terça-feira, 16 de maio de 2017

6. O Segredo de Lucas (Parte 1)



Durante as férias

                O tempo passava vagarosamente na casa de praia da família de Lucas. Toda a animação e curtição do inicio do verão tinha acabado e a medida que a volta as aulas se aproximava, menos ele tinha o que fazer naquele fim de mundo.
                – Você está assim por causa da garota, não está? – Jade, sua meia irmã, senta-se ao seu lado no sofá e pergunta.
                – Não sei do que você está falando. – ele responde sem muita delicadeza.
                – Então este desânimo é graças ao seu negócio, por estar longe dele... – a menina sugere.
                – O que você acha que esta fazendo? – ele se levanta e olha furioso para a irmã.
                – Tente enganar a nosso pai, não a mim. – ela não parece se sentir intimidada.
                – Você pode até ter se metido na minha família, mas isso não te dá autorização para se meter na minha vida. – ele grita.
                – Eu não me meti na sua família, sou tão filha do senhor nosso pai, quanto você.
                – Você não passa de um erro que ele cometeu num verão qualquer e teve que assumir para não prejudicar a própria carreira. – diz rápido e bruto, como se tentasse que cada palavra fosse um soco na irmã.
                – Posso ser fruto de um adultério, mas você é fruto de uma mentira. E é isso que você é, Lucas. – se levanta, ficando quase a altura do garoto. – Você é uma mentira.
                – Eu vou acabar com você.
                – Tente, seu traficante de merda. – ela o desafia. – Lembre-se sempre, se você tentar me derrubar, você vai cair junto. – ameaça.
                Lucas perde a fala, não pode negar a força que a irmã mais nova possui.
                – Eu vou embora desse lugar. – ele fala sem paciência.
                – Eu vou junto. – a menina diz.
                – Ei, eu estou saindo daqui para me livrar de você. – Lucas reclama. – Você não desconfia não é?
                – Eu também quero ir embora.
                – Então arranje outro alguém para te levar. – dá de ombros e parte para seu quarto.
                – Mas você está indo para o mesmo lugar que eu. – a garota vai atrás.
                – Eu não vou levar você. Eu não quero ficar perto de você.
                – Vai sim. – Lucas acelera o passo para entrar em seu quarto.
                – Você não manda em mim, eu mando em você. – diz.
                – Você pode até querer mandar em mim, mas caso não se lembre, eu tenho algo contra você. – Lucas dá meia volta.
                – Você vai para o inferno, sabia? – a garota ri.
                – Se você me levar para casa antes. – dá de ombros.
                Enquanto Jade vai para o seu quarto, Lucas entra no seu. Ele bate a porta, nervoso, esta havia sido a pior férias de sua vida, e grande parte desse desastre se dá graças a sua meia irmã, Jade, fruto de uma traição de seu pai. Lucas nunca perdoou o pai, principalmente quando o mesmo decidiu que reconheceria e criaria a garota. Sua mãe aceitou,  não porque tem bom coração, mas porque não tinha outra opção.

                Lucas coloca as suas roupas na mala rapidamente e assim que termina de apronta-la, volta a sala. Quando vê que a irmã não desceu, pensa em ir embora sem ela, mas teme que suas ameaças se concretizem, o garoto estava faturando bem nesse seu negócio, ele não podia arriscar ser preso ou perder sua nova fonte de renda.
                A demora da irmã incomoda a Lucas que, enquanto a espera, toma um copo de Uísque.
                Seria uma viajem de quatro horas de carro, já havia se passado a primeira hora e nenhum dos dois falavam nada. Lucas se concentrava em dirigir seu conversível e Jade escutava música em seu Iphone.
                Após a segunda hora de viagem, Lucas resolveu fazer uma parada numa lanchonete que avistou na rodovia. O lugar não era o tipo de estabelecimento que os irmãos costumavam frequentar. Ambos estão acostumados a lugares luxuosos, com cardápio exclusivo e clientes quase que seletos. Ali, havia todo tipo de pessoa, o cardápio era diversificado, porém a maioria das opções é gordurosa, mas, pelo baixo preço cobrado, nem Lucas nem Jade podia reclamar.
                Após saírem de lá, o céu já está totalmente escuro. Lucas resolve acelerar mais, pois quer chegar ainda hoje em sua casa.
                – Porque você faz isso? – Jade havia se cansado de escutar música e resolveu irritar o irmão.
                – Fazer o quê? – ele pergunta, por incrível que pareça, paciente.
                – Vender drogas. – ela diz e ele fica em silêncio. – Você sabe que isso é arriscado, não sabe? – ela insiste.
                – Você é feliz em ser uma marionete do papai? – ele pergunta e desvia seu olhar, brevemente, para olhar a irmã. Ela hesita em responder.
                – Ele só quer o nosso melhor.
                – Tem certeza disso? Ou você só está replicando o que ele sempre diz? – questiona.
                – Ele é bom. – ela fala. – Ele tem uma maneira ruim de demonstrar, mas ele é bom.
                – Eu não estou falando que nosso pai é ruim, mas ele é um ditador, se eu conseguir me sustentar sozinho, não precisarei me curvar mais a ele. – Lucas diz.
                – Você já vai herdar a empresa, quando ele se aposentar, todo o império dele será seu. – a irmã fala.
                – Nosso pai nunca vai se aposentar. – o menino diz nervoso. – Ele fala isso para nos iludir, mas ele não vai deixar nada em nossas mãos.
                – Ele não vai deixar nada em minha mão, na sua talvez. – ela diz.
                – Porque você acha isso? Você é a princesinha dele. – Lucas desdenha.
                – Eu sou a garota que ele teve que “assumir” para não sujar a imagem da empresa. Ele é meu pai biológico, mas eu serei obrigada a passar a vida falando que ele é meu pai adotivo, que eu sou fruto do seu grande coração e não de uma traição dele. – a menina começa a se alterar. Lucas não diz nada, nunca viu a irmã falar daquela maneira.
                – Você se importa com isso? – ele pergunta com a voz terna.
                – Não finja que se importa. Você, assim como sua mãe, nunca me aceitaram. Nem mesmo nosso pai me aceita, eu sempre serei o fardo da família, nunca serei parte dela. – sua voz vai enfraquecendo no fim.  
                – Eu não te odeio. Sabe? – ele se arrepende de ter tratado a irmã de maneira tão bruta durante as férias. – Você só é meio chata... – ele brinca e ela ri.
                – Você também é bem chato. – a garota se defende. – Acho que tá no sangue, pois nosso pai também é. – Lucas gargalha e no fim, suspira.
                – Eu sei que é perigoso. –assume. – Mas eu sou cuidadoso. – garante.
                Nesse momento, o celular de Lucas, que estava na parte de cima do painel do carro escorrega e cai no chão, bem no seu pé, e ele, no impulso, olha para baixo e tira a mão do volante, para tentar pegar.
                – Lucas, não! – Jade grita, mas já é tarde demais.
                Lucas atropelou algo, ou alguém.

Continua



Peço perdão pela demora em postar, comecei a trabalhar na semana passada e isso tirou o tempo que eu tinha para escrever, devo começar a postar menos durante a semana, mas prometo continuar postando.
Postarei a parte dois desse capítulo agorinha mesmo.
Espero que gostem.
Comentem.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Na velocidade do verão


Olá gente, esta postagem não entrou no cronograma do blogger, pois resolvi participar do desafio hoje, então tive que escrever meio que as pressas, já que o prazo para entregar o desafio, também termina hoje, concluindo, eu não tive tempo para avisa-los.
Para explicar melhor, estou participando do desafio do mês de maio da página do Facebook: Ficwriter Facts. O tema é Verão.
O capítulo ficou grande, mas espero que vocês possam ler, pretendo continuar essa história nos próximos desafios, então se você gostou, não se desespere, ela terá continuação.

......



                O calor do sol forte bate em minha pele assim que abro a cortina da janela de meu quarto. Olho para a paisagem, e o céu está num azul puro, nenhuma nuvem a vista. As árvores e flores parecem gostar disso, nem mesmo na estação das flores elas estiveram tão verdes e vivas.
                Um pouco mais além, avisto a praia e todo seu resplendor, não há quase ninguém por lá e isso me agrada.
                Tomo um rápido banho, apenas para espantar o calor e o suor que já se acumulava em meu corpo, mesmo eu estando parada. A água fria me ajuda a equilibrar a temperatura corporal.
                Não me preocupo em caprichar na secagem, nem mesmo mexo em meu cabelo. Apenas visto meu biquíni e minha saída de praia, procuro minha bolsa (com protetor solar, carteira, óculos de sol e chapéu), e ela ainda estava completa. Coloco meu celular e uma garrafa d’água. Nada mais me segurava dentro desta casa.
                Saio da casa, atravesso a rua e já me encontro pisando na areia branca.
                Por estar praticamente vazia, posso escolher o lugar que quero me acomodar. Jogo minha canga na areia, sento-me e começo a passar o protetor solar.
                Coloco os óculos e deito-me, sinto o sol em minha pele e a brisa do mar faz com que meu cabelo não fique quieto.
O verão ainda está em seu auge, e eu não sinto nenhuma falta das estações anteriores. Um mês inteiro de férias, num paraíso tropical é tudo o que um ser humano necessita para ser feliz.
                – Gostei de você. – assusto-me ao ouvir a voz de homem ao meu lado. Tiro os óculos, sento-me e olho para o lado.
                Um homem grande, negro, de tatuagens tribais no braço esquerdo, que se estendem do ombro até seu pulso. Ele sorri gentil para mim.
                – Oi? – pergunto confusa.
                – Achei você legal. – ele diz.
                – Eu te conheço? – não quero ser grossa, mas achei sua aproximação estranha.
                – Ontem, no Karaokê. – ele me diz. – Você cantou Demi Lovato. – ele relembra e eu coro instantaneamente. Ele percebe. – É. – diz rindo. – Você canta bem mal.
                – Se você está tentando me conquistar, não sei se começou bem... – digo. Ok, não sou uma boa cantora, mas cantei no Karaokê num momento de descontração, ele não pode me julgar.
                – Sempre achei que falar a verdade era uma ótima maneira de começar uma aproximação, gera confiança. – ele sorri largo.
                – Delicadeza é melhor. – digo.
                – Se te serve de consolo, também não canto bem. Você não se lembra? – ele pergunta e eu começo a puxar na memoria a noite anterior.
                – Cantei aquela música da banda Dnce, “Cake by the ocean”. – ele diz.
                – Oh. – digo num tom que mistura surpresa, desapontamento e pena. – Você? – pergunto.
                Lembro-me de alguém estragando essa música no palco e agora percebo o porquê. Este homem grande e bruto tem uma voz grossa e ontem ele tentara cantar da mesma maneira e tom do Joe Jonas, não tinha como isso dar certo.
                – Pois é. – ele ri. – Viu? Já temos algo em comum. Ambos somos péssimos cantores. – eu acabo rindo da maneira em que ele fala.
                – Então você me reconheceu e decidiu vir falar comigo? – pergunto.
                – Não conheço ninguém por aqui. – dá de ombros. – Tentar fazer amizade não me parece algo errado. – faz uma breve pausa. – E como eu já te conheci no seu pior, tu tens um passo à frente em relação a todos aqui. – eu acabo rindo novamente.
                – Você é sempre assim? – pergunto.
                – Assim como? – ele pergunta.
                – Humorado. – digo, sem saber se é a palavra correta.
                – É verão. Estou de férias. O verão passa rápido. Não há porque ficar desanimado.
                – Então agora sou sua amiga? – pergunto, quando percebo que ele se calou.
                – Existe o famoso ‘amor de verão’, não é? – apenas assinto com a cabeça. – Podemos ter uma ‘amizade de verão’. O que achas? – sugere.
                Eu não o conheço. Sei que não deveria ter deixado o assunto render. Mas aqui estou eu, pensando em ficar amiga daquele homem.
                – Meu nome é Roberto. – se apresenta por fim. Ele apresenta a mão, para cumprimentar-me.
                – Sou Marcela. – digo, cumprimentando-o.
                No apertar de nossas mãos, evidenciam-se nossas diferenças físicas.
                Ele é todo grande e isso inclui sua mão. Sua pele é negra e meus dedos largos. Já eu sou magra, tenho uma estatura normal, mas, mesmo ele estando sentado ao meu lado, sei que se levantarmos e ficarmos lado a lado; eu ficarei baixinha. Minha pele é branca, mesmo já frequentando assiduamente a praia nos últimos quatro dias, eu ainda estou pálida. Eu sou incapaz de ficar bronzeada, apenas fico vermelha como uma pimenta.
               
                No inicio o clima fica estranho, mas Roberto consegue criar assuntos e manter a conversa viva.
                Ele fala sobre sua infância, sua cidade, que por coincidência, é a mesma que a minha. Fala sobre sua grande e barulhenta família e sobre como ele ganhou uma passagem de graça para vir passar suas férias aqui.
                Eu tento não revelar muito, pois, apesar de já sentir confiança em relação a aquele homem, quero manter a minha chata vida cotidiana, longe dos meus pensamentos.
                – Sabe, tem um bar aqui perto que já deve estar abrindo, é muito legal lá, tem comida boa, muita bebida...  – eu hesito. – Eu não quero raptar você, se é isso que está pensando. – diz.
                – Não acho que um sequestrador diria algo diferente. – digo e dou uma risada logo após, para que ele não fique chateado comigo.
                – Tudo bem. Eu entendo. Você não me conhece bem ainda... Vamos fazer assim, eu te passo o endereço, eu devo ir para lá daqui uma meia hora, você usa o dia para decidir se quer me encontrar lá ou não. – sugere.
                – Acho que... Pode ser. – não dou muita certeza, mas estou aberta a considerar a sugestão do homem.
                – Não tenho caneta aqui e não irei lhe pedir para escrever em seu celular, pois percebi que és desconfiada. Então tente lembrar o endereço, pode ser? – eu balanço a cabeça afirmativamente. – Rua das Margaridas... – ele começa a dizer.
                – Ah, é a rua logo atrás da casa que aluguei. – digo e ele ri.
                – Para quem está com medo de ser raptada, você não se protege bem. – repara e eu coro.
                Como sou idiota.
                – Como eu ia dizendo, Rua das Margaridas, número 27. O nome é Clube da praia Laranja. Vai ser bem fácil de achar. É um bar laranja. – diz e sorri.
                – Guardado na memoria. – digo e ele concorda.
                – Bom, acho que é era de eu partir. Espero que confie em mim. – diz se levantando e comprovando minha tese sobre sua altura, ele é gigante.
                Fico mais um tempo na praia, quero relaxar, mas confesso que não tiro Roberto da cabeça. Não estou apaixonada, nem nada, mas não posso mentir, ele me gerou uma curiosidade.
                Ele parece ser gentil e é engraçado. Sua aproximação não foi a ideal, e eu temo que suas intensões não sejam as melhores, mas... Mas eu queria entrar na sua onda e aceitar sua proposta de ‘amizade de verão’.
                Junto minhas coisas e volto para casa.
                Lá penso mais um pouco. Entro na internet e pesquiso sobre o tal Clube e o lugar, pelas fotos e comentários, parece ser bem legal e movimentado. Se ele estivesse tentando sequestrar-me, provavelmente escolheria um lugar mais vazio, como a praia em que estávamos...
                Decido tomar mais um banho, pois já estou suada novamente. Desta vez, ao sair do banheiro, penteio meu cabelo e me seco com cuidado. Primeiro que minha pele arde, graças ao sol, e segundo porque quero ficar totalmente seca para vestir-me melhor.
                Não sei o que usar, mas como estou numa região praiana, coloco um vestido branco, com detalhes de bordado. É de um tecido leve. Prendo meu cabelo num coque alto e coloco um colar de corrente fina, que tem um pingente delicado de coração no final.
                Não uso maquiagem, eu apenas passo um batom rosinha claro.
               
                Quando chego ao local, o céu já está mais escuro e o clima mais fresco. O lugar está cheio e temo não conseguir encontrar Roberto na multidão.
                Ando pelos corredores que se formam entre as mesas cheias de turistas e logo reparo numa montanha negra sentado no bar. Aproximo-me e paro ao seu lado, quero garantir que não cumprimentarei a pessoa errada.
                Roberto abre um largo sorriso quando me vê.
                – Você confiou. – parece um pouco surpreso.
                – Sim. – confirmo.
                – Ótimo.  – puxa uma cadeira para que eu me sente ao seu lado. – Sente-se, vamos beber algo. – diz já chamando o garçom para nos atender.
                Bebendo, acabo me sentindo mais leve e permito-me revelar mais sobre mim, enquanto converso com Roberto. Ele também se mostra ainda mais alegre bêbado.
                Saímos do bar quando já é noite, levo-o para uma boate que conheci no meu primeiro dia nessa cidade praiana. Ele, no inicio não parece muito à vontade no local, mas insisto e ele cede.
                Dançamos e bebemos mais um pouco.
                Sei que saímos dessa boate e fomos para outra, que não fica muito longe, nesta também dançamos e bebemos mais.
                Quando saímos desta segunda boate, a noite está no seu auge. As ruas estão cheias e no meio do caminho encontramos um pequeno bloco de carnaval. Estamos cansados, mas entramos na folia. Dançar mais um pouco não faz mal.

                Não sei se realmente aconteceu, ou se sonhei, mas Roberto me beija e eu retribuo.

                Acordo. Demoro um pouco para perceber onde estou e sinto um alivio enorme ao constatar que estou no quarto da casa que aluguei para passar as férias. Não preciso me virar para ver que não estou sozinha, minha cabeça doe e não me lembro de boa parte da noite anterior. Quando me viro, encontro um homem a meu lado. É Roberto, lembro-me dele e me assusto ao perceber que me deixei ir tão longe com ele. Não sou do tipo que dorme no primeiro encontro, e isso só evidencia o quão louca eu fiquei na noite anterior.
                Tento chacoalhar o homem, mas ele é grande e não sai do lugar, porém ele acorda e olha para mim. Roberto sorri grande ao perceber que também estou desperta.
                – Bom dia, flor do dia. – ele diz carinhoso, levantando sua mão esquerda e mostrando-me um anel em sua mão esquerda, em seu dedo anelar. Levo um susto.
                Meu Deus, eu dormi com um homem casado!
                Mas assim que olho minha mão, a mesma que usei para chacoalhá-lo, percebo:
                Eu sou a esposa.

                

5. O Segredo de Rebecca (Parte 3)



                – Não sei do que você está falando. – Rebecca tenta disfarçar.
                – Não sabe? – Lucas se ajeita. Sentando-se mais elegantemente no sofá e olhando diretamente para Rebecca. – Você e seu pai estão falidos, totalmente falidos, pobres, muito pobres, pobríssimos...
                – Cale a boca. – Rebecca grita, interrompendo-o. – Saia de minha casa. – ela se levanta.
                – Você não deveria tratar assim a pessoa que está disposta a te ajudar. – ele fala. Rebecca pensa por alguns segundo.
                – Como você sabe que meu pai faliu? – ela pergunta e Lucas ri.
                – Assim que eu gosto. Mansinha. – continua sorrindo. – Sente-se. –ele diz e Rebecca bufa.
                Não pode ser que quase me apaixonei por isso.
                Rebecca se senta e espera que ele comece a falar.
                – Eu estou ajudando meu pai na empresa dele. – Lucas começa. – Afinal de contas, herdarei o império dele. – diz orgulhoso e Rebecca revira os olhos.
                – Vá direto ao ponto. – Rebecca pede.
                – Para um pobre você exige muito. – Lucas responde. – E você nem mesmo me ofereceu uma bebida. – volta ao assunto.
                – Eu não vou lhe oferecer nada. – Rebecca se mantem firme.
                – Que seja. – Lucas decide dar de ombros. – Seu pai apareceu na minha futura empresa hoje, ele tinha uma reunião com meu pai e eu pude participar. Seu pai foi pedir ajuda, queria que meu pai o emprestasse dinheiro, para que ele pudesse se reerguer.
                – E seu pai o fez? – Rebecca pergunta ansiosa.
                – As fábricas de seu pai estão completamente paradas, não há um funcionário que não esteja há, pelo menos, quatro meses sem receber o salário, ele tem quatro processos trabalhistas correndo em segredo de justiça, e que provavelmente vai perder... Emprestar dinheiro para seu pai se reerguer seria jogar dinheiro fora. – Lucas diz e Rebecca fica sem ação. – Não me leve a mal, Rebecca, mas seu pai permitiu-se chegar nesse ponto, não cabe ao meu, reergue-lo.
                – O que você quer então? – Rebecca pergunta sem conseguir olhar nos olhos do garoto a sua frente.
                – Eu venho cuidando de um negócio, próprio meu, para conseguir um dinheiro extra. Tenho ganhado bem, e creio que posso lhe contratar com um salário bem alto, maior que a media.
                – E porque você faria isso? – ela pergunta desconfiada.
                – Porque eu preciso de ajuda, e você precisa ser ajudada. Simples.
                – E o que seria? O que eu devo fazer?
                – Entregas. – responde simples.
                – Entregas? – ela quer saber mais.
                – É tudo o que você precisa saber.
                – Eu preciso saber o quê estou entregando.
                – Você precisa de dinheiro, Rebecca, é disso que você precisa. – Lucas contrapõe e garota percebe que se aceitar, estará entrando numa encrenca. – E eu posso lhe dar isso ainda hoje, basta você parar de fazer perguntas e aceitar minha proposta. – Rebecca hesita. O que seria pior? Ficar pobre ou sabidamente entrar em uma encrenca?
                Rebecca olha para o relógio pendurado na parede que fica atrás de onde Lucas está sentado. Agora já se passa das cinco e meia da tarde, ela ainda pode voltar à loja e salvar seu nome, mas para isso ela teria que ser rápida.
                – Já decidiu? – Lucas a pressiona.  
                – Você pode me adiantar um valor ainda hoje? – ela pergunta e ele sorri.
                – Claro. – ele responde.
                – Agora? – ela se especifica e Lucas gargalha e suspira satisfeito.
                – Você pode começar ainda hoje? – ele pergunta.
                – O dinheiro primeiro. – ela insiste.
...
                Os dois já haviam ido à loja, para pagar a divida de Rebecca e já haviam voltado ao apartamento da menina, agora a ela se aprontava para seu primeiro dia de trabalho. Lucas não deu muito detalhes, mas disse que ela deveria se vestir como se fosse a uma festa.
                Rebecca se veste e se maquia da melhor maneira possível, mesmo tendo salvado seu nome, ela ainda está preocupada com seu pai, que ainda não deu sinal de vida.
...
                – Sorria, Rebecca. – Lucas ordena, assim que os dois chegam a um prédio pequeno e escuro, que fica escondido e passa despercebido na avenida movimentada e iluminada.
                – Tem certeza que é aqui? – Rebecca pergunta.
                – Claro que sim. – diz, abrindo a porta, sem usar nenhuma chave. Os dois passam por um corredor escuro. Eles percorrem o corredor e Rebecca vê que no fim, há uma cortina de panos leves, que esvoaçavam e revelavam uma música alta e animada e um jogo de luz intenso.
                – O que tenho que fazer agora? – ela pergunta, começando a se sentir nervosa com a falta de informação.
                – Coloque isso. – ele pede, aparecendo do nada com uma mascara veneziana, da cor preta, com brilhos na borda e algumas plumas no topo. Era exagerado para o gosto de Rebecca, mas ela não podia negar que era uma mascara bonita.
                – Por quê? – ela questiona.
                – Você já deve saber o porquê. – ele diz e Rebecca assente.
                Rebecca coloca a mascara na face e Lucas resolve ajuda-la a amarra-la atrás da cabeça da garota.
                Após ajustar a mascara ao rosto, Rebecca suspira se preparando para o que enfrentará, após adentrar ao local.
                É um grande salão, parece ser um lugar bonito, mas as luzes dançantes não permite que a garota capte os detalhes. Há muita gente, principalmente homens, são homens maduros, velhos, a maioria parece ter saído de seu trabalho e vindo direto para cá, pois vestem ternos e trajes sociais. Há um bar extenso, onde garçons correm para atenderem a todos os clientes, há um palco onde há um poste de fazer pole dance, não há ninguém lá agora.
                Mulheres, em trajes curtos e justos se jogam nos braços dos homens, os acariciam. A menina logo percebe que as mulheres também usam mascaras venezianas, cada um tem um estilo, algumas coloridas e bem extravagantes, outras mais simples, mas sempre de mascara.
                – Você não quer que eu... – Rebecca grita, mas Lucas a interrompe.
                – Não, Rebecca, você fará entregas, apenas isso. Eu ficarei no bar e você chegará aos clientes que eu indicar, e entregará as encomendas da maneira mais discreta possível.
                – E quando você diz: discreta...
                – Sim, você vai agir como essas meninas, mas não será uma delas. – Lucas garante. – A não ser que queira, mas isso não será comigo.
                Rebecca suspira.
                – Eu já lhe paguei. – ele relembra.
                – Eu sei. – ela cerra os dentes. – Eu sou uma traficante agora. – ela bufa. – Não é? – pergunta.
                – Sim. – ele não nega. – E é melhor você começar a fazer seu trabalho rápido. Pois do mesmo jeito que eu lhe contratei, posso lhe despedir. – ele diz e Rebecca estremece pelo tom de sua voz.
                – Isso é temporário. – ela diz e Lucas ri.
                – Eu não me importo. – ele dá de ombros. – Só faça seu trabalho.
                – Ninguém pode saber disso. – ela fala.
                – Eu te mato se você falar isso para alguém. – Lucas ameaça.

Continua




Gente, a última parte do capítulo “O Segredo de Rebecca” foi postado. Espero que gostem. 

domingo, 7 de maio de 2017

4. O Segredo de Rebecca (Parte 2)



                Falidos.
                Rebecca não podia acreditar no que o pai dizia, ele deveria estar muito bêbado... Ela sabe que não deveria desejar algo assim, mas ela queria que seu pai estivesse muito, mas muito bêbado mesmo, e que tudo que ele dizia eram delírios de sua mente.
                Para que não fiquem dúvidas, Rebecca não perde tempo e corre para pegar seu Ipad, lá ela entra no aplicativo de seu banco e, ao ver o seu saldo, ela se vê obrigada a sentar-se a cadeira, para que não caia direto ao chão. Trinta dólares e mais nenhum centavo.
                Não concordando com aquilo, Rebecca decide entrar na conta do pai, ela sabe a senha dele, então nem mesmo precisa sair do lugar. Rebecca se choca ao ver que o estado da conta do pai está pior do que a dela, US$ 12,30.
                As mãos de Rebecca tremem e seus olhos embaçam, ela começa a chorar compulsivamente. Mesmo vendo os números, a garota não consegue crer que isso realmente está acontecendo. Seu pai deve ter alguma outra conta, uma conta escondida, e nesta conta deve haver muito dinheiro, dinheiro suficiente para salva-los.
                Rebecca volta à sala, mas não encontra o pai.
                Desesperada ela percorre todo o apartamento, e a cada cômodo vazio, mas cheio de tristeza, ódio e desespero, seu coração fica. Não há nenhum funcionário, não há mais ninguém ali. Ela está totalmente sozinha.
                Finalmente “aceitando” sua nova condição. Rebecca se recolhe em seu quarto, e chora por horas. Ela pensa em tudo o que fez para contribuir para a falência de seu pai e também pensa na humilhação que será quando todos seus amigos descobrirem.
                O celular de Rebecca toca. É Sara. A melhor amiga de Rebecca desde sua infância.
                Rebecca atende. E Sara logo dispara a falar, pois está ansiosa pelo dia de amanhã, quando seu namorado finalmente voltará de sua viagem voluntária.  Sara está tão animada, que a principio não percebe o desanimo de sua amiga, mas após longos minutos falando praticamente sozinha, a amiga resolve perguntar.
                – Becca, você está bem?
                – Estou. – Rebecca confirma, mas não convence à amiga.
                – Tem certeza? Não está doente nem nada? – insiste.
                – Não. – Rebecca diz, mas percebe que não vai chegar a lugar nenhum assim, Sara a conhece bem demais. – Estou com um pouco de dor de cabeça, só isso... – isso não era necessariamente uma mentira. Todo o choro e desespero tinha lhe dado uma enxaqueca.
                – Você quer que eu vá aí? – sugere Sara, preocupada com a amiga.
                – Não precisa. Eu já tomei um remédio, devo ficar bem em breve. – responde.
                A campainha bate. Rebecca ignora. Alguém irá atender, mas depois logo se lembra, não há mais ninguém, não há mais funcionários, não há mais mordomias.
                – S. Eu preciso atender a porta, tem alguém chamando. – diz, dando claros sinais de que quer encerrar a ligação.
                – Você? Atender a porta? – a amiga pergunta com voz de humor. – Deixe que algum funcionário atenda. – diz. – Vamos conversar sobre você, só eu falei a ligação inteira. – O coração de Rebecca dá um pulo ao perceber a garfe que acabara de cometer.
                – Meu pai resolveu dispensar todos os funcionários mais cedo hoje. – Rebecca mente. – Então sobrei para lidar com isso.
                – Mas que horror. Porque seu pai fez uma loucura dessas? – Sara pergunta.
                – Não sei. – a campainha toca novamente. – S. Eu realmente queria continuar a ligação, mas preciso mesmo desligar. – diz, enquanto se levanta da cama, para ir atender a porta.
                – Tudo bem. – Sara diz um pouco cabisbaixa. – melhoras, amiga. – deseja.
                – Obrigada. Até mais.
                Quando as duas se despedem, Rebecca já está na sala, a poucos passos da porta de entrada.
                Rebecca abre a porta e dá de cara com a última pessoa que queria ver na vida.               Lucas.
                – O que você está fazendo aqui? – ela pergunta já nervosa.
                – Você deveria ser mais gentil comigo. – diz o garoto, que sorri largo.
                – Se você já se arrependeu do nosso termino, saiba que eu ainda não...
                – Deixe de ser metida. – Lucas a interrompe. – Aquilo não foi nada para mim. – ri.
                Rebecca e Lucas tiveram um brevíssimo relacionamento nas últimas duas semanas. Desde o inicio foi combinado que seria apenas um lance, nada sério e que não era algo que deveria ser espalhado para ninguém. Rebecca havia contado apenas a Sara, que claramente a julgou muito, mas foi obrigada a aceitar, já Lucas se manteve calado e não contou nada a ninguém. O problema é que Lucas resolveu que o caso dos dois deveria acabar, pois ele já estava de olho em outra garota, porém isso aconteceu logo quando Rebecca começou a sentir algo especial pelo garoto rebelde. Não querendo dar o braço a torcer, a menina resolveu aceitar o termino sem insistir, mas isso não significa que ela não sofreu com isso.
                – Vai deixar-me entrar ou não? – ele pergunta.                Como resposta ela apenas permite que ele passe e adentre a seu apartamento.
                Lucas entra como se morasse por lá. Senta-se espalhado pelo sofá e coloca o pé encima da mesa de centro.
                – Você não vai me oferecer algo para beber? – pergunta assim que vê Rebecca se sentar no sofá a sua frente.
                – Eu não estou no clima para sua má educação, Lucas, diga o que quer logo. – Rebecca começa a se estressar.
                – Eu sei que você não está no clima. – ele diz obvio. – Quem ficaria no clima para qualquer coisa quando se é pobre? – ri.

Continua



               
Para que o capítulo não fique muito extenso, terei que dividi-lo em mais uma parte. Como a segunda parte já está pronta, eu postarei a terceira e última parte amanhã.
Espero que gostem.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

3. O Segredo de Rebecca (Parte 1)


Durante das férias
                Um novo vestido, isso era tudo o que Rebecca precisava para se esquecer da mais nova decepção amorosa que teve. E se a ocasião pede um vestido, nada melhor do que ir à loja Ralph Lauren.
                Ao chegar lá, Rebecca se joga a experimentar tudo o que pode, ela não precisa nem mesmo gostar, ela não está aqui porque precisa de roupas ou tem algum lugar importante para ir, ela está aqui porque precisa relaxar e sua maneira de relaxar é comprando.
                Comprar roupas para Rebecca é algo fácil, ela é magra, mas tem algumas curvas que a valorizam, nada exagerado, mas grandes o suficiente para dar destaques nos lugares certos de seu corpo. Morena e de cabelos liso e compridos, Rebecca é claramente bonita, e apesar de jovem, ela já tem aparência de uma mulher adulta, isso a irrita um pouco, mas é algo que a convém em determinadas situações, como ir para baladas.
                No fim ela escolhe dez peças: Três vestidos longos, um floral, azul escuro, com as alças caídas e uma leve transparência do joelho para baixo. Um preto com rendas na parte de cima. Um branco, com duas camadas, todo florido, com flores em tons diferente de azul, com uma fita para marcar a cintura e um decote em V avantajado. Uma jaqueta jeans, lavagem clara, estilo boyfriend. Três vestidos curtos, um xadrez, outro todo branco com detalhes em crochê na alça, e um último listrado, que se ajusta ao corpo. Um short jeans com detalhes de rosa, uma calça jeans skin azul escuro, com detalhes de dois zíperes e para terminar, um novo roupão.
                – 1.017,51. – diz a atendente.
                Sim, Rebecca assume que tinha exagerado um pouco, mas esta não seria sua compra mais cara, então ela dá de ombros.
                Rebecca entrega o cartão de crédito, que seu pai lhe deu no ano passado como presente de aniversário, para a atendente. Rapidamente a atendente dá a maquininha de cartão para que Rebecca insira a senha. A garota o faz e espera, porém logo vê o olhar incomodado da atendente.
                – A transição não foi aceita. – a atendente diz sem graça.
                – Faça novamente. – Rebecca diz rapidamente, não quer que ninguém ali a veja nessa situação. O cartão novamente é inserido na maquina e novamente Rebecca digita sua senha, desta vez mais vagarosamente, pois quer ter certeza que não a errará.
                Assim que a atendente volta novamente seu olhar a Rebecca, a garota percebe que mais uma vez deu erro, mesmo sem que a moça que a atende tenha dito nada.
                Rebecca sorri amigavelmente, para tentar esconder o susto e vergonha que está sentindo.
                – Eu vou fazer uma ligação, e já retorno. – ela diz.
                Rebecca deixa as compras e o cartão no caixa, e não vai muito longe, apenas chega a um canto mais isolado da loja.
                Ela liga para o escritório do pai, mas ninguém a atende. Então ela liga para o celular do pai.
                – O que foi Rebecca? – ele a atende sem muito carinho.
                – Meu cartão não está passando. – ela diz desesperada. – Faça alguma coisa. – ela ordena.
                – Quanto deu? – ele pergunta.
                – R$ 1.17,51. – ela responde.
                – Mas que caramba você andou comprando? – o pai pergunta bem alterado.
                – Roupas. – ela responde, estranhando o tom do pai, ele nunca a repreendeu assim, principalmente só por ela estar fazendo umas comprinhas.
                – Mas que roupa é essa? É bordada em fios de ouro por acaso?
                – Não pai. São várias peças, e são lindas. – ela diz.
                – Deixe isso aí, você não precisa de mais roupas.
                – Pai, eu só preciso que você olhe com o banco o que está acontecendo, pare de ser chato. – ela fala, já sem paciência.
                – Eu não vou olhar nada em lugar nenhum, você que vai devolver essa compra e vai voltar para casa. – o pai praticamente berra do outro lado da linha. – E é agora! – ele ordena.
                – Pai, porque o senhor está fazendo isso comigo? – ela se segura para não chorar. – Eu não posso fazer isso, o que vão falar de mim? – ela o indaga.
                Rebecca sempre frequentou esta loja, todas suas amigas veem aqui, ela já conhece todos os funcionários. Ela sabe sobre as fofocas que rodam por essas araras. E ela tem certeza que o seu cartão recusado será o mais novo assunto.
                – Rebecca eu não tenho paciência para suas meninices. – ele não grita, mas ainda tem um tom raivoso em sua voz. – Faça o que eu disse. – ele ordena e desliga o telefone sem se despedir.
                Rebecca se desespera.
                O que fazer agora? Sair deixando tudo para trás, inclusive o cartão? Voltar ao caixa e dar um desculpa? Tentar mais uma vez, quem sabe agora o cartão passa? Quem sabe o pai estava apenas a brincar e vai ligar para o banco?
                Respire Rebecca.
                Rebecca decide voltar ao caixa e tentar dar uma desculpa.
                Assim que retorna ao caixa, Rebecca lança seu melhor sorriso, e com a voz calma e gentil diz.
                – Meu cartão deu um pequeno problema, tem como você guardar minha compra? Meu pai irá passar aqui para pagar até o fim do dia.
                A atendente assente tão gentil quanto, e devolve o cartão para Rebecca.
                A garota sai da loja sem saber se seu disfarce deu certo, nesse exato comento o nome dela já pode estar correndo pela loja, mas existe uma possibilidade de que sua desculpa tenha funcionado, mas para manter isso assim, ela teria que convencer ao pai a comprar as roupas antes que a loja feche e como já se passa das duas da tarde, ela não tem tanto tempo assim.
                Rebecca não vive longe da loja, um quarteirão é tudo que separa o apartamento de luxo que ela vive com seu pai, da avenida em que lojas de moda se espalham, e, ao contrario de sua melhor amiga, Sara, Rebecca ama andar pela cidade, nada de taxi ou limusines, se a caminhada não for muito pesada, ela não se importa de ir a pé.
                Assim que chega ao apartamento, ela procura por seu pai, e o encontra na sala. Rebecca pensa em já chegar ordenando que ele se explique, porém, ela nota que na mão do pai há um copo com o que ela crê ser Vodka e isso a paralisa.
                Quando a mãe de Rebecca morreu, há cinco anos, o pai da menina entrou em depressão e como forma de aliviar sua tristeza, ele recorreu à bebida, foram noites e dias penosos para garota. Bêbado ele ficava violento, nunca chegou a agredi-la gravemente, mas isso se dá graças aos funcionários, que sempre tentavam protege-la. Foram mais de um ano de penúria, até que ela finalmente conseguiu convencer o pai que ele deveria procurar ajuda.
                Seu pai sempre se mostrou orgulhoso de ter se recuperado, e há pouco ele tinha comemorado um ano sem colocar um pingo de álcool em sua boca. Mas hoje...
                – Pai, o que está acontecendo? – Rebecca pergunta. No fundo ela tem esperança que seja só um copo, afinal de contas, um ano controlado é um bom tempo, ele não seria capaz de jogar isso fora, seria?
                O pai de Rebecca o olha nos olhos e sorri grande para ela, mas o sorriso dura pouco, pois sem motivo aparente, ele começa a chorar e com a voz claramente embriagada ele diz:
                – Estamos falidos.
Continua



Capítulo postado, eu espero que gostem.
Se puderem comentar, eu agradeceria muito.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

2. O Segredo de Sara (Parte 2)


                Os dois passam a tarde a conversar e quando o sol já se põe decidem sair e irem a uma balada. Lá os dois dançam até não mais sentirem os pés e bebem até nem mais conseguirem pronunciar seus nomes propriamente.
                Sara se diverte como nunca, ela sentia falta disso. Desde 15 que ela sempre aproveitava os fins de semana nas melhores e mais caras, boates da cidade. Bebia muito e tudo utilizando sua carteira de identidade falsa. Ela não usava drogas, mas já havia experimentado. Isso tudo sem seus pais nem mesmo desconfiarem.
                Já é madrugada quando eles decidem pegar um Taxi para irem para casa, mas Heitor, num último surto de consciência, decide levar Sara para casa onde vive com seus avós e seu irmão, pois sabe que se a moça chegar a sua casa nesse estado, seus pais podem não gostar.
                Um praticamente carrega um ao outro para tentar entrar na casa. Como já é madrugada, não há muitos funcionários na casa, e ao mesmo tempo em que isso é bom, pois assim ninguém presenciará esse momento dos dois bêbados, é ruim, pois não há ninguém que possa ajuda-los a chegar a algum lugar, ou impedi-los de fazer mais alguma bobagem...
                Bêbados demais para irem muito longe, ambos se jogam no chão da sala de estar.
                Sara ri do seu estado e Heitor a acompanha.
                – Eu sentia falta disso. – ela assume.
                – Você é bem melhor assim. – Heitor fala. – Quando você tentar ser boazinha, você fica chata, mas assim, se divertindo... – os dois se entreolham intensamente.
                Heitor já sabia desse lado de Sara, ele já havia visto ela em bares e boates antes de ela começar a namorar seu irmão, mas esta é a primeira vez que Sara vê a Heitor desta maneira.
                E ela não pode negar. Ela amou este lado dele.
                Se você perguntar a Sara, ela dirá que não sabe como chegou a aquele ponto, talvez seja a falta de comida no estômago, combinado com o excesso de álcool nas veias, se quiser, pode levar em conta a saudade que ela sentia dessa liberdade, mas talvez, o fator determinante fosse o quanto ela desejava que alguém tocasse seu corpo.
                É algo errado, pecado, mas ela não irá parar.
                Seus lábios tocam ao de Heitor de maneira feroz, seus corpos se conectam numa dança perigosa, a pele quente e suadas dos dois, mostra o quanto eles se jogaram nesse ato de traição.
                Quando termina, ambos se jogam ao chão, nus, ofegantes e ainda em êxtase. Não há mais volta.
                Após o ato consumido, após a respiração normal restaurada, e agora que o frio volta a tocar suas peles. A consciência pesa.
                Meu Deus, o que fizemos?
                Sara se levanta e coloca sua roupa rapidamente, ela não se importa se está tudo amaçado ou se seu cabelo está desgrenhado, ela simplesmente se veste e sai correndo para fora da casa. Só quando ela chega ao portão de entrada que ela percebe que não há ninguém ali para leva-la a sua casa. Ela até pensa, pela primeira vez, engolir seu orgulho e ir a pé, mas numa hora dessas da madrugada?
                A luz do farol do carro faz com que Sara se afaste e semicerre seus olhos. Há um carro na porta de entrada, apesar da porta ser de grade e que dê para olhar para o que está lá fora, ela não reconhece o carro.
                Quem seria?
                Sara pensa que pode engano, que talvez seja algum vizinho parou na porta errada, mas assim que o portão eletrônico abre, ela percebe que é de alguém que vive na casa.
                Seu coração dispara.
                O carro entra vagarosamente, o portão é fechado e o motorista freia bem ao lado de Sara.
                Os segundos que demoram para que a janela do carro abaixe o suficiente para mostrar quem está dirigindo, parecem horas para Sara.
                – Ricardo? – Sara não consegue crer. – O que você está fazendo aqui? – ela não consegue esconder isso em sua voz.
                Mas Ricardo também não esperava ver a namorada ali.
                – Sara o que você está fazendo aqui? – ele pergunta. – Eu moro aqui. – ele responde e logo depois ri.
                – Eu... – Sara percebe que o namorado está prestes a descobrir o que aconteceu ali. – Eu vim te ver... Mas... E o tufão? – ela pergunta, pois não consegue formar um desculpa.
                – Decidi vir de carro, eu não queria ficar lá por mais um dia. – ele se explica.
                – Mas e o tufão? – ela insiste.
                – Eu peguei a rota por outro estado, não passei nem perto dele. – ele responde calmo, pois crê que isso a acalmará. – Amor, você está bem? – ele pergunta, desligando o carro e fazendo menção de sair do carro, mas Sara segura a porta, para que ele não a abra e o mantem lá dentro.
                – Eu estou bem. – ela diz, e se afasta, pois teme que ele sinta o seu hálito alcoólico. – Eu vim esperar por você, mas eu estava um pouco cansada, acabei dormindo, só acordei agora e me assustei por já ser noite.
                – Já é madrugada, Sara. – Ricardo diz, ele também estranha o fato da namorada ter se sentindo tão cansada, não é como se ela fosse uma pessoa atarefada, mas ele tenta relevar, pode ser que tenha algo mais que ele não saiba... Talvez ela tivesse doente, isso explicaria a aparência pálida dela.
                – Madrugada? – Sara se faz de desentendida.
                – Você deve ter dormido muito bem. – Ricardo ri e Sara acaba dando um sorriso de alivio. Ele acreditou na história.
                – Você pode me levar para casa? – Sara pede, pois sabe que se Ricardo entrar em sua casa agora, pode encontrar o irmão deitado nu na sala e toda sua história iria por água a baixo.
                Ricardo faz uma careta, ele estava cansado, havia passado mais de sete horas dirigindo, tudo que ele mais queria era dormir.
                – Meus pais não podem saber que dormir fora de casa, pior, que dormi na sua casa. – ela o alerta. E isso faz com que Ricardo esqueça seu sono.
                – Entre. – ele diz e já liga o carro.
                No caminho Sara pergunta sobre a viagem do namorado e finge prestar atenção no que ele fala, sorri quando ele diz sobre os prazeres do trabalho voluntario. Ela se esforça ao máximo para que ele não suspeite de nada.
                Assim que Ricardo a deixa em sua casa, Sara liga para Heitor, para alerta-lo sobre a chegada do irmão, mas o rapaz não a atende.
                O medo volta a tomar conta de Sara, e tudo que ela pode fazer agora é rezar por um milagre, apesar de saber que não se encontra numa posição favorável para ter suas preces atendidas.

                Os dias passam e aos poucos Sara vai se esquecendo do que aconteceu. Nem ela nem Heitor se falam mais, mas fica bem obvio, pelo carinho de Ricardo, que o irmão dele não o revelou nada. Ela até pensa em falar com Rebecca, quando a amiga finalmente resolve reaparecer, mas não tem coragem, principalmente porque vê que a amiga não está bem.
                Sara decide que este será seu segredo.
                Mas o destino não parece querer seguir seus planos. Apenas um dia antes da volta as aulas, ela recebe a notícia que não queria receber.
                Sara está em seu quarto, ainda em choque, sua face está toda molhada e ela sente muita dor de cabeça.
                É o fim, ela pensa.
                E quando ela acha que não pode mais piorar, Eleonora, a empregada, entra a seu quarto, fecha a porta e a olha com o olhar assustado, de dentro de uma sacola ela retira o que Sara menos queria ver.
                Aquilo foi encontrado no banheiro de Sara, enquanto Eleonora o limpava, a empregada sabia que era da menina e sabia que isso colocaria a garota em maus lenções no momento em que seus patrões descobrissem, e pior, os pais de Sara sempre confiaram que Eleonora tomasse conta da garota, no fim, a empregada também levaria a culpa.  
                – O faço com isso? – Eleonora pergunta apavorada.
                Sara volta a chorar compulsivamente, no desespero, cheia de culpa e raiva Sara dá um soco em sua própria barriga.
                – O que eu faço com isso? – ela se pergunta. – Eu não posso ter um filho. – Eleonora vai até a menina.
                – Eu posso te ajudar com isso. – ela diz e Sara a entende.
                – Este vai ser o nosso segredo. – Sara exige ainda aos prantos.
                – Este será o nosso segredo. – Eleonora confirma.

Continua



Gente, capítulo postado atrasado, mas postado.
                Espero que gostem.

Comentem o que acharam.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

1. O Segredo de Sara (Parte 1)



Durante as férias

                              Falta pouco mais de uma semana para que as férias de verão acabar, e mesmo faltando tão pouco tempo, Sara não quer pensar na escola, mas sim em seu namorado, que passou a maior parte do tempo em outro estado, ajudando a construir casas para os pobres.
                               Só de pensar nisso, Sara já revira os olhos.
                               Mas hoje é o dia em que ele vai voltar, em poucas horas os dois estarão nos braços um do outro.
                               – Senhorita Sara, o seu banho já está pronto. – diz Eleonora, sua empregada. – a senhorita precisa de mais alguma coisa? – Sara pensa um pouco e diz.
                               – Você colocou pétalas de rosas na banheira? – pergunta.
                               – Sim senhorita. – responde e ri boba.
                               – Porque você está rindo? – Sara pergunta séria. – Você está querendo insinuar alguma coisa? – Eleonora arregala os olhos.
                               – Claro que não senhorita.
                               – Então você acha que eu sou boba? Objeto de piada talvez?
                               – Claro que não, claro que não. – dá para sentir o desespero na voz de Eleonora, mas isso não afeta a Sara, que segue deitada em sua cama King Size, com uma expressão séria. – Eu te respeito muito senhorita.
                               – Não é o que eu estou vendo. – contrapõe a garota.
                               – Eu só acho bonito isso, tomar banho de rosas, é romântico. – ela tenta se explicar.
                               – Cale a boca. – Sara grita. – Quer saber? Você, e sua boca sorridente, não vão me atrapalhar. – suspira. – Não preciso de mais nada, pode se retirar. – diz mais calma.
                Eleonora sai sem pestanejar.
                               Sara pula para fora da cama e vai se despindo até chegar a seu banheiro privativo. Lá a banheira já está cheia, as bolhas de espumas estão na medida certa, assim como as pétalas de rosas. Eleonora podia ser inconveniente, ao olhar de Sara, mas nem mesmo ela pode negar que a empregada faz um bom trabalho.
                               O banho de banheira dura quase meia hora.
                               Ao sair da banheira, Sara penteia seu cabelo bem superficialmente, e depois o amarra em um coque alto, do jeito que seu namorado, Ricardo, mais gosta.
                               Sara se embrulha na toalha e volta para o quarto, hora de procurar a roupa ideal.
                               O closet, mesmo grande, está cheio, são roupas novas e de grife. Sara procura por algo comportado, pois sainhas e shortinhos não são bem vindos à casa do namorado.
                               Ela escolhe um vestido branco e florido, ele vai ate os joelhos. Como é de alcinha, Sara coloca um casaquinho de renda branco por cima, para esconder um pouco mais os braços. O sapato já é algo mais difícil de escolher, são tantas opções...
                               Após muito procurar, ela se decide por um sapato de salto Rosa Nude.
                               Sara desce para o primeiro andar de sua casa e encontra seus pais na sala. Isso é algo raro.
                Sua mãe está concentrada em seu IPAD, provavelmente analisando ou estudando melhor uma futura cirurgia, já seu pai, está lendo o jornal, ambos estão na sala de estar, um ao lado do outro.
                               – Você vai sair? – seu pai pergunta, assim que a vê.
                               – Vou. – Sara responde, mas assim que olha para o pai, percebe que ele já não presta atenção nela. – Vou a uma boate onde posso comprar drogas. – ela diz sem medo e comprova que eles não estão escutando-a, pois eles nem mesmo dizem nada.
                               Sara revira os olhos e percebe que não há o que fazer ali. Após decidir que não irá comer seu café da manhã, mesmo ainda faltando horas para a chegada do namorado, ela resolve ir até sua casa, e assim poderá fazê-lo uma surpresa.
                               A casa do namorado não fica longe, apenas dois quarteirões o separam, mas ainda assim, Sara não recusa usar sua limusine para chegar até lá.
                No caminho, ela decide ligar para sua amiga, Rebecca. As duas haviam conversado ontem anoite, e Rebecca não parecia se sentir muito bem, mas tampouco revelou o que era. Isso incomoda a Sara em altos níveis, pois ambas sempre compartilhavam tudo, de segredo sujo até as roupas caríssimas.
                O telefone chama, chama e chama, mas Rebecca não atende.
                Sara pensa em talvez ir a casa da amiga, afinal, Ricardo, seu noivo, não chegaria em menos de uma hora...
                – Chegamos senhorita. – diz Rick, o chofer. Sara não responde, ainda está indecisa se ela irá ver a amiga ou se fica e faz uma supressa ao namorado. – Senhorita? – Rick o chama, sem saber se a patroa escutou.
                – Eu já escutei. – Sara responde grossa, e por ficar irritada, decide descer ali mesmo. Ela ainda teria a chance de conversar com a amiga.
                Os funcionários da casa dos avós de Ricardo já conhecem bem a Sara, então ela não tem muita dificuldade para passar pela portaria e chegar até a grande sala da casa.
                Quando chega, Sara se senta confortavelmente no sofá, mas logo se sente incomodada com a aparição de Heitor, o irmão mais velho de Ricardo.
                – Sinto lhe dizer, mas perdeu sua viagem. – Heitor diz, sem cumprimenta-la, ele nem mesmo a olha direito.
                – O que você quer dizer com isso? – Sara pergunta.
                – O voo do meu irmão foi cancelado, parece que haverá um tufão na região em que ele está. – Heitor responde sem dar muita importância, mas Sara entra em desespero.
                – Como assim um tufão? – pergunta de olhos arregalados, se levantando do sofá num pulo.
                – Fique tranquila, o hotel em que ele está tem pareces mais fortes do que um cofre de banco. – Heitor dá de ombros.
                Isso tranquiliza a Sara, mas a incomoda, será mais um dia longe de seu amor.
                – E seus avós? – ela pergunta.
                – Viajaram também. – ele responde. – Caribe, conhece? – ele pergunta sorridente e sarcástico.
                – Não finja amizade, você não gosta de mim. – Sara diz.
                – Eu não tenho nada contra você. – Heitor acha graça. – Só não entendo vocês.
                – Vocês? – Sara não entende o que o rapaz quer dizer.
                – Você e meu irmão. – Heitor se explica enquanto vai ao armário de bebidas do avô e pega a garrafa de uísque. – Vocês não fazem sentido.
                – Você não faz sentido. – Sara contrapõe.
                – Não se faça de besta, você gosta de mostrar que é “a doce menina boba”. – ele a zoa, e a entrega um copo com uísque. – quer? – ela hesita.
                – Não. – ela responde e Heitor ri.
                – Sim, você quer. – ele garante. – mas é como eu disse: você tem que manter a face de “doce menina boba”, pois é esse tipo de menina que meu irmão gosta.
                – Você não sabe de nada. – Sara tenta dizer, mas é interrompida.
                – Eu conheço você, Sara. Você não é o tipo de garota que espera pelo casamento para se relacionar sexualmente, nem mesmo que nega bebida ou que larga a balada para participar de grupos de orações, nem mesmo que fica se cobrindo com panos e panos de roupas... – Sara quer contrapor, mas Heitor tinha razão.
                – Eu mudei, seu irmão me mudou. – ela mente.
                – Não mudou não. – Heitor diz. – E é isso que eu não entendo. Se ele não gosta de você pelo que você é, porque você insiste em continuar com ele? Não é pelo dinheiro, pois você também é rica, não é por sexo, porque isso ele não te dá...
                – Ele é carinhoso. – Sara responde. Heitor parece pensar.
                – Você é realmente tão carente que larga tudo por apenas um pouco de carinho? – Heitor pergunta. Sara fica surpresa consigo mesma, pois ao invés de responder, ela se pega pensando na pergunta.
                – Acho que vou embora. – Sara diz.
                 – Ei, espere. – Heitor pede. – Me desculpe, não queria te ofender, só queria entender melhor. – Sara para e volta a encarar Heitor.
                – Você nunca vai entender. – ela responde, pois nem mesmo ela entende.
                – Você não sente falta? – Heitor pergunta. – Do que era antes?
                – Sim. – Sara responde fraco.
                – Então aproveite o hoje. – Heitor sugere. – Meu irmão deve chegar amanhã. Aproveite o dia de hoje para matar a saudade da antiga Sara. – ele insiste.
                Sara pensa.
                – O que você sugere? – pergunta claramente interessada na sugestão.
                – Que tal começar com um uísque? – ele pergunta sorrindo, levantando ao ar o copo de uísque que acabara de oferecer a Sara e que fora recusado.
                Desta vez ela aceita.

Continua


Olá gente, primeiro capítulo postado, sei que ele está um pouco grande, mas foi necessário, prometo que os próximos serão menores.
Comentem o que acharam.

Muito obrigada.