O
primeiro dia de aula tinha acabado bem para Rafael, sua reaproximação com
Ricardo parecia promissora. Os dois haviam conversado muito durante o intervalo
e mesmo Rafael escondendo sua transsexualidade, ele conseguiu relaxar e
conversar com o amigo de igual para igual.
Após
voltar para casa, ele almoçou com a família, que parecia perfeita como uma
família de comercial de margarina... Depois do almoço Rafael foi ao seu quarto
e se permitiu tirar um cochilo, durante as férias seus horários haviam mudado
muito e acordar tão cedo hoje, o deixou muito cansado.
Seu
cochilo acabou demorando duas horas, ele acorda assustado e se dirige ao
banheiro. Quando retorna ao quarto ele decide adiantar as tarefas já passadas por
alguns professores, a maioria era para ser entregues na quinta, mas ele não
tinha outra coisa para fazer, então decide antecipar-se.
Ao
abrir sua bolsa, logo ele percebe um envelope estranho, ele não se lembrar de
tê-lo posto ali, então ele o pega e o abre. Lá há uma folha A4 e nela uma
mensagem escrita com recortes de letras de revistas. Algo infantil, como um
trabalho de Artes do primário.
Rafael
fica sem entender nada, mas ao terminar de ler a mensagem, percebe o por que do
trabalho, a pessoa queria se manter anônima.
“Assuma
que é uma bixinha, ou sua família
descobrirá da pior forma.”
Não
havia assinatura, nada que indicasse o autor da ameaça, mas Rafael não
precisava de nada disso. Ele tinha certeza que sabia quem era.
Ele
rasga a mensagem e joga de volta na mochila, para não correr o risco de alguém
mais lê-la.
Sem
se arrumar ou se preocupar em avisar a sua mãe, ele sai apenas com sua
carteira.
A
sua raiva é tão grande que ele não teme a nada. A última vez que fizera esse
caminho estava de noite, e ele só se localizava porque tenha alguém o guiando,
agora ele estava completamente sozinho, a única coisa que o guiava agora era
seu ódio.
Ele
sai no metrô e puxa na memoria qual era o restante do caminho, seus passos
começam a ficarem hesitantes, ele aos poucos se acalmava, mas agora já era
tarde, ele não iria deixar isso barato.
Ele
chega ao prédio e sobe as escadas. Bate na porta e espera para ser atendido.
Para
sua sorte quem abre a porta é Linda.
A mulher fica realmente surpresa em vê-lo e abre um sorriso, mas Rafael não
permite que ela se anime muito.
–
É melhor você não se meter comigo! – ele já começa alterado, botando o dedo na
face de Linda, que arregala os olhos, assustada.
–
Você está bem? – ela pergunta.
–
Pare de ser sínica. Você realmente acha que eu não iria adivinhar que era você?
–
Olha, eu não sei do que você está falando, eu...
–
Cale a boca. – ele grita.
–
Ei, quem você pensa que é para vir a minha casa e me mandar calar a boca? –
Linda começa a se irritar.
–
Sem dúvidas, um ser bem mais digno que você. – acusa.
–
Se isso ainda for por causa da sua irmã, eu já lhe pedi desculpas, o que mais
você quer que eu faça?
–
Pare de ser sínica. – ele repete, desta vez, mais irritado.
–
Eu não estou sendo sínica, eu realmente não estou entendendo.
–
Ah! Claro, você quer se fazer de boazinha. Você ainda quer que eu creia que
você é um ser bondoso, que está do meu lado, que me entende.
–
Rafael...
–
Porque em? – ele a interrompe. – É por dinheiro? Quanto você quer?
–
Eu não preciso do seu dinheiro.
–
Então, por quê?
–
Porque o quê?
–
A ameaça. – ele grita e ela não diz nada. – Isso mesmo, aquela mensagem de
recortes que você deixou na minha mochila.
–
Olha, não fui eu.
–
Claro que foi você. – volta a acusar.
–
Eu não cheguei perto da sua mochila, como você quer que seja eu?
–
Então como você sabe que estava na minha mochila?
–
Porque você acabou de falar isso. – Rafael se sente tonto, o nervosismo é tanto
que ele começa a sentir o controle se esvaindo de seu corpo.
–
Eu não sei como você conseguiu colocar aquela ameaça na minha mochila, eu só
sei que foi você!
–
Você já tentou se escutar? – Linda o questiona. – Você não percebe que está
fora de si? Porque tem que ser eu? Porque não pode ser outro alguém que tenha
acesso a sua mochila? – mesmo nervoso Rafael não se permite abalar.
–
Só você sabe o que sou, você é a única que tem motivos para querer atrapalhar
minha vida.
–
Eu não tenho nenhum motivo para atrapalhar sua vida. – Linda se defende, agora
mais calma, com a voz serena.
–
Ah, não tem não?
–
Não. – reafirma. Rafael quer dizer algo, mas não consegue rebater. – Eu não sou
a única pessoa que sabe sobre você.
–
É sim. – Rafael não grita.
–
Sua mãe também sabe. – ela diz.
–
Ela não faria isso.
–
Você realmente acredita que eu tenho mais razões que ela para lhe prejudicar?
–
A ameaça fala sobre eu me assumir ou minha família descobrirá da pior maneira,
minha mãe não quer que eu me assuma. – Rafael explica. – Não é ela. – afirma e
Linda suspira.
–
Mas tampouco sou eu. – diz segura. – Eu não sei quem foi, mas eu juro que não fui
eu! – Rafael não diz nada. – Acredite em
mim. – o garoto parece pensar, mas depois mexe sua cabeça em negativa.
–
Você não me engana mais. – diz e se distancia, indo embora sem se despedir.
Linda não diz nada, nem volta a insistir.
Na
volta Rafael já está mais calmo, ele se permite pensar em alternativas
diferentes, pensar em prováveis culpados, mas toda direção que ele segue
retorna para Linda.
Foi ela!
Ao chegar a sua casa, ele escuta o barulho de pratos sendo lavados.
Ele vai até a cozinha e encontra a sua mãe, que não lhe pergunta onde ele fora.
–
Eu vou dizer a verdade sobre os pontos na cabeça de Anna, mas você tem que
prometer que vai me ajudar a sair dessa e que a culpada pague caro por isso. –
ele diz, a mãe dele larga os pratos e desliga a torneira.
–
Estou escutando. - diz inflando-se e Rafael percebe que terá sua vingança.
Continua
Métis: Lucas é aquele personagem
que vai ser difícil de definir, acredito que ele tem potencial para fazer o bem
e também tem potencial para fazer muito mal. Muito obrigada por comentar.



