Durante as férias
Os
perfumes preferidos de Sara, a fazem mal, os alimentos, mesmo os mais leves, a
fazem mal. Nunca em momento algum, a garota achava que se encontraria nessa
situação.
Percebendo
o incomodo da namorada, Ricardo a questiona.
– Tem certeza que está tudo bem?
–
Sim. – ela insiste. – Acho que comi algo que me fez mal. – assume.
–
Você quer que eu a leve para o hospital? – pergunta.
–
Não. – ela deixa um pouco do desespero transpassar. – Meus pais podem fazer
isso, fora que é só um mal-estar, não é como se eu estivesse doente. – tenta se
tranquilizar, para assim também tranquilizar o namorado.
–
Você que sabe. – ele finalmente da de ombros. – Você quer voltar para casa? –
pergunta. – Se estais tão mal, não creio que seja uma boa ideia irmos comer. –
ele percebe.
Ricardo
tinha chamado Sara para passar o dia com ele, já que a as férias estavam
acabando e ambos mal tinham se visto. Foram ao shopping, Sara aproveitou para
fazer algumas compras e agora Ricardo havia dado a ideia de irem comer.
–
Acho melhor mesmo. – ela concorda. – Você não ficará triste? – ela pergunta.
–
Claro que não, tivemos um bom dia juntos, e não será o último. – ele garante e
Sara sorri. Como que ela iria fazer para contar a verdade a ele?
Os
dois retornam para a casa de Sara e lá ficam conversando por mais um tempo,
Ricardo tenta engatar um envolvimento mais quente, com beijos longos, mas Sara
não consegue, a sua consciência não permite. No fim, Ricardo a deixa e vai para
sua casa.
Ás
seis da tarde, quase na hora de encerrar seu expediente, Eleonora entra no
quarto da patroa, que, por estar com mal-estar, já se encontra deitada. A
empregada se aproxima da cama, mas não o suficiente para encostar, sabe o
quanto a menina é nervosa, não quer que ela brigue.
–
Senhorita Sara. – ela a chama com a voz delicada. Sara abre os olhos e faz uma
careta ao ver a empregada, mas não diz nada, talvez a gravidez já esteja lhe
amolecendo. – Trouxe algo para você. – a emprega abre a mão, revelando um
saquinho com um pó cinza.
–
O que é isso? – Sara se levanta num pulo.
–
É o que eu lhe prometi. – Eleonora responde. – Para... O... – fica indecisa se
deve falar a palavra ‘aborto’ ou não.
–
Ah... Sim... – Sara sorri e pega o saquinho.
–
O gosto é um pouco forte, amargo, mas não deve lhe incomodar muito, coloque num
suco ou vitamina, ou iogurte, uma colher de sopa por dia, durante uma semana.
–
Uma semana? – Sara reclama.
–
Pode ser que funcione antes, mas para garantir... – Eleonora orienta. – Você
não deve sentir nada se seguir as orientações. No fim do processo, refaça o
teste. – a mulher sorri.
–
E quanto lhe devo? – Sara pergunta. Eleonora hesita.
–
Só quero lhe ajudar. – responde por fim. Sara fica desconfiada da bondade,
ninguém faz isso.
–
Amanhã deixarei algo para você na primeira gaveta da minha escrivaninha. – Sara
diz, ela precisa garantir o silêncio da empregada. – Como forma de
agradecimento. – finaliza. Eleonora apenas assente e se vai sem dizer mais
nada.
Enquanto
isso, Rafael vive dias infernais em sua casa. Ele tentou arranjar desculpas
para justificar os pontos na cabeça da irmã, mas nada convencera a mãe, e desde
então, ela não mais fala com ele, percebendo isso, o pai, preocupado, vai falar
com o filho.
– Não entendo muito bem o que está acontecendo com vocês dois, tentei
falar com sua mãe, mas ela disse que era para eu falar com você. – o pai parece
sem jeito, não sabe como falar com o filho, pois nem mesmo sabe por onde
começar.
–
Não é nada, pai. – Rafael tenta desconversar.
–
Filho, eu sei que não sou tão presente, mas ainda sou seu pai, eu amo a nossa
família, vê-la assim... Se destruindo... Eu quero ajudar.
Rafael
hesita, seu pai parece aberto a escutar, mas o quanto ele está aberto a aceitar
o que ele tem a dizer, ainda é uma dúvida.
Falar
sobre sua transexualidade com o pai seria o último passo para a conquista da
sua liberdade, pois após isso, ele aceitando ou não, Rafael começaria sua
transição. Mas isso, ao invés de incentiva-lo, só o deixava mais nervoso. O‘não’
ou o ódio do pai seria demais para ele, que já tanto sofria pela forma fria que
a mãe vinha lhe tratando.
Rafael
desiste.
–
Ela está chateada comigo porque eu quero sair do futebol. – mente. Seu pai
parece ter dificuldade em assimilar o que escutara.
–
Só por isso? – ele estranha.
–
Pois é, eu disse, não é nada. – Rafael torce para ter convencido ele.
–
Confesso que tampouco entendo porque você quer sair do futebol, você sempre
pareceu gostar de jogar.
–
Sim, eu ainda gosto, mas é o último ano, quero me concentrar nos estudos. –
segue mentindo.
–
Ir bem no futebol também lhe ajudará a entrar na faculdade. – o pai pondera.
–
Ajuda caso eu queira ir para área dos esportes, mas prefiro fazer algo que
ajude na empresa. – o pai fica realmente surpreso e começa a rir de felicidade.
–
Eu não sabia que queria seguir com a empresa. – ele o abraça brevemente. –
Sempre temi que no fim você somente levaria o nome e deixaria tudo nas mãos dos
investidores. – diz o pai. – Eu fico tão feliz em saber que você quer liderar.
– ao ver a felicidade do pai, Rafael não pode evitar de imaginar em como seria
seu futuro frente a empresa, já se imagina fechando bons negócios, triplicando
a renda... Mas assim que se vê de terno, como homem, seu sorriso se desmancha. –
Assim que você entrar na faculdade, já lhe colocarei em estágio na empresa,
algo leve, para que não lhe atrapalhe... Mas será ótimo para experiência.
Afinal, assim que você formar, me aposentarei. – anuncia.
–
Mas... Pai...
–
Fique tranquilo, ficarei pelo menos um ano lhe orientando por trás das
cortinas, tampouco sou louco, sei que não se sai pronto da faculdade, mas
acredito em você, meu filho, meu menino, meu homem. – e dá um tapa nas costas
de Rafael, não é um tapa forte, para machucar, mas sim uma forma de ostentar a
masculinidade, o orgulho por ter um filho homem. Homem.
Continua




