quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

6. Vivian



Domingo

           O sabor doce do sorvete de baunilha em minha boca me agrada, principalmente quando conciliada com o calor do fim de verão, que mesmo eu estando no ar livre da pracinha do bairro, debaixo da proteção da sombra de duas grandes árvores centenárias, não cessa.
           Minha mãe se senta a meu lado e logo alguns olhares se dirigem para nós. Os olhares incomodam, mas é algo que eu aprendi a ignorar já faz um tempo.
           Hoje a praça está cheia, é final de semana em uma cidade pequena que o cinema só passa dois filmes e demora meses para trazer novas opções, parques de diversões ou circos são apenas temporários, ficam na cidade geralmente no inicio do verão, quando as férias começam, e como agora já estamos no final dessa estação e com as aulas prestes a voltar, não há mais nenhum atração. O único clube tem apenas uma piscina, que não é lá muito grande, é bem caro e ainda assim, deve estar lotado numa hora dessas. Então, o que nos resta é nos empilharmos nas pracinhas que estão espalhadas por toda a pequena cidade.
           _ Admita você vai sentir falta daqui. – minha mãe diz. Olho em volta, para os olhares que ainda recaem sobre nós.
           _ Não, não vou sentir não. – digo. Minha mãe sorri fraco, ela sabe o porquê de eu agir assim.
           _ As pessoas podem ser um pouco desconfiadas, mas tudo aqui é calmo, tem segurança, você vai sentir falta disso. – ela insiste.
           _ Talvez. – digo apenas para não decepciona-la. Minha mãe sempre quis que eu gostasse daqui, mas eu nunca consegui.
           Não nasci aqui, eu nasci na cidade grande, morei em um apartamento na minha infância. Eu morava perto da praia, só em minha escola tinha mais alunos do que toda a população da cidade que vivo hoje. Sim, era perigoso e os carros pareciam nunca parar de passar na avenida em que se localizava o prédio em que eu vivia, mas eu nunca achei isso ruim.
           Quando eu completei 12 anos minha mãe surtou, um dia ela estava totalmente feliz e satisfeita, no outro dia ela resolveu que queria se mudar, e quando ela disse se mudar, não foi de um bairro para outro, ela mudou de estado, de região.
            Eu viva no sul, agora vivo no nordeste. Eu vivia num apartamento numa cidade grande, e agora vivo numa casa no interior. Antes eu tinha amigos, dos quais eu via todos os dias na escola, hoje eu recebo olhares incômodos, escuto piadinhas de mau gosto e recebo apelidos ofensivos, os únicos amigos que tenho são virtuais.
           _ Às vezes eu sinto que você parou de gostar de mim no minuto que mudei com você para cá. – ela confessa, olho para ela e me sinto mal, eu a fiz pensar isso?
           _ Mãe, eu te amo! – digo. _ E é por te amar que odeio tanto a este lugar.
           _Os que nos olham desta maneira, são os mesmo que vão se consultar comigo. – ela me explica pelo que creio ser a milésima vez.
           _ Então só porque um dia eles precisaram de você, eles têm o direito de lhe difamar pela cidade.
           _ Vivian...
           _ Mãe, não, eles te chamam de louca, de charlatã, de aproveitadora, te chamam até mesmo de demônio.
           _ E eu aceito, faz parte do que eu sou. – ela diz.
           _ Então por ser sua filha eu devo aceitar os insultos também? Eu já escutei que meu cabelo é ruivo porque você é ligada ao inferno. – digo. _ Essas pessoas são umas idiotas, esta cidade é lotada de idiotas.
           _ Vivian... – ela me repreende com mais força agora. _ Esta é uma cidade pequena, supersticiosa, religiosa, eu falo eu com espíritos, é claro que vai ser difícil para a maioria deles...
           _ Então porque para cá? – pergunto por fim. _ Com tantas outras cidades, por que logo para cá?
           _ Foi para o seu bem. – ela responde.
           Sinto os pingos de sorvete melar minha mão, fiquei tão distraída discutindo com minha mãe, que me esqueci de toma-lo.
           _ Eu não quero brigar com você hoje. – minha mãe diz no meio de um suspiro. _ É seu último dia aqui, amanhã você vai voltar para cidade grade, para longe de tudo isso. – ela tentar dizer animada, mas posso sentir a tristeza em sua voz.
           Minha mãe não queria que eu fosse estudar tão longe, ela nunca escondeu que queria que eu estudasse na faculdade que fica há apenas 30 minutos daqui, mas eu escolhi ir para uma que fica a quatro horas.
           _ Eu não estou te abandonando, mãe. – digo. _ Eu queria que você viesse comigo.
           _ Minha vida agora é aqui. Estas pessoas precisam de mim.
           _ Ainda assim, eu espero um dia poder te encontrar lá. – insisto.
           _ E um dia eu espero que você queira voltar. – ela insiste.
           Minha mãe é médium, desde bem jovem ela consegue se comunicar com os espíritos.
           Quando morávamos na cidade ela fazia algumas consultas gratuitamente, algumas pessoas, agradecidas doavam coisas como: comida, roupa, e até mesmo pequenas quantias de dinheiro, isso mesmo sem que minha mãe o pedisse. O que minha mãe tem é um dom divino e o dom divino não pode ser cobrado.
           Minha mãe trabalhava em uma creche durante a manhã e dedicava o resto do seu dia a ajudar a espíritos se comunicarem com seus parentes vivos. Eu sempre me orgulhei dela, sempre a vi como um exemplo de bondade, mas quando nos mudamos para cá, parte desta minha admiração caiu ao chão.
           Como minha mãe sempre gosta de me lembrar, as pessoas aqui são muito religiosas e isso faz com que o dom de minha mãe não seja bem recebido por uma boa parte da população. Alguns acham que o que ela faz é coisa do demônio, que ela é louca, que ela é uma farsante. Não vejo necessidade de ela passar por isso, voltar para cidade grande seria bem melhor para ela, seria melhor para nós duas.
           _ Quer algodão-doce? – ela pergunta, após passarmos alguns segundos em silêncio. Minha mãe já terminou seu sorvete, eu cheguei à metade do meu apenas agora.
           _ Este é o seu plano? Entupir-me de doces? – pergunto rindo.
           _ Esta é a despedida que posso dar a você, muito doce e a sombra ineficiente de uma árvore. – ela sorri torto.
           _ Eu gosto desta despedida. – digo. _ Simples, calorenta, mas deliciosa. – ela sorri grande.
           Minha mãe se levanta e vai até a barraquinha de algodão-doce. Espero-a sentada no mesmo lugar.
           Agradeço mentalmente pela leve brisa que começa soprar. Não é o suficiente para acabar com o calor, mas refresca e isso já é algo.
           Um homem se senta ao meu lado, onde minha mãe estava. Ele é loiro, seus olhos claros, ele tem aparência de um homem de 40 anos é bonito e não me lembro de tê-lo visto por aqui antes, o que é incomum.
Esta não é uma cidade turística e praticamente todo mundo conhece todo mundo. Novas faces são raras por aqui, já vivo aqui por sete anos e apenas mais uma família se mudou para cá neste meio tempo.
           _ Minha mãe estava sentada ai. – digo.
           Ele me olha nos olhos e sorri.
           _ Me desculpe. – ele diz. _ Eu não sabia. – ele fala, mas não dá licença. _ Sou novo aqui. – diz.
           _ Percebi. – falo não demonstrando muita educação, afinal de contas, eu queria que ele saísse do lugar de minha mãe e não entrar em uma conversa.
           _ Cidade pequena, não é? – ele ri.
           _ Até demais. – digo.
           Minha mãe volta, com dois algodões-doces em sua mão. Ela para na frente do homem que ocupa seu lugar e creio que ela irá pedir que ele saísse, mas assim que ela o vê, percebo que há algo de errado. 
           _ Vivian, corra! – ela ordena.
           Quero perguntar o porquê, mas não ouso, levanto-me, pronta para correr.
           _ Não corra Vivian, sente-se, fique aqui. – o homem diz.
           Eu não quero, mas sento-me no mesmo lugar que eu estava.
           _ Isso é golpe baixo, Dalton. – minha mãe diz.
           _ Golpe baixo é você arrastar sua filha para essa cidade. – ele diz com certo desdém. _ Isso tudo para quê? Para escondê-la de mim? – pergunta.
           _ Eu não vou permitir que você ou Bartolomeu coloquem as mãos em um fio do cabelo de minha filha. – minha mãe diz raivosa.
           _ Eu sei que o que te falaram gera preocupação, mas eu te garanto, queremos apenas proteger sua filha.
           _ Por isso você trouxe outro com você? – ela pergunta desconfiada.
           _ Espíritos... – o homem sorri. _ Sempre fofoqueiros.
           _ Eu já disse que não quero vocês perto dela.
           _ E eu já disse que você não deve nos temer.
           _ Eu não os temo. E por isso lhe digo na sua cara: Você não a levará!
           _ Você sabe que não há como fugir. Principalmente agora, ou você acha que se escapar, a sua filha não vai ficar cheia de perguntas para saber do quê se trata a nossa conversa?
           _ Eu sei como lidar com isso. – minha mãe diz bruta.
           _ Espero que isso não envolva o poder de certo Grego, pai dos gêmeos. – o homem diz.
           _ O que você fez com ele? – minha mãe pergunta alarmada.
           _ Nada. – o homem não hesita em responder. _ O destino tomou conta dele. E os gêmeos agora estão comigo. Sua filha daria muito bem com eles.
           _ Não ouse.
           _ Pergunte seus espíritos. Eles sabem quais são nossas intensões.
           _ Eu não quero saber de suas intensões, eu não vou aceitar nada disso.
           _ Você um dia já aceitou caso não se lembre.
           _ Não eu não aceito mais.
           _ Não há volta.
           _ Há volta se eu quiser. – minha mãe contesta. _ Filha. – ela olha para mim. _ Você pode lutar contra isso. Queira levantar, você pode levantar. – ela insiste. Não entendo o que ela diz, a primeiro momento, mas assim que tento levantar-me, percebo que não consigo.
           _ Você realmente quer que ela, uma ilegal não evocada, nem mesmo treinada, aprenda em 5 segundos o que nós, Puros, levamos anos para aprender?
           _ Cale a boca, Dalton. – minha mãe grita, percebo que ninguém parece perceber o que está acontecendo aqui e isso me irrita, logo agora eles decidiram que não existimos?
           _ Pena que seu poder não pode fazer isso, não é? Mas eu posso. Pare de lutar. – minha mãe para de tentar me fazer levantar.
           _ Minha filha pode não ter aprendido a resistir a seu poder, mas eu aprendi Dalton, e eu já disse: você não tocará em nenhum fio do cabelo dela.
           Minha mãe larga os dois algodões-doces no chão, pega sua bolsa e começa a bater no homem.
           _ Pare de controlar minha filha! Pare de controlar minha filha. – ela grita enquanto bate no homem sem dó. Ele não revida, apenas tenta se defender.
           _ Pare com isso, não vai adiantar. – ele diz com dificuldade.
           _ Pare de controlar minha filha! – minha mãe continua a repetir.
           Sinto que consigo levantar e o faço.
           Minha mãe vê, mas não para de bater no homem.
           _ Vá para o carro, filha, corre! – diz. Deixo-a batendo no homem e corro até nosso carro.
           O carro está estacionado perto. De onde estou ainda posso ver minha mãe dando bolsadas no homem.
           Percebo que o plano de minha mãe é falho assim que chego ao carro e ele está trancado.
           Minha mãe, talvez por se lembrar disso ou talvez porque algum espirito tenha informando-a, para de bater no homem e corre até a mim, vejo que o homem não tem pressa de se levantar, para também correr atrás de nós, e a sua falta de pressa dá a minha mãe uma boa dianteira.
           _ Vão fugir novamente? – pergunta um homem, de cabelo preto, encostado no capo de um carro estacionado atrás do carro de minha mãe. Fico assustada. _ Vivian não é? – ele pergunta e eu não respondo. _ Vou dar uns dois minutos para vocês, eu gosto de uma aventura. – ele ri.
           _ Quem são vocês? – pergunto.
           _ Vivian, entre no carro. – minha mãe grita, assim que chega, destrancando o carro.
           Fico sem minha resposta.
           Minha mãe sai cantando pneu. Quase caio encima dela quando ela faz uma curva para a direita.
           _ Coloque o cinto. – ela diz, um pouco tarde demais. Eu ponho, ela continua sem.
           _ O que está acontecendo, mãe? – pergunto. _ Quem são eles?
           _ Agora não Vivian, agora não. – ela responde sem muita paciência.
           _ Mãe... – quero insistir, mas ela me interrompe.
           _ Estão atrás de nós. – ela acelera mais ainda e começa a cortar e ultrapassar os poucos carros que estão a nossa frente.
           Olho para o retrovisor e posso ver o carro em que o homem de cabelo preto estava escorado, nos seguindo.
           Minha mãe acelera e vira a direita, quase colide com outro carro, pois ela estava com a velocidade tão alta que na hora da curva entrou na contra mão.
           O outro carro também tem dificuldades para fazer a curva, mas vira sem causar nenhum acidente.
           Minha mãe continua acelerando sem pensar nos riscos.
           Vejo que o desespero tomou conta de minha mãe, quando percebo que o caminho que ela está tomando, nos leva a rodovia. Estamos indo para fora da cidade.
           Minha mãe vira à esquerda e na curva acaba invadindo a calçada, por sorte não havia ninguém andando por ali naquele momento, mas por poucos segundos ela não atinge uma idosa. Minha mãe consegue voltar o carro para o asfalto e volta a acelerar. Agora estamos na avenida que interliga a parte norte da cidade a rodovia interestadual, foi esta avenida a primeira coisa que vi desta cidade, quando nos mudamos para cá e nada tinha mudado desde então.
           As pistas não são largas e há apenas duas pistas para cada direção. Como hoje é domingo, as ruas não estão muito movimentadas, pois a maior parte do comercio não abre.
           Minha mãe tem caminho livre para acelerar até o limite do nosso carro. Porém o carro que nos segue também vem veloz.
           O carro em que os homens estão consegue se equiparar com o nosso, nesse exato momento minha mãe começa a desacelerar o carro e usa uma das suas mãos para abrir a janela do carro.
           _Sai de minha cabeça, Dalton! – minha mãe berra e volta a acelerar o carro, mas não sem antes jogar o carro contra ao dos homens, que para evitar um acidente acabam invadindo a contra mão.
           Eles não desistem. Voltam para a pista correta e voltam a equiparar os carros.
           Não sei de onde essa parede surge, é como uma miragem, mas ela está lá, no meio da pista.
           _ Mãe, freie, freie! – começo a gritar desesperada. _ Vamos morrer.
           _ Não creia nos seus olhos, Vivian, não creia! – ela responde também aos berros.
           Parece imaginação. Tenho que me beliscar para comprovar que não estou sonhado. 
           O carro passa pelo muro como se este nunca estivesse estado lá. Como se o muro que eu vi não existisse.
           _ Pare o carro ou o próximo irá ser bem sólido. – grita o homem louro que creio se chamar Dalton, de dentro do outro carro.
           _ Eu já disse que não. – minha mãe bate o pé.
           _ Você que escolheu.
           Não sei como isso é possível, mas além de controlar corpos, aqueles homens, ou pelo menos um deles, consegue nos fazer visualizar o muro no meio da pista outra vez. O muro ainda está longe, mas com a nossa velocidade provavelmente chegaremos até a ele em menos de um minuto.
           Quero acreditar que vai ser igual ao outro, mas a ameaça daquele homem louro me faz temer pelo pior.
           _ Última chance. – ele diz e como resposta minha mãe pisa mais fundo no acelerador, o carro não acelera mais, pois já chegou ao seu limite, mas o ronco do motor aumenta tanto que acho até mesmo que irá explodir.
           Os dois homens desaceleram o carro, ficando para trás e talvez isso tenha influenciado um pouco minha mãe, pois pela primeira vez ela começa a querer pisar no freio, mas já é tarde demais.
           Batemos no muro em cheio.
           O carro levanta, quase capotando, mas o muro, ainda no meio da pista, nos impede de capotar.
           Sinto a pressão do capô que afundou para dentro, em minhas pernas, olho para baixo e sinto uma fisgada em minha costa. Não vejo nenhuma ferida, nem sangue em minhas pernas, mas tampouco consigo vê-las por inteiro, pois as ferragens do carro me impedem. Olho para o lá de minha mãe está para fora do para-brisa, há muito sangue.
           Começo a chorar compulsivamente. Não quero perder minha mãe.
           A parede some e os dois homens aparecem, o de cabelo preto vai para o lado de minha mãe e o louro vem para o meu lado.
           _ A menina está bem? – o homem de cabelo preto pergunta. O homem loiro me olha e eu olho para ele, não consigo enxerga-lo direito, pois meus olhos estão inundados pelo meu choro.
           _ Sim, ela está bem. – ele diz. _ E a mãe? – o loiro pergunta.
           _ Ela é uma de nós. – o de cabelo preto responde. _ Vai sobreviver.

Continua

Oi, peço perdão pelo atraso na postagem, tive problemas com o sinal da Net e só hoje consegui restabelecê-lo.
Eu gostei muito de escrever esse capítulo, então eu espero que vocês gostem dele.
O cronograma continuará o mesmo, então, domingo teremos capítulo novo.
Bjssss

Fernanda: Nossa, te entendo, voltei para os estudos agora e está tudo bem apertado para mim também, mas fico MUITO feliz de saber que você, mesmo atarefada, tira um tempinho para a minha história.

           Que legal gente, uma gaúcha no meu blogger (Emojis de coração kkk)... Sempre quis conhecer o Sul, dizem que parece ser até outro mundo kkkk. Muito obrigada por comentar. Bjsss

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

#NowUnited #Brasil Queremos! (Preciso do voto de vocês)

Olá a todos, não sei se todos aqui sabem, mas além de escrever, eu também canto e componho. Esta é uma paixão que tenho desde bem novinha, eu nem mesmo pensava em fazer um Blogger e já cantava pela casa.
Venho me aprimorando com o tempo e gosto de dizer que estou em um bom ponto do meu desenvolvimento, como artista, sei que nunca chegamos no nosso 100%, sempre há mais para aprender. 
Sei que não é fácil, mas gostaria de seguir carreira na música, mas como não tenho condições de investir, tenho que me agarrar a oportunidades que surgem. Nesse momento é isso que estou fazendo.
Me inscrevi no concurso #NowUnited, que formará uma banda mundial e para conseguir avançar nessa competição, preciso da ajuda de vocês.
Para me ajudar, preciso que vocês entrem neste link: http://www.queremos.com.br/venue/nowunitedbr e votem por mim: Nanda Neves.

Caso vocês não tenham conta nesse site, você pode loggar, sem grandes problemas, pelo facebook ou pelo twitter. 
Qualquer duvida, pode comentar aqui que prometo ajudar.

Caso vocês queiram ver, aqui está a minha inscrição: 



Aos que votarão, meu mais sincero agradecimento.



domingo, 12 de fevereiro de 2017

5. Roni



Sábado

           Como sempre, estou atrasado, e como de costume, tampouco me importo.
           Quando estaciono o carro, todos já estão lá. Mesmo sem estar perto deles eu já escuto alguns gritos de ofensa. Eu começo a rir.
           _ A princesa resolveu aparecer é? – Carlos brinca.
           _ Ao contrário de você, tenho mais o que fazer na vida. – respondo-o.
           _ Mais o que fazer? Você dorme o dia inteiro. – agora quem fala é Rafael.
           _ É verdade. – Carlos concorda. Eu acabo rindo, sem ter uma resposta rápida para dar, pois eles estavam certos, eu não faço nada o dia inteiro.
           _ Vocês deveriam se preocupar mais com a vida de vocês. – digo. O tom parece desrespeitoso, mas somos assim, um fala mal e zoa com o outro e todos acabam rindo juntos no final.
           _ ih, a princesa ficou irritadinha? – Carlos começa rir compulsoriamente.
           _ Vamos ver quem vai ser a princesa quando eu fizer meu segundo gol. – digo.
           Todo o sábado nos unimos na quadra do bairro, para jogar uma partida entre os amigos, o time que ganha além de sair com o gostinho saboroso da vitória ainda pode beber no bar, tudo na conta dos que estão no time perdedor, e o artilheiro do jogo pode criar um desafio para quem ele quiser do time adversário pagar. Eu já havia sido o artilheiro várias vezes, eu sou bom no futebol, mas nas últimas duas partidas, eu perdi a artilharia para Artur, que geralmente joga no time adversário.
           Hoje eu cheguei preparado para uma revanche.
           Ajeito minha chuteira e Carlos chega do meu lado.
           _ Tem gente nova hoje. – ele comenta.
           _ Gente nova? – Estranho. _ Não aceitamos gente nova no time, nem tem vaga.
           _ Parece que o Leonardo saiu e, por algum motivo, Vitor cancelou a participação dele, então colocaram outros dois no lugar. – ele aponta para o outro lado da quadra, mostrando-me quem serão os novos jogadores.
           Espanto-me.
           Primeiro vejo um homem, ele é loiro e alto, estou de longe, mas posso ver que ele não pertence ao nosso grupo, ele parece ter quase 40 anos, sendo que eu, com 23 anos, sou um dos mais velhos, mas o que me surpreende mesmo é a figura ao seu lado.
           Seu cabelo preto é bem curto e suas pernas são longas, mas assim que ela se vira de frente, percebo que não estou enganado.
           _ Uma garota? – reclamo. _ Vamos jogar com uma garota no time? – Carlos também faz uma careta rápida.
           _ Dizem que ela é boa. – repete a careta. Ele também não a quer no grupo, posso ver, mas ele está tentando aceitar.
           _ Samuel aceitou isso? – pergunto, ainda não engolindo esta história. Samuel é o líder, não só do nosso time, como dessa reunião que fazemos, ele que aluga a quadra, que organiza os times e, a cada ano, vai atrás de renovar os uniformes. _ Ele nunca deixou uma mulher entrar no time. – digo. _ E existe um motivo para isso. – sei que Carlos me entende.
           _ Sim. Ele está totalmente tranquilo com essa história. – diz.
           _ Será que é namorada dele? – pergunto.
           _ Só se for amante, esqueceu? Samuel é noivo. – Carlos diz.
           _ Eu não vou pegar leve com essa garota, nem passar a bola para ela. – digo.
           _ Deixe alguém escutar isso, vão te chamar de machista. – Carlos ri.
           _ Fazer o quê? Mulher não joga bem mesmo. – dou de ombros.
           Samuel apita no centro do campo.
           _ Hora de começar o jogo, galera. – Ele diz.
           Todos se reúnem no centro do campo.
           _ Todos já devem perceber que temos gente nova aqui. – Samuel diz sorrindo, como se isso fosse algo bom.  _Infelizmente o Leo deixou o grupo, por problemas no joelho, aquela última lesão o pegou de jeito e o Vitor não poderá vir hoje, terá que fazer hora extra no trabalho. Para substitui-los vamos ter dois... – ele para, como se pensasse no que falar. _ Amigos... – ele para novamente, como se as palavras o soassem estranhas. _ Meus... Amigo meus... – ele agora diz mais confiante. Começo a questionar a saúde mental de Samuel. Primeiro ele deixa uma mulher entrar no time, agora ele começa a falar todo estranho. _ São eles Dalton e Eva. – os dois sorriem ao escutarem seus nomes. _ Não se deixem enganar pelas aparecias, eles são bons jogadores. – Samuel diz. _ Sei que tanto Leonardo, quanto Vitor, são do time azul, mas apenas Dalton fará parte do time azul, Paulo virá para o time azul e Eva ocupará o espaço dele no time verde. – Samuel conclui e eu comemoro, Eu sou do time azul e acabei de ser livrado de um peso morto. Eva.
           O arbitro, que já é contratado do clube em que a quadra em que jogamos fica, apita.
           O time verde sai com a bola.
           Fico no campo de defesa, mas não corro para a bola, pois vejo que Carlos está fazendo uma boa marcação e que não vai demorar muito para que ele consiga toma-la.
           Assim que Carlos tira a bola do time adversário, começo a correr para o lado adversário, colocando-me a disposição do toque de bola, Carlos começa com uma jogada individual, mas logo vê que não poderá seguir assim, pois Ricardo o marca forte. Posiciono-me mais próximo de Carlos, e ele, quando me vê, passa a bola.
           A adrenalina toma conta de mim, posso fazer o gol mais rápido do ano, do nosso grupo, estou quase chegando à grande área quando sou cortado bruscamente por... Eva. Perco a bola e, por mais que eu tente não demonstrar, o meu chão também.
           Eu perdi a oportunidade fazer um gol para uma garota?
           Ela passa a bola para Gustavo, do seu time, sem demorar muito e olha para mim com um sorriso maldoso no rosto, talvez ela já tenha sentindo minha repulsa por ela, dizem que mulheres sentem essas coisas.
           Vejo que Carlos me olha incrédulo, ele também não crê que perdi a bola para uma garota.
           Gustavo, em uma jogada praticamente solo, faz o primeiro gol do time adversário.
           Voltamos com a bola para o centro da quadra, estou decidido a não deixar-me abalar por Eva e vou recuperar minha estima, farei um gol e este será o mais lindo.
           Carlos sai com a bola e toca para Dalton, ele não é muito ágil, mas por algum motivo, ninguém consegue para-lo. Ele manda a bola para mim, quando já estou perto da grande área, vejo que Eva não está na minha cola novamente, e sinto-me um idiota por achar isso um alívio, eu não deveria ter medo de uma mulher.
           Chuto a gol, mas Daniel, o goleiro, defende, porém ele não agarra a bola, ela volta e no rebote eu chuto novamente, desta vez é gol.
           Comemoro com a galera, grito para extravasar a adrenalina e a raiva. Eu sou um ótimo jogador, só não sou profissional porque não investi nesse meu lado, mas eu sou naturalmente bom, sou demais, sou um deus do futebol amador, nenhuma mulher vai tirar isso de mim.
           A bola volta ao centro da quadra, e desta vez os times ficam num vai e volta do campo de ataque, os goleiros começam a pegar uma bola atrás da outra, sem dar nenhuma chance para ninguém.
           Já estamos quase no fim do primeiro tempo, quando recebo a bola de Carlos. Não estou numa posição que me favorece, pois a marcação está pesada, tento enfrentar a marcação, quero fazer o segundo gol e me colocar logo como artilheiro da partida, mas quase perco a bola no processo, então decido passar a bola para Dalton, que está livre do outro lado, ainda tenho o segundo tempo para fazer mais gols. A marcação corre para Dalton, mas vejo que nem todos vão, Eva fica e me olha profundamente, arrepio-me, ela é bonita, tem um rosto bonito, tem cara de garota inocente, mesmo com seu cabelo cortado bem curto, tipo Joãozinho, que para mim é quase um sinal de rebeldia.
            Seu olhar é forte, dura apenas alguns segundos, mas me dá calafrios.
           Não vejo quando Dalton faz o gol, só percebo que algo aconteceu quando vejo a galera vindo para mim querendo que eu me junte ao abraço.
           Encolho-me com medo.
           _ Cara você está bem? – Carlos pergunta. Eu olho para ele e não consigo responder, estou tremendo, meu coração está acelerado, eu não consigo dizer nada, eu não entendo o que estou sentindo. Eu estou em desespero. _ Roni? Roni? – ele me chama, percebo que ele está preocupado. _ Gente, acho que o Roni não está bem. – Carlos grita e todos param o jogo para vir até a mim.
           _ Dalton, você é médico não é? – escuto Samuel perguntar. Não escuto a resposta de Dalton, mas vejo que todos abrem caminho para que ele se aproxime de mim.
           _ Ele parece estar tendo um ataque. – Dalton diz.
           _ Ataque? – creio que quem pergunta é Daniel.
           _ Deite-se no chão. – Dalton pede e eu praticamente caio feito uma fruta podre. _ Por favor, se afastem, ele precisa de espaço. – Dalton diz e todos dão passos para trás. Eva se aproxima e se ajoelha ao meu lado, Dalton também.
           Eva me olha com um olhar malicioso, ela está gostando de me ver assim.
           _ Eva. – sinto como se Dalton estivesse repreendendo-a.
           _ Fique tranquilo, estou pegando leve com ele, o que ele está sentindo não é nada perto do que eu posso fazer. – ela diz. Ambos conversam baixo, quase sussurram.
           _ Eu sei. O fato de ele estar vivo já me demonstra isso, mas você já pode parar.
           _ Ainda precisamos tirar ele daqui.
           _ Eu o faço desmaiar e pronto.
           _ Do meu jeito já está funcionando.
           _ Você quer dar uma parada cardíaca nele?
           _ Ele não vai ter uma parada cardíaca, eu já disse, estou pegando leve.
           _ O coração dele está a mil.
           _ Porque ele é um bundão medroso. – eu quero brigar, primeiro porque eles querem me levar para algum lugar, querem me raptar, segundo que ambos são dois lunáticos, que merda é essa de que um está me causando ataque e outro pode me fazer desmaiar? É algum tipo de hipnose. E terceiro, ela realmente me chamou de bundão medroso? Ninguém me chama de bundão medroso. Eu sou corajoso, sou macho com M maiúsculo.
           _ Bartolomeu disse sem traumas, você está traumatizando ele.
           _ “Bartolomeu disse sem traumas” – Eva zomba da maneira em que ele diz. _ A única coisa que me impede de te fazer cagar de medo é Bartolomeu. E eu não estou traumatizando-o.
           _ Você traumatiza a todos, Eva. – Dalton diz.

           _ Doutor, ele está bem?  Temos que leva-lo para o hospital? – Carlos pergunta, interrompendo a conversa dos dois.
           _ Sim. – Dalton responde como se não tivesse pensando nisso antes e se como isso pudesse ajuda-lo. _ Leva-lo para o hospital seria ótimo.
           _ Nós levamos. – Eva diz. Pegando o meu braço direito e forçando para cima, para que eu me levante. Porém não levanto. Dalton se junta a ela, e me puxa pelo lado esquerdo, não quero levantar, mas levanto. Samuel se aproxima e os ajuda a me por de pé.
           _ Não, eu levo, sou amigo dele. – Carlos diz.
           _ Não, eu sou médico é melhor eu levar, posso acelerar a consulta dele. – Dalton diz.
           _ Eu acho que um rosto familiar seria melhor para ele. – Carlos insiste.
           _ Devíamos ir todos. – diz Samuel.
           _ Vinte e duas pessoas num hospital, só porque um cara de 23 anos está tendo um ataque? – Dalton pergunta em tom de menosprezo.
           Vejo que alguns se olham concordando com Dalton. Será que eles não me olham? Não veem minha cara de desespero? Eles precisam me tirar da mão desses dois!
           E espera.
           Como ele sabe minha idade?
           _ Nós o levaremos, somos novos no grupo, não faremos falta e vocês podem voltar a jogar. – Dalton diz.
           _ Não, não vamos jogar com um dos no hospital. – Samuel diz.
           _ Podemos leva-lo. E vocês podem ir para casa. – Nunca agradeci tanto a existência de Carlos.
           _ Se eu fosse vocês eu parava de falar.
           _ Eva. – Dalton repreende. Todos a olham com o cara de quem não entendeu o que ela quis dizer.
           _ Não está adiantando, Dalton. – ela responde.
           _ Não, Eva. – ele fica estressado.
           Paro de sentir medo, paro de tremer e paro de sentir como se meu coração estivesse querendo sair do meu peito e a secura em minha boca para de incomodar.  Sinto até mesmo que posso voltar a falar.
           Mas vejo que algo aconteceu.
           Alguns começam a correr para todos os lados, gritando de pavor. Vejo Samuel, estagnado no mesmo lugar, seus olhos estão esbugalhados e ele treme. Daniel está encolhido no chão. Rafael urina na roupa sem nem ver. Vejo Gustavo batendo sua cabeça na trave do gol, ele bate forte, logo começará a sangrar.
           _ O que está acontecendo? – eu deixo escapar, não sinto mais o pavor de antes, mas ver todos meus amigos assim, me assusta.
           Olho para Eva, que ri, e Dalton que não parece surpreso com o que vê. De alguma maneira eles que estão fazendo isso, não sei como isso é possível, mas eu tenho que me livrar deles.
           Começo a correr.
           _ Você tirou o efeito dele? – escuto Dalton reclamar com Eva.
           _ Ops.- ela ri.
           Caio no chão quando já estou quase saindo da quadra. Olho para trás e Eva e Dalton se aproximam sem pressa. Tento arrastar-me, para continuar fugir, já que não consigo me levantar, mas meus braços não têm forças para me tirar do lugar.
           Os dois chegam até a mim.
           _ Quem são vocês? – pergunto.
           _ De certa forma. – Dalton diz, deixando algumas caretas escaparem. _ Somos o mesmo que você. Você só não sabe disso ainda.

Continua

Mais um capítulo, mas um sequestro, ou seria captura? Bom, vocês decidem como chamar.
Espero que tenham gostado.
Sei que este blogger é dedicado a histórias/fanfics, mas quem me conhece, mesmo que apenas pela internet, sabe que eu também canto e componho e que esta também é uma grande paixão minha, pois isso eu vejo pedir para vocês que me ajudem nesse projeto.
Preciso do voto de vocês.
Para quem quiser me ajudar, é só entrar neste link (http://www.queremos.com.br/venue/nowunitedbrhttp://www.queremos.com.br/venue/nowunitedbr) e votar em Nanda Neves. Caso você não tenha conta neste site, você pode loggar com conta do Facebook ou Twitter e fica tudo bem fácil. Amanhã farei um post aqui explicando melhor.
Espero que vocês possam me ajudar nessa também.
Muito obrigada.


Fernanda: Jura? Gente, somos xarás. E você é de onde? Tipo é do Brasil também? Muito obrigada por comentar, Bjss (e se você tiver um tempinho extra e quiser votar em mim, agradeceria em dobro J)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

4. Jenny



sexta-feira

           “Tradições devem ser seguidas, elas nos mantem em ordem, nos ensina e nos conforta, agradam aos mais velhos e engrandece aos jovens. Tradições devem ser seguidas!” – minha mãe sempre faz questão de me lembrar disso, porém suas palavras chegam aos meus ouvidos, mas nunca ao meu coração.
           Existem poucas ocasiões e lugares que posso me livrar das rédeas da tradição extremista de minha família, e ser quem eu gosto de ser: livre e forte, onde minha voz e meu espírito podem voar junto ao vento, sem medo de causar estragos.
           O sino da escola ainda nem mesmo esfriou, mas eu já me encontro do lado de fora do prédio, este é meu último ano, o que é bom, mas não sei se poderei continuar estudando, pelo que aprendi, o meu destino não é dentro de uma empresa, mas sim dentro da cozinha.
           Não posso correr pelas ruas, pois não fui ensinada a tal, devo manter meus passos curtos, minha cabeça curvada, o chão é a minha vista, “Cabeça erguida não é coisa de menina que se prese” – meu pai fala. Todas que conheço são assim: minha mãe, minhas professoras, minhas colegas de classe. Esta regra não se aplica a meu irmão adotivo, Yudi, ele é um bom rapaz, mesmo as regras e tradições o privilegiando, ele tampouco gosta muito delas, claro que ele não diz isso a nosso pai ou mãe, pois é o segundo homem da casa, o que é muito importante, mas isso não o faz o líder, e não o livra das punições. Ainda assim, é Yudi que me apresentou a minha liberdade, ele que me ajuda a treinar sem que nossos pais desconfiem, ele é um bom homem.
           A placa na porta é pequena, não chama muita atenção, mesmo estando numa rua movimentada, poucos param para ler o nome, as outras placas, que durante a noite brilham feito fogos de artificio, a mascaram. Pequena, pintada a mão, com uma pequena luz comum em cima, para que quando a noite chegar ainda se possa ler o que está escrito, sem jeito é rustico e um pouco bruto, combina com o local.
           Abro a porta de madeira e ela range feito uma velha zangada, e a fecho, assim que entro no prédio. Logo na estrada vejo-me diante de uma escadaria, estreita, com escadas de madeira, que também rangem e que não passam a ideia de segurança. Aproveito-me de minha baixa estatura e magreza para pular sobre elas ao subi-las, mesmo sabendo que caso eu venha a cair ou alguma delas venha a quebrar, eu terei muito trabalho para explicar a meus pais o porquê do meu machucado. “Se ficar marca, como que um homem vai querer olhar para você?” – fico na duvida se esta frase seria dita por meu pai ou por minha mãe, tenho a impressão que seria dita pelos dois.
           Assim que chego ao final da escadaria, já sinto meu coração pulsar forte, alguns odeiam esta sensação, mas eu gosto, pois ela significa que eu corri, que eu pulei, que eu estou livre e viva.
           A academia é grande, há vários tatames e sacos de pancada pendurados pelo espaço, os pesos pendurados na parede são as únicas decorações permitidas por aqui, há também foto de alguns lutadores e mestres que passaram e que ainda estão por aqui.
           A luz que vem de fora é baixa, pois mesmo estando no segundo andar do prédio, os outros edifícios conseguem tampar o sol, então as lâmpadas que ficam sempre balançando pelo teto, em cima dos tatames quase sempre ficam ligadas, mesmo durante a tarde, como agora.
           _ Olá Jenny. – diz Sean, assim que me vê. Sean não é daqui. Seus olhos redondos deixam isso bem claro, mas ele tem uma fascinação por nossa terra e por nossa cultura. Gosto de pensar que ele já viveu por aqui em outras vidas, e que durante essas outras vidas ele foi bem feliz, por isso, mesmo agora tento nascido longe, praticamente do outro lado do mundo, Sean não conseguiu se afastar completamente de quem um dia foi nem de onde um dia viveu, e por isso veio, voltou a sua antiga casa. _ Pensei que seu irmão viria com você. – ele diz.
           _ Não, ele irá vir me buscar. – digo. _ Ele teve que acompanhar meu pai na empresa hoje. –  faço uma careta, quase que involuntariamente. Sean ri.
           _ Você queria ir também? – pergunta.
           _ Não. – dou de ombros. _ Prefiro estar aqui. – digo e isso é verdade. Eu gostaria de assumir algum cargo na empresa de meu pai futuramente, mas entre estar lá, aprendendo a entender os números nos intermináveis papeis e estar aqui, treinando, aperfeiçoando meus movimentos, ganhando força, sendo livre... Prefiro estar aqui.
           _ Isso é bom. – ele diz e sorri.
           _ Vou me trocar. – digo, ele assente e volta a bater no saco de pancadas.
           Vou até o banheiro que fica no fundo da academia, existe o banheiro masculino, que até mesmo a porta é grande e o feminino, que há uma torneira e dois pequenos boxes, não posso reclamar, pois sei que o publico feminino aqui é pequeno, somente eu e mais duas outras garotas se atrevem a lutar, e homens passam por aqui o tempo todo, no dia de torneios e lutas, posso ver centenas deles.
           Tiro minha blusa branca, com cuidado, não posso deixa-la sujar, a dobro e coloco-a na sacola que eu trouxe, ponho-a na sacola, tomando cuidado para não amassa-la, tiro minha saia vermelho escuro, rodada e de pregas, com o mesmo cuidado, mas nem tanto, pois sei que este já não amaça tanto, eu coloco-a junto à blusa, dentro da sacola. Dentro de outra sacola tiro meu Quimono. O visto sem muita pressa, gosto de sentir a sensação do toque do pano em minha pele, o tecido é macio, mesmo o tecido sendo grosso, eu o sinto ele leve em meu corpo.
           Saio do banheiro e coloco minha mochila no escaninho, que fica bem a frente dos banheiros.
           Quando volto a parte da academia Sean ainda bate no saco de pancadas e há um outro homem se alongando perto de um dos tatames. Eu não o conheço.
           Começo a alongar-me também, porém mantenho-me mais perto de Sean do que do outro homem.
           _ Esta é a garota que eu te falei. – Sean diz, parando de socar, e eu levo um susto, quase me desequilibrando, ao levantar uma das minhas pernas até minha mão, para alongar alguma parte do corpo (que esqueci qual que é nessa posição, mas sempre gosto de fazer).
           _ A garota do Jiu-Jitsu. – home desconhecido diz, já acabando com seu alongamento. Ele se aproxima de nós, e sorri simpático, ele também não é daqui, além de ter olhos redondos e claros, ele ainda é loiro. _ Posso treinar com você hoje? – ele pergunta. Olho de relance para Sean, apenas três pessoas topavam lutar ou treinar comigo, Sean, meu irmão Yudi, e Naomi, uma das poucas garotas que treinam por aqui, também tem o professor Iori, mas ele tinha esta obrigação, afinal, alguém teria que me ensinar.
           _ Ele parece ser ruim, ótimo para dar uma surra. – Sean brinca e ambos riem, me permito a rir também, mas acabo abaixando a cabeça, o que me deixa irritada, nem mesmo quando estou livre, consigo me livrar totalmente das tradições.
           _ Deixe-me terminar o alongamento. – digo. _ E irei treinar com você. – ele assente.
           _ Pode ser no primeiro tatame? O mais perto da janela? – ele pergunta.
           _ Sim. – respondo apenas.
           Alongo meus braços e por último minhas panturrilhas.
           Vou até o tatame e encontro o homem desconheci já lá.
           Ele estende sua mão, para me cumprimentar.
           _ Que falta de educação a minha, meu nome é Dalton. – ele diz. Eu olho para sua mão estendida, e até mesmo penso em estender a minha também, mas não, eu apenas me curvo lentamente, este é o meu jeito de cumprimentar. _ Ah, sim, me desculpe. – ele retira sua mão e se curva rapidamente. _ Estou aqui há pouco tempo, ainda não me acostumei. – ele ri.       
           _ Meu nome é Jenny. – digo, apensar de achar que ele já sabe disso. _ Não tem problema. – digo. _ Vamos começar? – pergunto. Não quero soar apressada, nem mal educada, apenas sei que só tenho uma hora por aqui, e não gosto de perder muito tempo com conversas.
           _ Claro. – ele diz.
           Cumprimentamos em forma de respeito. E começamos a lutar.
           Agarro seu Quimono e ele também agarra ao meu, quero fazer um Ippon Seoi Nage, que é um golpe relativamente fácil, onde tenho que desequilibra-lo e joga-lo ao chão, após iça-lo até meu ombro, ele é bem maior que eu, na verdade quase todo mundo é sempre maior que eu, mas eu sei que se isso não me impede de nada, desde que eu siga a técnica que me foi ensinada, posso executar o golpe que eu bem entender.
           Vendo que não estamos conseguindo nada aqui, solto uma das minhas mãos do colarinho do Quimono dele e tento agarrar o Quimono pela sua manga, ele resiste, mas eu consigo fazer o que eu queria e isso o obriga a dar um passo a frente; com isso consigo passar minha perna entre a sua, que está estendida para frente e me jogo, jogando-o ao chão comigo. Dei meu primeiro golpe.
           Levanto-me, e me sinto radiante, numa luta sei que isso ainda não teria sido grandes coisas, mas num treino permito-me comemorar qualquer golpe que dê certo.
           _ Você é muito boa. – ele diz, se levantando também.
           _ Você parece ser também. – digo, e não estou brincando. _ Só não se arrisca muito, ou talvez você pensou que não precisaria. – falo, pois sei que muitos homens menosprezam a força e habilidade das mulheres, e não ajuda muito que eu sou mulher, jovem e pequena.
           Sean ri ao me ouvir dizer isso, ele sempre gosta de me ver lutando, pois sabe também que a maioria me menospreza e se dá mal no final.
           _ Prometo não ser mais bonzinho. – Dalton diz.
            _ Agradeço. – respondo.
           Voltamos ao treino.
           Dalton consegue agarrar meu Quimono por trás do pescoço, tento não deixa-lo pegar a o meu Quimono pela alça, fazendo o possível para pegar o dele também, mas ele é ágil e quando me dou conta, ele já está girando seu corpo, me desequilibrando e caio ao chão. Ainda assim eu não desisto, tento o trazer junto comigo, ele resiste um pouco, mas consigo usar meu peso para desequilibra-lo e ele cai ao chão também. Ele tenta se levantar, colocar-se sobre mim, para tentar montar em mim, se ele conseguir e se estivéssemos em uma luta, este golpe poderia muito bem lhe dar a vitória.
           Sinto que ele está conseguindo me vencer, mas não desisto. Levanto meu corpo, atrapalhando seus planos e tento reverter a posição, não consigo reverter, mas o obrigo se deitar no chão também e com isso passo minhas duas pernas por cima de seu corpo, e estico sua mão e deito. Faço um golpe de finalização, ou a famosa chave de braço, posso ver que não saiu perfeita, pois não consigo sustenta-lo nessa posição por muito tempo, mas vejo que ele não irá tentar retrucar, já que mesmo conseguindo se livrar de meu golpe, ele não tentar encaixar outro para terminar essa com a vitória.
           Ambos ficamos alguns segundos sentados, e ofegantes no tatame. Mesmo, teoricamente, perdendo, ele parece gostar da luta, eu que, teoricamente estou ganhando, estou amando.
           Sean gargalha ao fundo.
           _ Eu não disse que essa menina é fogo? – ele comemora. Dalton ri.
           _ Você não estava mentindo. – Dalton admite.
           _ Ei Jenny. – Sean grita. _ Vê se o deixa vivo até eu voltar do banheiro. – ele diz, tirando sua luva de boxe.  
           _ Vou tentar. – digo alto.
           Dalton se levanta e eu levanto assim que Sean começa a se retirar para ir ao banheiro.
           _ Eu ainda acho que você está se segurando. – digo.
           _ Já faz cinco anos que não luto. Minha mente se lembra de tudo, mas meu corpo parece ter esquecido um pouco. – ele se justifica e se ajeita. _ Mais uma vez? – ele pergunta já se posicionando, não nos conhecemos, mas ele já sabe que eu não negaria mais uma luta.
           Talvez toda a conversa de “Já não luto há cinco anos e meu corpo não mais se lembra”, tenha sido apenas para me fazer baixar a guarda, pois mal começamos e ele já engata um Ippon Seoi Nage, o mesmo golpe que tentei fazer com ele no começo, mas não consegui. Eu caio, mas novamente não e deixo abater por isso, ele mal respira, quando novamente o jogo ao chão, rolando-me para cima dele e montando nele, esta poderia ser minha vitória, mas ele não deixa que isso aconteça, ele se desvencilha do golpe, e tenta se levantar novamente, vendo que não consegue, ele se ajeita para também me dar uma chave de braço, sinto que vamos ficar nessa de um quase ganha o outro quase ganha, por muito tempo, mas antes que ele finalize eu encontro forças para me soltar de seu golpe mais uma vez, assim que vejo ele não mais conseguirá me vencer com uma chave de braço, esforço-me para não ficar mais em risco de sofrer algum golpe, consigo colocar meu corpo em uma posição de vantagem, vejo que ele acaba se desequilibrando e consigo me posicionar bem o suficiente para dar-lhe o Mata-Leão perfeito, sei que ele sabe disso também, estou prestes a encaixar o golpe do Mata-Leão e ele diz:
           _ Sabe, você teria vencido. – eu encaixo o Mata-Leão e fico sem entender o que ele diz. Eu sei que encaixei o golpe perfeitamente, como assim eu não venci? Ele não tem como sair dessa. Concluo que ele está blefando. _ Se eu fosse humano. – ele diz e eu apago no chão.

Continua

Oi gente, peço perdão, pois hoje vi que coloquei nas datas que postaria este capítulo no dia 4/02, sendo que sempre estou postando nos domingos, então a data correta seria hoje, dia 5/02, sinto muito se alguém ficou esperando por alguma postagem minha, mas aqui está o capítulo espero que tenham gostado. Não se esqueçam de comentar ;)
Muito obrigada.


Anonimo: Se quiser compartilhar alguma teoria comigo, fique a vontade J Muito obrigada por sempre comentar, você me deixa muito feliz. BJSSS 

domingo, 29 de janeiro de 2017

3. Vitório


Sexta-feira

           Comemoro internamente por ter lugares disponíveis para sentar, ao entrar no ônibus, eu estava cansado, o dia tinha sido cheio, complicado, e por mais que o alivio de saber que o fim de semana está logo ali invada minha mente, sou obrigado a voltar para realidade, não existe fim de semana para mim.
                                Durante a semana trabalho num restaurante, começo as 9 da amanhã e fico até as 16 horas, o restaurante é grande e movimentado, muitas vezes, nós, funcionários temos que lidar com pessoas mal educadas, mas jamais podemos reclamar, o cliente é quem tem a razão. Sábado e domingo, no horário em que pessoas da minha idade estão se arrumando parar irem curtir, irem para balada, sair com os amigos, irem a uma festa, eu estou me arrumando para voltar para o restaurante que abre para o jantar.  Sempre vou aos mesmos lugares, sempre sigo as mesmas rotinas, poucos feriados são realmente feriados para mim, e as férias de uma semana e dois dias duas vezes no ano não são capazes de recarregar minha energia nem de me consolar, esta não é a vida em que eu queria viver. Biologia era minha paixão, biologia era meu curso na faculdade, eu deveria estar a meio caminho de me tornar um biólogo, mas tudo tinha sido tirado de mim de forma muito repentina e trágica.
Primeiro veio a doença de minha mãe, depois as dividas e para fechar a morte de meu pai, o meu mundo, e a do meu irmão, tinha virado de cabeça para baixo.
           O ônibus para e eu sei que Gregório irá subir nele agora, mesmo que seja para ficar sentado por apenas dois quarteirões, já que nossa casa não é tão longe daqui. Mas se eu estou cansado, meu irmão está pior, ele trabalha como estocador no supermercado, carregar peso é algo comum em seu trabalho e o fato de que ele começa as 7 e só sai agora, as 16, tendo apenas uma parada pequena para almoço, posso dizer que ele está sempre um caco.
           Vejo que a mulher sentada um pouco a frente olha para trás, assustada, eu sei o que ela está pensando: Mas este mesmo garoto já não entrou no ônibus?
           Gregório e eu somos irmãos gêmeos, ambos com 20 anos, temos os mesmos 1,72 metros, nós dois somos loiros, os mesmos olhos castanhos, o mesmo rosto, tentamos nos diferenciar como podemos. Desde que crescemos sempre cortamos o cabelo de maneira diferente, enquanto o meu é grande, deixei crescer até quase o ombro, o de meu irmão é mais curto, não muito abaixo de sua orelha.  E sempre nos vestimos de maneira diferente, apesar de termos gosto muito parecido na questão de roupa.
           Gregório senta do meu lado e bufa cansado.
           _ Eu não acredito que terei que voltar aqui amanhã. – ele se afunda na cadeira, ficando mais a vontade, porém com uma postura péssima.
           _ Pelo menos você terá o domingo livre. – digo e ele olha para mim.   
           _ Semana que vem você entra de férias, eu não.
           _ De uma semana, quando você entrar, suas férias durará um mês.
           _ Você quer competir quem está mais ferrado? – ele se irrita.
           _ Não. – eu digo. _ Você está mais mesmo. – assumo e ele bufa novamente.
           _ Isso um dia vai acabar? – ele pergunta e eu fico sem resposta.
           _ Vamos. – digo após um tempo. _ Já é o nosso ponto.
           Gregório levanta a contra gosto e descemos do ônibus. Temos que descer a rua para chegar onde moramos, não é uma caminhada longa, não é nada cansativo, porém sempre hesitamos antes de começar.
           Nossa mãe havia perdido muito em pouco tempo. Sua doença levou sua vitalidade, emprego e cabelos, o destino levou seu marido de toda a vida e sua felicidade, tudo o que ela tinha agora era a nós, seus dois filhos cansados. Chegar em casa, para nós, não é o fim do trabalho, mas sim o começo de um trabalho diferente, tentar anima-la não é uma missão fácil, mas é tudo o que queremos fazer, queremos ter a nossa mãe feliz novamente, a mãe que sempre estava disposta ao acordar, que sorria do nada, simplesmente porque queria, queremos a mãe que iria brigar com a gente quando entrasse em nosso quarto que está uma verdadeira zona, queremos a mãe que sempre saia na rua para comprar pão, ou algo assim, as vezes nem precisava ir para algum lugar especifico, ela só queria sair, ver a luz do sol tocar sua pele clara, sentir o vento fresco que vem do mar, que não fica muito longe de onde vivemos, ela gostava de dar ‘bom dia’ a todos que passavam, ela conhece a  maioria das pessoas que moram perto, todos torcem por ela, todos a querem bem, mas nada disso parece ser suficiente mais.
           _ Em algum momento temos que chegar lá. – Gregório diz.
           _ Sim. – concordo, mas não me movo. _ Isso um dia vai acabar. – eu digo.
           _ Quando? – Gregório pergunta.
           _ Eu não sei. – respondo. _ Mas isso um dia terá que acabar. – falo e dou o primeiro passo para frente. Gregório me acompanha.

           _ Olá garotos. – diz Emanuel, assim que atravessamos a rua e chegamos a calçada do outro lado. Ele tem uma floricultura na rua de nossa casa, velho, porém muito simpático, sempre que pode tenta nos ajudar. _ leve esta rosa a mãe de vocês. – ele diz, pegando uma rosa branca e entregando-me. _ Ela gostava muito dessas. – diz sorrindo.
           _ Isso é muito gentil da sua parte, Emanuel. – digo.
           _ É um presente, o aniversario dela está chegando, não está? – pergunta. _ Seu pai sempre comprava rosas nessa época do ano.
           _ Todos os dias, durante toda a semana. – Gregório relembra.
           _ Sim. – Emanuel confirma. _ Sempre rosas brancas, e no ultimo dia ele comprava um buquê, e ia à padaria e comprava uma caixa grande de bombons. – ele lembra. _ Eu sei que não será igual, mas leve a rosa, mantenham a tradição. – ele diz. _ Isso pode alegra-la um pouco. – conclui.
           _ Não temos dinheiro para lhe pagar agora. – Gregório diz.
           _ Não, não, não. – Emanuel fala com certa urgência. _ Nada de dinheiro, é meu presente. Seus pais já me ajudaram quando precisei também, não tenho condições de fazer muito, mas posso dar essa rosa, e sei que isso significará muito.
           _ Muito obrigada, Emanuel. – vejo que os olhos de Gregório mareiam. Logo ele o irmão durão.
           _ Ei, durante a semana, sempre parem aqui, eu irei fornecer mais, sempre as mais bonitas. – ele diz sorrindo.
           Foi difícil de sair da floricultura de Emanuel. A lembrança de nosso pai ainda é dolorosa.
           Descemos mais a rua e recebemos vários “Bom Dia” e olhares de compaixão.
           Destranco a porta para entrar em casa. Gregório entra e já corre para dentro. Ele tem essa mania, sempre enrolamos para chegar, mas quando chegamos corremos para saber se está tudo bem.
           Tranco o portão, mas não corro para dentro, fico olhando para a rosa em minha mão. Emanuel provavelmente já estava esperando por nós, pois já havia retirado os espinhos, trabalho que ele só faz, quando se confirma a venda.
           Não sei se Gregório estava como eu, mas eu me sentia tão cansado que por um momento havia esquecido a data que se aproximava. Não temos o costume de fazer grandes festas na minha família, mas temos pequenas tradições ou manias que sempre repetíamos na semana e no dia do aniversário de algum de nós.
           Meu pai sempre foi o que mantinha tudo organizado e ele realmente seguia as tradições, todo aniversario de minha mãe, ele trazia as rosas brancas, uma por dia durante toda a semana e no dia do aniversario dela, um buquê e a caixa de bombom. No fim do dia íamos a um restaurante, o que minha mãe quisesse, e lá comíamos feito reis. No meu aniversario e no de Gregório, mamãe passava a semana fazendo nossos pratos prediletos, mesmo que isso significasse fazer duas coisas totalmente diferentes, e nosso pai, sempre dava um jeito de sair mais cedo do trabalho e nos levava para jogar futebol, ou basquete e soltar pipa na rua de trás da nossa casa, era legal, pois ele sempre trabalhava muito e essa era a semana que mais o víamos em casa, no dia do nosso aniversario sempre acordávamos com um bolo para cada um, meu pai tirava folga de um dia e nossa mãe, quando ainda trabalhava, ia trabalhar mais tarde. Enquanto nossa mãe trabalhava, íamos com nosso pai para a praia, entravamos no mar, jogávamos futebol na areia, simplesmente conversávamos, no fim da noite podíamos sair para onde quiséssemos, eu e meu irmão gostávamos de ir para o boliche, então quase sempre passávamos a noite de nosso aniversario lá, às vezes levávamos alguns amigos conosco, mas na maioria das vezes era algo entre a família, sem ninguém de fora. No aniversario de nosso pai era um pouco mais complicado, ele não gostava de muitas coisas, então durante a semana mamãe sempre inventava algo, algum tipo de surpresa, eles saiam sozinhos ou junto com nós, íamos a lugares diferentes, comíamos coisas diferentes, visitávamos cidades vizinhas, e no dia do aniversário dele sempre era um bolo e uma noite a sós com nossa mãe, eu e meu irmão sempre dormíamos fora de casa, quando menores íamos para casa da nossa avó ou tia e quando crescemos íamos para casa de amigos ou da namorada que estivéssemos no momento. Tudo para não nos traumatizarmos. Sei o que nossos pais fizeram para nos ter, mas não preciso presenciar isso no quarto ao lado.
           Nesse ano não teríamos nada disso.
           Descido entrar em casa. Ficar ali relembrando me fez começar a chorar.
           Limpo as lágrimas ao passar pela porta, e encontro já na sala a TV ligada. Isso é normal, sempre que chegávamos nossa mãe está vendo algo na televisão, porém mesmo com a TV ligada, não a vejo sentada no sofá.
           _ Mãe? – chamo-a. Olho para a mesa e vejo que não há lanche pronto e isso é um sinal ruim, nossa mãe, quando acorda bem, sempre nos faz lanche para quando chegarmos cansados, comermos, porém no dia em que ela está muito triste, triste demais para se quer conseguir levantar da cama, ela não faz o lanche. _ Gregório? – o chamo e subo as escadas para o segundo andar, onde ficam os quartos.
           Assim que chego, levo um susto.
           Vejo Gregório desmaiado no chão.
           _ Gregório! – grito e vou até a ele. Balanço-o para ver se ele acorda, tento apertar seu pulso para ver se ele está vivo, no nervosismo não consigo sentir nada, mas ao tocar em seu rosto sinto o ar saindo pelas suas narinas. Ele está vivo.
           Ainda assim minha cabeça roda, eu fico imaginando o que pode ter acontecido. Ele teria passado mal? Talvez algo no trabalho, ele carrega muito peso de vez em quando, ele podia ter deslocado algo? Mas deslocar algo pode causar desmaio?
           Tento lembra-me se ele parecia passar mal enquanto vínhamos para cá, mas não consigo detectar o momento em que ele deixa transparecer que algo de errado estava acontecendo.
           _ Gregório. – grito novamente. Quero descer, para pegar o telefone e ligar para a emergência, mas antes corro até o quarto de nossa mãe, talvez ela soubesse como nos ajudar e quem sabe, mesmo estando em seus dias ruins, ela levantaria da cama e ajudaria.
           Vou até lá e abro a porta, mas não a vejo de imediato.
           _ Mãe? – a chamo.
           Fico assustado, mas penso: será que ela saiu de casa? Será que ela estava se sentindo melhor e saiu para caminhar? – uma leve onde de animação me inunda, só de pensar que talvez minha mãe estivesse melhor.
           Minha alegria não dura muito, pois logo escuto sua voz.
           _ Vitório? – ela chama meu nome, bem baixinho. Entro no quarto e vejo-a sentada no canto esquerdo, se espremendo entre a cômoda e a parede.
           _ Mãe? – fico sem entender nada. _ o que está acontecendo? – pergunto. Ela chora e isso corta meu coração.
           Minha mãe estica suas mãos em minha direção, vou até a ela, agacho-me na sua frente e ela toca meu rosto.
           _ Filho. – ela sorri, mas ainda há lágrimas jorrando de seus olhos.
           Vejo que ela olha para minha mão, nem mesmo tinha notado, mas eu ainda seguro a rosa que Emanuel deu, porém o talo agora está quebrado na metade.
           Eu entrego a rosa, e ela tira a mão esquerda de meu rosto para pega-la.
           _ Gregório está desmaiado no corredor, temos que ajuda-lo. – eu digo com urgência. Minha mãe me olha e sorri fraco.
           _ Eu sei. – ela diz triste. _ Chegou o dia. – ela fala.
           _ Do que você está falando mãe? O que está acontecendo? – pergunto.
           _ Não adiantou fugir. – ela diz. _ Eles nos encontraram. – ela fala. Penso que pode ser alucinação, dizem que a mistura de remédios pode causar isso, ela nunca teve, mas talvez hoje ela tivesse exagerado nas doses e por isso falava nada com nada.
           _ Mãe, eu vou chamar a emergência. – digo.
           _ Não. – ela agarra meu braço, me mantendo no chão, junto a ela. _ Não há o que fazer. – ela diz. _ Eles não irão desistir.
           _ Mãe, por favor, você está alucinando...
           _ Não. – ela me interrompe. _ Eu não também não entendi quando seu pai falou. – ela diz. _ Mas quando vieram nos visitar, falando do plano deles...
           _ O que isso tem a ver com o papai? – pergunto um pouco irritado, eu estava perdendo tempo, eu precisava ajudar meu irmão.
           _ Tudo. Isso... Isso passa. – ela diz. _ É genético, está no seu sangue, é quem você é.
           _ O quê que ‘passa’?
           _ O que tem dentro de você. – ela toca a mão que segura em meu peitoral, onde fica o coração. _ O que você guarda dentro de você passa de pai para filho. – ela diz.
           _ Eu estou doente? – pergunto. _ Por isso Gregório está desmaiado? – insisto. _ Há cura? – pergunto desesperado.  
           _ É algo lindo, mas tome cuidado, use para o bem. – ela diz.
           _ Mãe...
           _ Não, filho, você vai entender. – ela sorri, mas depois começa a chorar compulsivamente. _ Eu só queria que vocês pudessem ficar comigo. – ela diz.
           _ Mãe, eu não vou te abandonar. – eu digo e tento abraça-la, porém ela me afasta e olha para trás. Ela parece ver algo atrás de mim. Quero ver o que é, mas ela volta a segurar meu rosto e me obriga a ficar olhando para ela. _ Feche os olhos.
           _ Mãe...
            _ Feche os olhos Vitório! – ela ordena. Eu não quero, não entendo o porquê de ela estar agindo desta maneira estranha. _ por favor. – ela pede com a voz fraca em meio ao choro.
           Suspiro frustrado por não entendê-la, mas fecho os olhos.
           E não os abro mais.

Continua

Mais um capítulo postado, espero que tenham gostado, comentem o que acharam, quero muito saber a opinião de vocês.
Bjsss


Anônimo: Creio que agora já dá para começar a fazer algumas teorias, mas entendo que ainda não dê pra entender toda a história, mas a partir que mais capítulos forem postados ficará mais fácil fazer teorias. Muito obrigada por comentar. Bjssss