Apreciando o sol? – pergunta arqueando uma sobrancelha.
           _ É. – confirmo.
           _ Entra aí no carro vai. – ele ordena.
           _ Mas eu não fiz nada.
           _ Entre no carro.
           _ E meu amigo?
           _ Você quer que eu te prenda por desacato, em garoto?
           _ Eu só quero saber se meu amigo está bem!
           O policial se irrita e começa a me pegar a força.
           Eu grito.
           _ Socorro, eu só quero ajudar meu amigo.
           Ele me prensa contra o capô do carro. Tento chuta-lo, mas erro.
           _ Fique quieto garoto.
           Ele tenta pegar sua algema, e com isso desaperta um pouco do aperto. Aproveito e me contorço para me libertar.
           Consigo.
           Saio correndo feito um louco sem rumo. Quero voltar para encontrar Elliot na rocha, mas temo que isso me faça ser preso. Se o policial o encontrar, espero que ele o socorra.
           Desvio-me das pessoas que andam no calçadão e isso se torna mais necessário a medida que o policial começa a gritar para que me parem, alguns se assustam e se afastam de mim, mas outros tentam se colocar na minha frente, para me capturar.
           Tenho sucesso, mas não por tempo suficiente. Trombo em um homem alto e loiro, e ele me segura, olhando-me seriamente. O policial nos alcança.
           _ Muito obrigado, por parar esse delinquente. – o policial diz ofegante assim que se aproxima.
           _ O que ele fez? – o homem pergunta, ainda olhando para mim.
           _ Ele é um moleque.
           _ E o que ele fez?
           _ Não te importa. – o policial se irrita.
           _ Mas se você quer prendê-lo, deve ter um bom motivo. – o homem insiste. Quero aproveitar a discussão para fugir, mas o homem que me defende não me larga.
           _ Você está me desrespeitando? Porque eu posso te levar preso também.
           O homem não diz nada, apenas olha para o policial, que se cala, dá a meia volta e nos deixa.
           _ O que aconteceu? – pergunto.
           _ Ele foi embora. – o homem responde obvio.
           _ Mas por quê? – insisto, ainda sem entender nada.
           _ Porque eu mandei. – o homem responde.  Eu olho para o homem e ele não parece estar brincando.
           _ Isso não faz sentido.
           _ Eu vou te levar para um lugar mais seguro. – o homem me ignora.
           _ Não. – reluto. _ Espera. Eu preciso voltar para meu amigo. – digo.
           _ Já cuidamos de seu amigo. – ele responde.
           _ Como assim?
           _ Menos perguntas, mas cooperação, por favor. – ele pede. _ Vamos logo. – ele me puxa pelo braço, tento lutar contra seu puxe, mas não consigo, ele é mais forte.
           Andamos pouco, ele me coloca dentro de um carro simples e preto, não consigo olhar qual modelo.
           Ele me joga no banco de trás e entra no banco do motorista.
           Tento abrir a porta, quando vejo que ele não me olha.
           _ Está trancado. – ele diz em tom monótono.
           Tento abrir a janela, sou minudo para minha idade e sou magro, coisa de família, posso muito bem passar por ela.
           _ Não vai abrir. – ele responde.
           Fico irritado, ele nem mesmo me olha e já sabe o que eu estou tentando fazer.
           _ O que eu estou fazendo aqui? – pergunto bravo.
           _ Estamos esperando algumas pessoas.
           _ Quem?
           _ Você é sempre curioso assim?
           _ Eu não te conheço. – digo.
           _ Eu não irei te fazer mal. – ele responde.
           _ Não confio em você. – falo.
           _ Eu não preciso que confie. – ele dá de ombros. _ Prometi que iria te proteger e eu irei. – ele fala sem olhar para mim.
           _ Proteger do quê? – pergunto.
           Alguém bate na porta do carro.
           O homem abre a porta do meu lado.
           Apresso-me para abrir e tentar fugir, mas paraliso assim que vejo quem entra no carro.
           É minha mãe.
           Ela entra, obrigando-me a afastar da porta e me abraça.
           _ Mãe, o que está acontecendo?
           _ Fique calmo querido.
           _ Não temos muito tempo, Amadi. – o homem diz a ela.
           _ Quem é esse homem, mãe? – pergunto.
           _ Onde está Frederico? – minha mãe me ignora e pergunta ao homem.
           _ Esta ajudando ao amigo de seu filho. – o homem responde.
           _ Ele sabe? – ela pergunta. _ Sobre mim?
           _ Não. – ele responde.
           _ Isso vai dar certo? – ela pergunta.      
           _ Vamos proteger seu filho, Amadi. Esta foi a nossa promessa e vamos cumpri-la.
           _ Eu quero ajudar. – ela diz.
           _ Não creio que você possa fazer muito. – o homem diz.
           _ Eu sei das minhas limitações, mas ele é meu filho e...
           _ Seu filho vai ficar bem, vai ter o treinamento e proteção que precisa. – o homem a interrompe e garante.
           _ Se algo der errado...
           _ Você já disse o que tinha que dizer. – o homem a interrompe. _ Agradecemos a você e a seu marido pelo interesse em nosso plano e por nos facilitar todo o processo. Agora é com a gente. – ele diz.
           _ Posso despedir-me? – ela pergunta.
           _ Não é uma despedida.
           _ Não sabemos por quanto tempo vou ficar longe dele. – ela diz e o homem não a contesta. Ela volta a olhar para mim.
           _ Mãe, o que está acontecendo? – pergunto.
           _ Filho, você vai para um lugar, um lugar distante. Mas você não vai estar sozinho, vão ter muitos como você...
           _ Como assim, como eu? – pergunto interrompendo-a.
           _ Você é um menino especial, muito especial. – ela começa. _ Você tem algo dentro de vocês, escondido, que o faz muito poderoso.
           _ Como assim?
           _ Eu não posso te explicar agora. – ela diz. _ Não tenho tempo, mas você aprenderá em breve o que isso significa.
           _ Porque você não vai comigo? – pergunto.
           _ Eu não posso. – ela diz. _ Mas eu prometo estar por perto, indiretamente.
           _ Ele não pode se lembrar dessa parte. – o homem que está sentado no banco do motorista a interrompe.
           Minha mãe suspira.
           _ Apague tudo. – ela diz.
           _ Como assim? – ele pergunta.
           _ Não quero que ele se lembre de nada.
           _ Porque não? – o homem se vira para trás, e assim pode nos ver melhor do quê apenas olhando pelo retrovisor.
           _ É o melhor para ele.
           _ Não sei se concordo.
           _ Se você realmente tem quem pode fazer isso, se você realmente vai fazer meu filho se esquecer do que está acontecendo agora, eu quero que apague tudo. – ela diz dura.
           _ Eu não concordo, mas, farei o que você manda. Agora vá embora. Frederico está voltando. – o homem responde.
           _ Obrigada, Dalton. – minha mãe diz e depois olha para mim. _ Você será grande, meu filho. E eu te amo.

Continua

Capítulo postado como prometido, eu espero que tenham gostado,
Bom carnaval para todos.

           

3 comentários:

  1. Olá Nada. É para falar sobre a sua pergunta no Críticas. O formulário é que deu problema. Daí não deu para atualizar na página. Só hoje é que com o aviso eu tentei perceber qual era o problema porque o formulário não tinha recebido nada. Mas já resolvi o problema e vai ser feita a crítica à história.

    Eu ainda não consegui me actualizar na sua fanfic vou tentar assim que possível :)

    Bjs :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nanda* Desculpa ter errado o nome (que vergonha!).

      Excluir