Durante as férias
Rebecca
ainda não entendia muito bem o sistema do lugar, no começo ela pensou que seria
como um leilão, e a cada plaquinha que fosse levantada, mais alto o número
ficaria, e ao mesmo tempo, a única coisa que Rebecca podia pensar era de um
dia, quando ainda era criança, e seu pai lhe levou a um leilão de equinos. Seu
pai queria fechar contrato com um grande empresário e como o homem era
apaixonado com cavalos, o seu pai queria presenteá-lo. A garota não podia
imaginar que se permitira chegar a este ponto.
Mas
agora ela via que não havia nada disso. Ela não precisou se exibir no palco,
nem mesmo houve gritarias, plaquinhas ou martelo. Os garçons e até algumas
meninas, chegavam e entregavam um pequeno papel nas mãos de Virginia. No
papelzinho havia números, que era o valor que o cliente estava lançando, e o
nome do cliente escrito embaixo. Era algo silencioso e, teoricamente, menos
degradante.
Virginia
parecia analisar os lançamentos, sempre descartando os valores menores e
ficando com os mais altos. A garota sempre foi rica e se acostumou a números
extravagantes, mas não deixava de se espantar com o valor escrito.
Nove
mil.
Nove
mil e duzentos.
Dez
mil e quinhentos.
Doze
mil.
Treze
mil e novecentos.
–
Pare. – diz Virginia quando outro garçom vem lhe entregar um lance. – Será
esse. – ela decide com o papelzinho na mão.
–
Mas o lance que eu trouxe é maior. – o garçom observa.
–
Não importa. – ela responde dura. – É esse. – bate o pé. Rebecca fica sem
entender. – Jamais diga que eu não tentei lhe ajudar. – fala e Rebecca não se
manifesta, principalmente porque não entende o comentário da mulher. – Você
teve sorte, aproveite esse dinheiro, pegue-o e só retorno aqui quando já fores
maior de idade. – diz séria. A menina apenas assente, concordando com a dona do
estabelecimento.
Assim
que o vencedor levanta e vai à direção de Rebecca, ela se assusta com sua
aparência. O homem é baixinho e barrigudo, ele veste uma calça social e uma
blusa polo bem justa, ele carrega uma mala de mão.
O
cliente parece estar familiarizado com o ambiente e se dirige, sem pestanejar,
até o quarto reservado, no fundo do estabelecimento.
Era
a primeira vez que Rebecca entrava ali, e seus olhos não podiam deixar de
observar a todos os detalhes. A meia-luz, a cama redonda e enorme, com lenções brancos,
espelho no teto...
O
homem logo tira sua blusa e revela um peito cheio de pelos, o que faz o
estomago de Rebecca revirar. Ele tira a calça e ele usa uma cueca apertada e
preta.
Rebecca
ainda estava próxima a porta, no fundo temia adentrar ao quarto, mas sua
curiosidade a obriga a aproximar-se mais, a cueca não era apenas justa e preta,
era uma cueca de couro.
O
homem começa a retirar alguns objetos de sua mala. A garota teme pelo que virá.
–
Pegue. – o homem diz a Rebecca, entregando-lhe um... Chicote?
Ele
se põe de quatro encima da cama e assim fica. Ao ver que nada acontece, ele
olha para trás, onde Rebecca se encontra paralisada.
–
Bate. – ele pede e começa a balançar a mão, demonstrando-a como ele quer que
ela faça.
A
garota está em choque, mas faz como o cliente manda, mas ela não agrada.
–
Mais forte. – ele pede. Ela o faz. – Não, não, mais forte. – ele insiste e
Rebecca o chicoteia com vontade, e ao escutar o grito do cliente, se assusta,
mas ele não a xinga, não reclama, apenas sorri, feliz com o que ela faz. – de
novo. – pede e ela repete.
Aquilo
não era nada do que ela pensava que seria, porém, ela agora entendia o que
Virginia queria dizer. Aquele homem não queria ir para cama com Rebecca, queria
apenas que ela o batesse com o chicote e fizesse outras bizarrices.
O
desespero de Lucas poderia ser sentido de longe, mesmo ele se esforçando ao
máximo para não demonstrar.
O
anúncio já estava publicado, o garoto estava fazendo de tudo para se livrar das
evidências.
–
O que está fazendo? – o pai pergunta. – Porque você não foi ao escritório hoje?
– reclama.
–
Estou vendendo o carro. – é sincero.
–
Como assim? – o pai se choca.
–
Não vejo necessidade ter um carro desses, temos tantos outros. – começa a
mentir.
–
Você me atormentou meses por esse carro! – volta a reclamar.
–
Pois é, eu sei... Talvez eu esteja amadurecendo. – ele tenta amaciar o pai. –
Não ligo mais para carros esportivos, acho que usar o carro da família já está
bom. – dá de ombros.
–
Eu não vejo isso como amadurecimento. – o pai bufa.
–
Pois eu vejo. Vou reaver seu dinheiro.
–
Não completamente.
–
Mas, pai...
–
Olhe, eu não sei o que está acontecendo nessa casa, sua irmã agora é doida e
você está indo para o mesmo caminho. Se isso for tédio, viagem para algum
lugar, vocês ainda tem alguns dias antes da volta as aulas. Aproveitem de uma
maneira mais produtiva. – O pai seguia com seu sermão, mas Lucas já tinha
parado de prestar atenção há um bom tempo. O que o pai lhe falara, lhe dera uma
ideia.
Assim
que se desvencilha do pai, Lucas corre para o quarto da irmã, que já dorme,
mesmo ainda sendo cedo.
–
Acorde. – ele a sacode e a menina solta um grito de susto. O irmão não sabe,
mas ela estava no meio de um pesadelo, ela sonhava com fogo e isso era algo
recorrente desde o acidente. – Eu já tenho uma ideia. – Lucas ignora o susto da
irmã e começa a falar. – Vamos viajar. – diz e Jade, agora mais consciente do
mundo a sua volta, faz uma careta.
–
A gente pode ser preso e você quer viajar? – pergunta.
–
Tudo bem, acho que você não entendeu. – ele reformula. – Vamos fugir.
–
Está doido? E a escola? – Lucas ri.
–
Vamos ser presos, Jade. Sério que você está pensando na escola? – ele pergunta
e a menina se cala por um instante.
–
Eu não sei se isso é uma boa ideia. – ela diz.
–
Claro que é.
–
O que você acha que o papai vai achar disso? – ela o questiona.
–
Ele não precisa saber.
–
Ele vai nos achar, Lucas, você sabe que ele vai. – e ao escuta-la dizer isso, o
entusiasmo do garoto murcha.
–
Podemos pedir a ele para nos mudar de escola, que nos matricule em uma escola
em outro país.
–
Ainda seremos presos.
–
Não, lá seria outra polícia, teríamos que ser extraditados... Seria uma
confusão tão grande... – Lucas nem sabe se o que fala é verdade, mas ele sabe
que estando longe, a captura dele e de sua irmã seria mais complicada.
–
Lucas, pare. – a irmã ordena. – Eu sei que não sou a pessoa ideal para dizer
isso, mas: Se acalme. – Lucas ri em deboche. – Eu sei, eu sei, eu fui a
primeira a me desesperar. Mas eu pensei... Até agora não aconteceu nada, eu
estou procurando por notícias, mas não apareceu nada... Talvez o retrato-falado
não tenha sido eficiente. Talvez ele não tenha nos enxergado direito. – ela diz.
– Deveríamos olhar melhor, saber como está sendo a investigação. Estamos
perdendo a cabeça, e nem mesmo sabemos se é necessário. – ela finaliza e Lucas
pondera.
–
Eu sei exatamente o que vou fazer. – ele diz após pensar.
Lucas
corre para seu quarto e procura em seu celular o contato de um delegado, amigo
da família.
Ele
disca o número.
“Alo”
– o delegado atende.
–
Delegado Martins?
“Sim,
é ele... Lucas, é você?” – o homem pergunta surpreso.
–
Sim, sou eu. – confirma.
“Tudo
bem, garoto?” – pergunta preocupado. Ele já havia feito vários serviços para o
pai de Lucas, mas nunca havia recebido um telefonema do garoto.
–
Sim. – responde. – Eu preciso de um serviço seu. – fala. – Pagarei bem. – deixa
claro.
“Diga
e eu farei.” – confirma e Lucas sorri aliviado. O seu inferno está prestes a se
acabar...
Ou prestes a
começar?
Continua

