O
pronto socorro está movimentado, o bairro de classe baixa é perigoso e isso
reflete nos casos de urgência que surgem a cada instante, ainda assim, o
movimento intenso não parece afetar a Rafael, que, sentado no canto da sala de espera,
já não se importa com os olhares que recebe, afinal, ele tirou a peruca e sua
maquiagem está borrada, sua aparência causa estranhamento. Linda está sentada a
seu lado e se mantem calada, não sabe o que dizer, não sabe como se
desculpar... A mulher transexual resolveu deixar sua mãe em casa, a pobre idosa
estava desesperada demais, leva-la ao pronto socorro só deixaria a Rafael ainda
mais apreensivo.
–
Vocês são os parentes da Anna Barcellos? – o médico pergunta e Rafael salta da
cadeira.
–
Sim, eu sou o irmão dela. – ele diz e o médico o olha de maneira estranha. –
Ela está bem? - Rafael pergunta tentando
voltar à atenção do médico ao assunto que realmente interessava.
–
Ela já está acordada e consciente, não apresentou nenhuma alteração nem na
tomografia nem no Raio-x, ela tem um grande corte na parte de trás da cabeça,
tivemos de dar cinco pontos, mas no mais não parece ter nada de errado. –
Rafael suspira aliviado. – Ainda assim, não vamos libera-la ainda, queremos
mantê-la em observação, só para garantir que está realmente tudo bem. – o medico
completa.
–
Tudo bem. – Rafael concorda enquanto ainda assimila tudo o que acabara de
escutar. – Posso vê-la? – pergunta.
–
Sim, ela está sob o efeito de um remédio para dor, por isso está um pouco
mais letárgica, mas não se preocupe, ela está bem. – o médico avisa e Rafael
assente. – Você também quer entrar? – o médico pergunta a Linda, que a todo o
momento esteve ao lado de Rafael, mesmo sem se manifestar.
–
Acho melhor ele ir sozinho. – Linda responde, querendo respeitar o espaço do amigo,
que até o momento se apresentou arredio a sua presença.
–
Eu quero que você vá. – ele diz de maneira bruta, sem olhar para a amiga.
Ambos
entram no quarto em que a menina está internada, ela divide o mesmo ambiente
com outras três pacientes, uma, que parece jovem, da idade de Rafael, está bem
machucada e ele é obrigado a virar o rosto para não ver a profundidade dos
ferimentos. Já a outra mulher é bem mais velha, recebe soro na veia e faz uma
careta ao ver as amigas entrarem no quarto.
–
Ei pequenina. – a menina sorri ao vê-lo. – Você está bem? – ele pergunta
carinhosamente. Confusa a menina o olha, ela nunca tinha visto o irmão daquela
maneira. – Sou eu. – ele toca em sua mãozinha. – Seu irmão. – a menina volta a
sorrir, parece reconhecê-lo agora. Linda se mantem dois passos atrás, observa a
menina de longe, e agradece a Deus por ver que a ela está sã e salva. – E
agora, o que eu faço? – Rafael se dirige a amiga. – Como que eu vou esconder
isso? – ele diz pegando a cabeça da irmã e mostrando onde ficaram os pontos. –
O cabelo dela já é ralo, ainda rasparam essa parte, como que eu escondo isso? –
Rafael começa a se alterar.
–
Não sei. – Linda se mantem calma. – Mas podemos pensar. – ela começa a tentar
encontrar ideias em sua mente, instantaneamente.
–
Eu nunca deveria tê-la deixado com sua mãe. – ele lamenta. – Ela é velha, é
claro que ela iria dormir com um livro na mão.
–
Foi um acidente. – Linda parte em defesa da mãe.
–
Isso não teria acontecido se eu tivesse ficado em casa, quieto, apenas
brincando com ela. – Rafael responde alterado.
–
Então a culpa é minha? – Linda pergunta, se segurando para não se descontrolar.
–
Você que insistiu. – Rafael responde seco.
–
Claro. – Linda morde os lábios. – Talvez você devesse falar a verdade, começar
com isso seria uma boa, evitaria que coisas assim acontecessem. – ela diz e
Rafael fica vermelho de raiva.
–
A primeira coisa que você me disse quando me conheceu é que todos nós temos
nosso tempo, que eu não deveria me cobrar e muito menos apressar-me. Você teve
seu tempo, você teve seu apoio, eu não tive isso, eu não estou tendo isso! –
ele já se alterou completamente.
–
Eu tive meu tempo? Eu fui obrigada a me assumir, fui obrigada por eu precisava
que alguém me apoiasse, porque eu estava sofrendo, pessoas riam de mim, e
falavam de mim, eu apanhava... Porque você acha que eu vivo nesse fim de mundo?
Sabe essa velha que você tanto culpa? Ela lutou contra tudo e todos para me
defender, sim, eu tive o suporte dela, mas ela foi abandonada pelo marido, virou
inimiga da família, perdeu a maior parte dos amigos dela, passou fome só para
que fosse quem eu sou. Eu já apanhei demais nessa vida, Rafael, e eu só queria
te ajudar. Você pensa que está sofrendo? Você acha que eu tenho a vida
perfeita? Que tudo foi perfeito para mim? Não existe vida perfeita para pessoas
como nós. – Linda não consegue segurar.
–
Por favor. – uma enfermeira os interrompe. – Aqui não é lugar para discussões.
– ela diz séria.
–
Eu já estava indo. – Linda responde antes que Rafael tenha a oportunidade de
falar algo. – Eu realmente espero que seja melhor para você do que foi para
mim, Rafael. – ela diz agora mais calma. – Melhoras para sua irmã. – deseja e
parte junto à enfermeira.
A
menina recebe alta ainda durante a manhã do dia anterior. Rafael a leva para
casa e passa o dia tentando encontrar os melhores penteados para esconder a
linha dos pontos na cabeça da irmã. A pequena reclama algumas vezes e isso o
faz se desesperar, ele teria apenas um dia para inventar uma desculpa cabível.
Depois
de muito tentar, Rafael consegue amarrar o cabelo da irmã em um coque torto,
mas que deixa um tufo denso de cabelo bem encima dos pontos, que acabam sendo
escondidos. Ele sabia que esse penteado não duraria para sempre, mas tinha
esperança que isso o desse mais tempo para pensar numa justificativa válida.
Aquele
seria o domingo mais apreensivo da vida de Rafael, após receber a ligação que
os pais já estavam retornando para casa, ele deixou que a apreensão tomasse
conta de si.
Tomou
repetidos banhos, para ter certeza que não havia mais nenhum vestígio de maquiagem
ou brilho em sua pele, certificou-se de que as vestes e a peruca que Linda o
colocara estavam bem escondidas, e fez e refez o coque na cabeça da irmã, até
que a mesma já se irritasse e corresse do irmão, sempre que o via com a escova
na mão.
Quando
os pais de Rafael chegaram, já era tarde da noite, ambos estavam cansados da
viagem. O pai pouco falou, apenas cumprimentou os filhos, perguntou ao garoto
se tudo estava bem e foi tomar um banho para se deitar, já a mãe, após fazer as
mesmas perguntas que o pai fizera, andou pela casa a procura de alguma bagunça,
talvez ela suspeitasse que o filho tivesse feito alguma festa na ausência dela,
no fundo ele acredita que ela teria gostado, caso isso tivesse acontecido, mas
como, obviamente, não encontrou nada, pediu ao menino que pedisse uma pizza,
caso este estivesse com fome e foi dar atenção a filha menor, que já estava
sonolenta a essa altura.
Rafael
dormira aliviado durante aquela noite, mas ao acordar deu de cara com a mãe bem
ao lado de sua cama.
No
susto o garoto deu um pulo, revelando seus trajes de dormir, que consistiam em
uma cueca samba-canção azul, e uma meia, branca, nos pés.
Séria,
sem nenhum sorriso em seu rosto e com os braços cruzados, a mãe perguntou:
–
Você pode me dizer o que é aquilo na cabeça da sua irmã?
Continua
Olá a todos, mais um capítulo postado, espero que gostem.



