domingo, 12 de fevereiro de 2017

5. Roni



Sábado

           Como sempre, estou atrasado, e como de costume, tampouco me importo.
           Quando estaciono o carro, todos já estão lá. Mesmo sem estar perto deles eu já escuto alguns gritos de ofensa. Eu começo a rir.
           _ A princesa resolveu aparecer é? – Carlos brinca.
           _ Ao contrário de você, tenho mais o que fazer na vida. – respondo-o.
           _ Mais o que fazer? Você dorme o dia inteiro. – agora quem fala é Rafael.
           _ É verdade. – Carlos concorda. Eu acabo rindo, sem ter uma resposta rápida para dar, pois eles estavam certos, eu não faço nada o dia inteiro.
           _ Vocês deveriam se preocupar mais com a vida de vocês. – digo. O tom parece desrespeitoso, mas somos assim, um fala mal e zoa com o outro e todos acabam rindo juntos no final.
           _ ih, a princesa ficou irritadinha? – Carlos começa rir compulsoriamente.
           _ Vamos ver quem vai ser a princesa quando eu fizer meu segundo gol. – digo.
           Todo o sábado nos unimos na quadra do bairro, para jogar uma partida entre os amigos, o time que ganha além de sair com o gostinho saboroso da vitória ainda pode beber no bar, tudo na conta dos que estão no time perdedor, e o artilheiro do jogo pode criar um desafio para quem ele quiser do time adversário pagar. Eu já havia sido o artilheiro várias vezes, eu sou bom no futebol, mas nas últimas duas partidas, eu perdi a artilharia para Artur, que geralmente joga no time adversário.
           Hoje eu cheguei preparado para uma revanche.
           Ajeito minha chuteira e Carlos chega do meu lado.
           _ Tem gente nova hoje. – ele comenta.
           _ Gente nova? – Estranho. _ Não aceitamos gente nova no time, nem tem vaga.
           _ Parece que o Leonardo saiu e, por algum motivo, Vitor cancelou a participação dele, então colocaram outros dois no lugar. – ele aponta para o outro lado da quadra, mostrando-me quem serão os novos jogadores.
           Espanto-me.
           Primeiro vejo um homem, ele é loiro e alto, estou de longe, mas posso ver que ele não pertence ao nosso grupo, ele parece ter quase 40 anos, sendo que eu, com 23 anos, sou um dos mais velhos, mas o que me surpreende mesmo é a figura ao seu lado.
           Seu cabelo preto é bem curto e suas pernas são longas, mas assim que ela se vira de frente, percebo que não estou enganado.
           _ Uma garota? – reclamo. _ Vamos jogar com uma garota no time? – Carlos também faz uma careta rápida.
           _ Dizem que ela é boa. – repete a careta. Ele também não a quer no grupo, posso ver, mas ele está tentando aceitar.
           _ Samuel aceitou isso? – pergunto, ainda não engolindo esta história. Samuel é o líder, não só do nosso time, como dessa reunião que fazemos, ele que aluga a quadra, que organiza os times e, a cada ano, vai atrás de renovar os uniformes. _ Ele nunca deixou uma mulher entrar no time. – digo. _ E existe um motivo para isso. – sei que Carlos me entende.
           _ Sim. Ele está totalmente tranquilo com essa história. – diz.
           _ Será que é namorada dele? – pergunto.
           _ Só se for amante, esqueceu? Samuel é noivo. – Carlos diz.
           _ Eu não vou pegar leve com essa garota, nem passar a bola para ela. – digo.
           _ Deixe alguém escutar isso, vão te chamar de machista. – Carlos ri.
           _ Fazer o quê? Mulher não joga bem mesmo. – dou de ombros.
           Samuel apita no centro do campo.
           _ Hora de começar o jogo, galera. – Ele diz.
           Todos se reúnem no centro do campo.
           _ Todos já devem perceber que temos gente nova aqui. – Samuel diz sorrindo, como se isso fosse algo bom.  _Infelizmente o Leo deixou o grupo, por problemas no joelho, aquela última lesão o pegou de jeito e o Vitor não poderá vir hoje, terá que fazer hora extra no trabalho. Para substitui-los vamos ter dois... – ele para, como se pensasse no que falar. _ Amigos... – ele para novamente, como se as palavras o soassem estranhas. _ Meus... Amigo meus... – ele agora diz mais confiante. Começo a questionar a saúde mental de Samuel. Primeiro ele deixa uma mulher entrar no time, agora ele começa a falar todo estranho. _ São eles Dalton e Eva. – os dois sorriem ao escutarem seus nomes. _ Não se deixem enganar pelas aparecias, eles são bons jogadores. – Samuel diz. _ Sei que tanto Leonardo, quanto Vitor, são do time azul, mas apenas Dalton fará parte do time azul, Paulo virá para o time azul e Eva ocupará o espaço dele no time verde. – Samuel conclui e eu comemoro, Eu sou do time azul e acabei de ser livrado de um peso morto. Eva.
           O arbitro, que já é contratado do clube em que a quadra em que jogamos fica, apita.
           O time verde sai com a bola.
           Fico no campo de defesa, mas não corro para a bola, pois vejo que Carlos está fazendo uma boa marcação e que não vai demorar muito para que ele consiga toma-la.
           Assim que Carlos tira a bola do time adversário, começo a correr para o lado adversário, colocando-me a disposição do toque de bola, Carlos começa com uma jogada individual, mas logo vê que não poderá seguir assim, pois Ricardo o marca forte. Posiciono-me mais próximo de Carlos, e ele, quando me vê, passa a bola.
           A adrenalina toma conta de mim, posso fazer o gol mais rápido do ano, do nosso grupo, estou quase chegando à grande área quando sou cortado bruscamente por... Eva. Perco a bola e, por mais que eu tente não demonstrar, o meu chão também.
           Eu perdi a oportunidade fazer um gol para uma garota?
           Ela passa a bola para Gustavo, do seu time, sem demorar muito e olha para mim com um sorriso maldoso no rosto, talvez ela já tenha sentindo minha repulsa por ela, dizem que mulheres sentem essas coisas.
           Vejo que Carlos me olha incrédulo, ele também não crê que perdi a bola para uma garota.
           Gustavo, em uma jogada praticamente solo, faz o primeiro gol do time adversário.
           Voltamos com a bola para o centro da quadra, estou decidido a não deixar-me abalar por Eva e vou recuperar minha estima, farei um gol e este será o mais lindo.
           Carlos sai com a bola e toca para Dalton, ele não é muito ágil, mas por algum motivo, ninguém consegue para-lo. Ele manda a bola para mim, quando já estou perto da grande área, vejo que Eva não está na minha cola novamente, e sinto-me um idiota por achar isso um alívio, eu não deveria ter medo de uma mulher.
           Chuto a gol, mas Daniel, o goleiro, defende, porém ele não agarra a bola, ela volta e no rebote eu chuto novamente, desta vez é gol.
           Comemoro com a galera, grito para extravasar a adrenalina e a raiva. Eu sou um ótimo jogador, só não sou profissional porque não investi nesse meu lado, mas eu sou naturalmente bom, sou demais, sou um deus do futebol amador, nenhuma mulher vai tirar isso de mim.
           A bola volta ao centro da quadra, e desta vez os times ficam num vai e volta do campo de ataque, os goleiros começam a pegar uma bola atrás da outra, sem dar nenhuma chance para ninguém.
           Já estamos quase no fim do primeiro tempo, quando recebo a bola de Carlos. Não estou numa posição que me favorece, pois a marcação está pesada, tento enfrentar a marcação, quero fazer o segundo gol e me colocar logo como artilheiro da partida, mas quase perco a bola no processo, então decido passar a bola para Dalton, que está livre do outro lado, ainda tenho o segundo tempo para fazer mais gols. A marcação corre para Dalton, mas vejo que nem todos vão, Eva fica e me olha profundamente, arrepio-me, ela é bonita, tem um rosto bonito, tem cara de garota inocente, mesmo com seu cabelo cortado bem curto, tipo Joãozinho, que para mim é quase um sinal de rebeldia.
            Seu olhar é forte, dura apenas alguns segundos, mas me dá calafrios.
           Não vejo quando Dalton faz o gol, só percebo que algo aconteceu quando vejo a galera vindo para mim querendo que eu me junte ao abraço.
           Encolho-me com medo.
           _ Cara você está bem? – Carlos pergunta. Eu olho para ele e não consigo responder, estou tremendo, meu coração está acelerado, eu não consigo dizer nada, eu não entendo o que estou sentindo. Eu estou em desespero. _ Roni? Roni? – ele me chama, percebo que ele está preocupado. _ Gente, acho que o Roni não está bem. – Carlos grita e todos param o jogo para vir até a mim.
           _ Dalton, você é médico não é? – escuto Samuel perguntar. Não escuto a resposta de Dalton, mas vejo que todos abrem caminho para que ele se aproxime de mim.
           _ Ele parece estar tendo um ataque. – Dalton diz.
           _ Ataque? – creio que quem pergunta é Daniel.
           _ Deite-se no chão. – Dalton pede e eu praticamente caio feito uma fruta podre. _ Por favor, se afastem, ele precisa de espaço. – Dalton diz e todos dão passos para trás. Eva se aproxima e se ajoelha ao meu lado, Dalton também.
           Eva me olha com um olhar malicioso, ela está gostando de me ver assim.
           _ Eva. – sinto como se Dalton estivesse repreendendo-a.
           _ Fique tranquilo, estou pegando leve com ele, o que ele está sentindo não é nada perto do que eu posso fazer. – ela diz. Ambos conversam baixo, quase sussurram.
           _ Eu sei. O fato de ele estar vivo já me demonstra isso, mas você já pode parar.
           _ Ainda precisamos tirar ele daqui.
           _ Eu o faço desmaiar e pronto.
           _ Do meu jeito já está funcionando.
           _ Você quer dar uma parada cardíaca nele?
           _ Ele não vai ter uma parada cardíaca, eu já disse, estou pegando leve.
           _ O coração dele está a mil.
           _ Porque ele é um bundão medroso. – eu quero brigar, primeiro porque eles querem me levar para algum lugar, querem me raptar, segundo que ambos são dois lunáticos, que merda é essa de que um está me causando ataque e outro pode me fazer desmaiar? É algum tipo de hipnose. E terceiro, ela realmente me chamou de bundão medroso? Ninguém me chama de bundão medroso. Eu sou corajoso, sou macho com M maiúsculo.
           _ Bartolomeu disse sem traumas, você está traumatizando ele.
           _ “Bartolomeu disse sem traumas” – Eva zomba da maneira em que ele diz. _ A única coisa que me impede de te fazer cagar de medo é Bartolomeu. E eu não estou traumatizando-o.
           _ Você traumatiza a todos, Eva. – Dalton diz.

           _ Doutor, ele está bem?  Temos que leva-lo para o hospital? – Carlos pergunta, interrompendo a conversa dos dois.
           _ Sim. – Dalton responde como se não tivesse pensando nisso antes e se como isso pudesse ajuda-lo. _ Leva-lo para o hospital seria ótimo.
           _ Nós levamos. – Eva diz. Pegando o meu braço direito e forçando para cima, para que eu me levante. Porém não levanto. Dalton se junta a ela, e me puxa pelo lado esquerdo, não quero levantar, mas levanto. Samuel se aproxima e os ajuda a me por de pé.
           _ Não, eu levo, sou amigo dele. – Carlos diz.
           _ Não, eu sou médico é melhor eu levar, posso acelerar a consulta dele. – Dalton diz.
           _ Eu acho que um rosto familiar seria melhor para ele. – Carlos insiste.
           _ Devíamos ir todos. – diz Samuel.
           _ Vinte e duas pessoas num hospital, só porque um cara de 23 anos está tendo um ataque? – Dalton pergunta em tom de menosprezo.
           Vejo que alguns se olham concordando com Dalton. Será que eles não me olham? Não veem minha cara de desespero? Eles precisam me tirar da mão desses dois!
           E espera.
           Como ele sabe minha idade?
           _ Nós o levaremos, somos novos no grupo, não faremos falta e vocês podem voltar a jogar. – Dalton diz.
           _ Não, não vamos jogar com um dos no hospital. – Samuel diz.
           _ Podemos leva-lo. E vocês podem ir para casa. – Nunca agradeci tanto a existência de Carlos.
           _ Se eu fosse vocês eu parava de falar.
           _ Eva. – Dalton repreende. Todos a olham com o cara de quem não entendeu o que ela quis dizer.
           _ Não está adiantando, Dalton. – ela responde.
           _ Não, Eva. – ele fica estressado.
           Paro de sentir medo, paro de tremer e paro de sentir como se meu coração estivesse querendo sair do meu peito e a secura em minha boca para de incomodar.  Sinto até mesmo que posso voltar a falar.
           Mas vejo que algo aconteceu.
           Alguns começam a correr para todos os lados, gritando de pavor. Vejo Samuel, estagnado no mesmo lugar, seus olhos estão esbugalhados e ele treme. Daniel está encolhido no chão. Rafael urina na roupa sem nem ver. Vejo Gustavo batendo sua cabeça na trave do gol, ele bate forte, logo começará a sangrar.
           _ O que está acontecendo? – eu deixo escapar, não sinto mais o pavor de antes, mas ver todos meus amigos assim, me assusta.
           Olho para Eva, que ri, e Dalton que não parece surpreso com o que vê. De alguma maneira eles que estão fazendo isso, não sei como isso é possível, mas eu tenho que me livrar deles.
           Começo a correr.
           _ Você tirou o efeito dele? – escuto Dalton reclamar com Eva.
           _ Ops.- ela ri.
           Caio no chão quando já estou quase saindo da quadra. Olho para trás e Eva e Dalton se aproximam sem pressa. Tento arrastar-me, para continuar fugir, já que não consigo me levantar, mas meus braços não têm forças para me tirar do lugar.
           Os dois chegam até a mim.
           _ Quem são vocês? – pergunto.
           _ De certa forma. – Dalton diz, deixando algumas caretas escaparem. _ Somos o mesmo que você. Você só não sabe disso ainda.

Continua

Mais um capítulo, mas um sequestro, ou seria captura? Bom, vocês decidem como chamar.
Espero que tenham gostado.
Sei que este blogger é dedicado a histórias/fanfics, mas quem me conhece, mesmo que apenas pela internet, sabe que eu também canto e componho e que esta também é uma grande paixão minha, pois isso eu vejo pedir para vocês que me ajudem nesse projeto.
Preciso do voto de vocês.
Para quem quiser me ajudar, é só entrar neste link (http://www.queremos.com.br/venue/nowunitedbrhttp://www.queremos.com.br/venue/nowunitedbr) e votar em Nanda Neves. Caso você não tenha conta neste site, você pode loggar com conta do Facebook ou Twitter e fica tudo bem fácil. Amanhã farei um post aqui explicando melhor.
Espero que vocês possam me ajudar nessa também.
Muito obrigada.


Fernanda: Jura? Gente, somos xarás. E você é de onde? Tipo é do Brasil também? Muito obrigada por comentar, Bjss (e se você tiver um tempinho extra e quiser votar em mim, agradeceria em dobro J)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

4. Jenny



sexta-feira

           “Tradições devem ser seguidas, elas nos mantem em ordem, nos ensina e nos conforta, agradam aos mais velhos e engrandece aos jovens. Tradições devem ser seguidas!” – minha mãe sempre faz questão de me lembrar disso, porém suas palavras chegam aos meus ouvidos, mas nunca ao meu coração.
           Existem poucas ocasiões e lugares que posso me livrar das rédeas da tradição extremista de minha família, e ser quem eu gosto de ser: livre e forte, onde minha voz e meu espírito podem voar junto ao vento, sem medo de causar estragos.
           O sino da escola ainda nem mesmo esfriou, mas eu já me encontro do lado de fora do prédio, este é meu último ano, o que é bom, mas não sei se poderei continuar estudando, pelo que aprendi, o meu destino não é dentro de uma empresa, mas sim dentro da cozinha.
           Não posso correr pelas ruas, pois não fui ensinada a tal, devo manter meus passos curtos, minha cabeça curvada, o chão é a minha vista, “Cabeça erguida não é coisa de menina que se prese” – meu pai fala. Todas que conheço são assim: minha mãe, minhas professoras, minhas colegas de classe. Esta regra não se aplica a meu irmão adotivo, Yudi, ele é um bom rapaz, mesmo as regras e tradições o privilegiando, ele tampouco gosta muito delas, claro que ele não diz isso a nosso pai ou mãe, pois é o segundo homem da casa, o que é muito importante, mas isso não o faz o líder, e não o livra das punições. Ainda assim, é Yudi que me apresentou a minha liberdade, ele que me ajuda a treinar sem que nossos pais desconfiem, ele é um bom homem.
           A placa na porta é pequena, não chama muita atenção, mesmo estando numa rua movimentada, poucos param para ler o nome, as outras placas, que durante a noite brilham feito fogos de artificio, a mascaram. Pequena, pintada a mão, com uma pequena luz comum em cima, para que quando a noite chegar ainda se possa ler o que está escrito, sem jeito é rustico e um pouco bruto, combina com o local.
           Abro a porta de madeira e ela range feito uma velha zangada, e a fecho, assim que entro no prédio. Logo na estrada vejo-me diante de uma escadaria, estreita, com escadas de madeira, que também rangem e que não passam a ideia de segurança. Aproveito-me de minha baixa estatura e magreza para pular sobre elas ao subi-las, mesmo sabendo que caso eu venha a cair ou alguma delas venha a quebrar, eu terei muito trabalho para explicar a meus pais o porquê do meu machucado. “Se ficar marca, como que um homem vai querer olhar para você?” – fico na duvida se esta frase seria dita por meu pai ou por minha mãe, tenho a impressão que seria dita pelos dois.
           Assim que chego ao final da escadaria, já sinto meu coração pulsar forte, alguns odeiam esta sensação, mas eu gosto, pois ela significa que eu corri, que eu pulei, que eu estou livre e viva.
           A academia é grande, há vários tatames e sacos de pancada pendurados pelo espaço, os pesos pendurados na parede são as únicas decorações permitidas por aqui, há também foto de alguns lutadores e mestres que passaram e que ainda estão por aqui.
           A luz que vem de fora é baixa, pois mesmo estando no segundo andar do prédio, os outros edifícios conseguem tampar o sol, então as lâmpadas que ficam sempre balançando pelo teto, em cima dos tatames quase sempre ficam ligadas, mesmo durante a tarde, como agora.
           _ Olá Jenny. – diz Sean, assim que me vê. Sean não é daqui. Seus olhos redondos deixam isso bem claro, mas ele tem uma fascinação por nossa terra e por nossa cultura. Gosto de pensar que ele já viveu por aqui em outras vidas, e que durante essas outras vidas ele foi bem feliz, por isso, mesmo agora tento nascido longe, praticamente do outro lado do mundo, Sean não conseguiu se afastar completamente de quem um dia foi nem de onde um dia viveu, e por isso veio, voltou a sua antiga casa. _ Pensei que seu irmão viria com você. – ele diz.
           _ Não, ele irá vir me buscar. – digo. _ Ele teve que acompanhar meu pai na empresa hoje. –  faço uma careta, quase que involuntariamente. Sean ri.
           _ Você queria ir também? – pergunta.
           _ Não. – dou de ombros. _ Prefiro estar aqui. – digo e isso é verdade. Eu gostaria de assumir algum cargo na empresa de meu pai futuramente, mas entre estar lá, aprendendo a entender os números nos intermináveis papeis e estar aqui, treinando, aperfeiçoando meus movimentos, ganhando força, sendo livre... Prefiro estar aqui.
           _ Isso é bom. – ele diz e sorri.
           _ Vou me trocar. – digo, ele assente e volta a bater no saco de pancadas.
           Vou até o banheiro que fica no fundo da academia, existe o banheiro masculino, que até mesmo a porta é grande e o feminino, que há uma torneira e dois pequenos boxes, não posso reclamar, pois sei que o publico feminino aqui é pequeno, somente eu e mais duas outras garotas se atrevem a lutar, e homens passam por aqui o tempo todo, no dia de torneios e lutas, posso ver centenas deles.
           Tiro minha blusa branca, com cuidado, não posso deixa-la sujar, a dobro e coloco-a na sacola que eu trouxe, ponho-a na sacola, tomando cuidado para não amassa-la, tiro minha saia vermelho escuro, rodada e de pregas, com o mesmo cuidado, mas nem tanto, pois sei que este já não amaça tanto, eu coloco-a junto à blusa, dentro da sacola. Dentro de outra sacola tiro meu Quimono. O visto sem muita pressa, gosto de sentir a sensação do toque do pano em minha pele, o tecido é macio, mesmo o tecido sendo grosso, eu o sinto ele leve em meu corpo.
           Saio do banheiro e coloco minha mochila no escaninho, que fica bem a frente dos banheiros.
           Quando volto a parte da academia Sean ainda bate no saco de pancadas e há um outro homem se alongando perto de um dos tatames. Eu não o conheço.
           Começo a alongar-me também, porém mantenho-me mais perto de Sean do que do outro homem.
           _ Esta é a garota que eu te falei. – Sean diz, parando de socar, e eu levo um susto, quase me desequilibrando, ao levantar uma das minhas pernas até minha mão, para alongar alguma parte do corpo (que esqueci qual que é nessa posição, mas sempre gosto de fazer).
           _ A garota do Jiu-Jitsu. – home desconhecido diz, já acabando com seu alongamento. Ele se aproxima de nós, e sorri simpático, ele também não é daqui, além de ter olhos redondos e claros, ele ainda é loiro. _ Posso treinar com você hoje? – ele pergunta. Olho de relance para Sean, apenas três pessoas topavam lutar ou treinar comigo, Sean, meu irmão Yudi, e Naomi, uma das poucas garotas que treinam por aqui, também tem o professor Iori, mas ele tinha esta obrigação, afinal, alguém teria que me ensinar.
           _ Ele parece ser ruim, ótimo para dar uma surra. – Sean brinca e ambos riem, me permito a rir também, mas acabo abaixando a cabeça, o que me deixa irritada, nem mesmo quando estou livre, consigo me livrar totalmente das tradições.
           _ Deixe-me terminar o alongamento. – digo. _ E irei treinar com você. – ele assente.
           _ Pode ser no primeiro tatame? O mais perto da janela? – ele pergunta.
           _ Sim. – respondo apenas.
           Alongo meus braços e por último minhas panturrilhas.
           Vou até o tatame e encontro o homem desconheci já lá.
           Ele estende sua mão, para me cumprimentar.
           _ Que falta de educação a minha, meu nome é Dalton. – ele diz. Eu olho para sua mão estendida, e até mesmo penso em estender a minha também, mas não, eu apenas me curvo lentamente, este é o meu jeito de cumprimentar. _ Ah, sim, me desculpe. – ele retira sua mão e se curva rapidamente. _ Estou aqui há pouco tempo, ainda não me acostumei. – ele ri.       
           _ Meu nome é Jenny. – digo, apensar de achar que ele já sabe disso. _ Não tem problema. – digo. _ Vamos começar? – pergunto. Não quero soar apressada, nem mal educada, apenas sei que só tenho uma hora por aqui, e não gosto de perder muito tempo com conversas.
           _ Claro. – ele diz.
           Cumprimentamos em forma de respeito. E começamos a lutar.
           Agarro seu Quimono e ele também agarra ao meu, quero fazer um Ippon Seoi Nage, que é um golpe relativamente fácil, onde tenho que desequilibra-lo e joga-lo ao chão, após iça-lo até meu ombro, ele é bem maior que eu, na verdade quase todo mundo é sempre maior que eu, mas eu sei que se isso não me impede de nada, desde que eu siga a técnica que me foi ensinada, posso executar o golpe que eu bem entender.
           Vendo que não estamos conseguindo nada aqui, solto uma das minhas mãos do colarinho do Quimono dele e tento agarrar o Quimono pela sua manga, ele resiste, mas eu consigo fazer o que eu queria e isso o obriga a dar um passo a frente; com isso consigo passar minha perna entre a sua, que está estendida para frente e me jogo, jogando-o ao chão comigo. Dei meu primeiro golpe.
           Levanto-me, e me sinto radiante, numa luta sei que isso ainda não teria sido grandes coisas, mas num treino permito-me comemorar qualquer golpe que dê certo.
           _ Você é muito boa. – ele diz, se levantando também.
           _ Você parece ser também. – digo, e não estou brincando. _ Só não se arrisca muito, ou talvez você pensou que não precisaria. – falo, pois sei que muitos homens menosprezam a força e habilidade das mulheres, e não ajuda muito que eu sou mulher, jovem e pequena.
           Sean ri ao me ouvir dizer isso, ele sempre gosta de me ver lutando, pois sabe também que a maioria me menospreza e se dá mal no final.
           _ Prometo não ser mais bonzinho. – Dalton diz.
            _ Agradeço. – respondo.
           Voltamos ao treino.
           Dalton consegue agarrar meu Quimono por trás do pescoço, tento não deixa-lo pegar a o meu Quimono pela alça, fazendo o possível para pegar o dele também, mas ele é ágil e quando me dou conta, ele já está girando seu corpo, me desequilibrando e caio ao chão. Ainda assim eu não desisto, tento o trazer junto comigo, ele resiste um pouco, mas consigo usar meu peso para desequilibra-lo e ele cai ao chão também. Ele tenta se levantar, colocar-se sobre mim, para tentar montar em mim, se ele conseguir e se estivéssemos em uma luta, este golpe poderia muito bem lhe dar a vitória.
           Sinto que ele está conseguindo me vencer, mas não desisto. Levanto meu corpo, atrapalhando seus planos e tento reverter a posição, não consigo reverter, mas o obrigo se deitar no chão também e com isso passo minhas duas pernas por cima de seu corpo, e estico sua mão e deito. Faço um golpe de finalização, ou a famosa chave de braço, posso ver que não saiu perfeita, pois não consigo sustenta-lo nessa posição por muito tempo, mas vejo que ele não irá tentar retrucar, já que mesmo conseguindo se livrar de meu golpe, ele não tentar encaixar outro para terminar essa com a vitória.
           Ambos ficamos alguns segundos sentados, e ofegantes no tatame. Mesmo, teoricamente, perdendo, ele parece gostar da luta, eu que, teoricamente estou ganhando, estou amando.
           Sean gargalha ao fundo.
           _ Eu não disse que essa menina é fogo? – ele comemora. Dalton ri.
           _ Você não estava mentindo. – Dalton admite.
           _ Ei Jenny. – Sean grita. _ Vê se o deixa vivo até eu voltar do banheiro. – ele diz, tirando sua luva de boxe.  
           _ Vou tentar. – digo alto.
           Dalton se levanta e eu levanto assim que Sean começa a se retirar para ir ao banheiro.
           _ Eu ainda acho que você está se segurando. – digo.
           _ Já faz cinco anos que não luto. Minha mente se lembra de tudo, mas meu corpo parece ter esquecido um pouco. – ele se justifica e se ajeita. _ Mais uma vez? – ele pergunta já se posicionando, não nos conhecemos, mas ele já sabe que eu não negaria mais uma luta.
           Talvez toda a conversa de “Já não luto há cinco anos e meu corpo não mais se lembra”, tenha sido apenas para me fazer baixar a guarda, pois mal começamos e ele já engata um Ippon Seoi Nage, o mesmo golpe que tentei fazer com ele no começo, mas não consegui. Eu caio, mas novamente não e deixo abater por isso, ele mal respira, quando novamente o jogo ao chão, rolando-me para cima dele e montando nele, esta poderia ser minha vitória, mas ele não deixa que isso aconteça, ele se desvencilha do golpe, e tenta se levantar novamente, vendo que não consegue, ele se ajeita para também me dar uma chave de braço, sinto que vamos ficar nessa de um quase ganha o outro quase ganha, por muito tempo, mas antes que ele finalize eu encontro forças para me soltar de seu golpe mais uma vez, assim que vejo ele não mais conseguirá me vencer com uma chave de braço, esforço-me para não ficar mais em risco de sofrer algum golpe, consigo colocar meu corpo em uma posição de vantagem, vejo que ele acaba se desequilibrando e consigo me posicionar bem o suficiente para dar-lhe o Mata-Leão perfeito, sei que ele sabe disso também, estou prestes a encaixar o golpe do Mata-Leão e ele diz:
           _ Sabe, você teria vencido. – eu encaixo o Mata-Leão e fico sem entender o que ele diz. Eu sei que encaixei o golpe perfeitamente, como assim eu não venci? Ele não tem como sair dessa. Concluo que ele está blefando. _ Se eu fosse humano. – ele diz e eu apago no chão.

Continua

Oi gente, peço perdão, pois hoje vi que coloquei nas datas que postaria este capítulo no dia 4/02, sendo que sempre estou postando nos domingos, então a data correta seria hoje, dia 5/02, sinto muito se alguém ficou esperando por alguma postagem minha, mas aqui está o capítulo espero que tenham gostado. Não se esqueçam de comentar ;)
Muito obrigada.


Anonimo: Se quiser compartilhar alguma teoria comigo, fique a vontade J Muito obrigada por sempre comentar, você me deixa muito feliz. BJSSS 

domingo, 29 de janeiro de 2017

3. Vitório


Sexta-feira

           Comemoro internamente por ter lugares disponíveis para sentar, ao entrar no ônibus, eu estava cansado, o dia tinha sido cheio, complicado, e por mais que o alivio de saber que o fim de semana está logo ali invada minha mente, sou obrigado a voltar para realidade, não existe fim de semana para mim.
                                Durante a semana trabalho num restaurante, começo as 9 da amanhã e fico até as 16 horas, o restaurante é grande e movimentado, muitas vezes, nós, funcionários temos que lidar com pessoas mal educadas, mas jamais podemos reclamar, o cliente é quem tem a razão. Sábado e domingo, no horário em que pessoas da minha idade estão se arrumando parar irem curtir, irem para balada, sair com os amigos, irem a uma festa, eu estou me arrumando para voltar para o restaurante que abre para o jantar.  Sempre vou aos mesmos lugares, sempre sigo as mesmas rotinas, poucos feriados são realmente feriados para mim, e as férias de uma semana e dois dias duas vezes no ano não são capazes de recarregar minha energia nem de me consolar, esta não é a vida em que eu queria viver. Biologia era minha paixão, biologia era meu curso na faculdade, eu deveria estar a meio caminho de me tornar um biólogo, mas tudo tinha sido tirado de mim de forma muito repentina e trágica.
Primeiro veio a doença de minha mãe, depois as dividas e para fechar a morte de meu pai, o meu mundo, e a do meu irmão, tinha virado de cabeça para baixo.
           O ônibus para e eu sei que Gregório irá subir nele agora, mesmo que seja para ficar sentado por apenas dois quarteirões, já que nossa casa não é tão longe daqui. Mas se eu estou cansado, meu irmão está pior, ele trabalha como estocador no supermercado, carregar peso é algo comum em seu trabalho e o fato de que ele começa as 7 e só sai agora, as 16, tendo apenas uma parada pequena para almoço, posso dizer que ele está sempre um caco.
           Vejo que a mulher sentada um pouco a frente olha para trás, assustada, eu sei o que ela está pensando: Mas este mesmo garoto já não entrou no ônibus?
           Gregório e eu somos irmãos gêmeos, ambos com 20 anos, temos os mesmos 1,72 metros, nós dois somos loiros, os mesmos olhos castanhos, o mesmo rosto, tentamos nos diferenciar como podemos. Desde que crescemos sempre cortamos o cabelo de maneira diferente, enquanto o meu é grande, deixei crescer até quase o ombro, o de meu irmão é mais curto, não muito abaixo de sua orelha.  E sempre nos vestimos de maneira diferente, apesar de termos gosto muito parecido na questão de roupa.
           Gregório senta do meu lado e bufa cansado.
           _ Eu não acredito que terei que voltar aqui amanhã. – ele se afunda na cadeira, ficando mais a vontade, porém com uma postura péssima.
           _ Pelo menos você terá o domingo livre. – digo e ele olha para mim.   
           _ Semana que vem você entra de férias, eu não.
           _ De uma semana, quando você entrar, suas férias durará um mês.
           _ Você quer competir quem está mais ferrado? – ele se irrita.
           _ Não. – eu digo. _ Você está mais mesmo. – assumo e ele bufa novamente.
           _ Isso um dia vai acabar? – ele pergunta e eu fico sem resposta.
           _ Vamos. – digo após um tempo. _ Já é o nosso ponto.
           Gregório levanta a contra gosto e descemos do ônibus. Temos que descer a rua para chegar onde moramos, não é uma caminhada longa, não é nada cansativo, porém sempre hesitamos antes de começar.
           Nossa mãe havia perdido muito em pouco tempo. Sua doença levou sua vitalidade, emprego e cabelos, o destino levou seu marido de toda a vida e sua felicidade, tudo o que ela tinha agora era a nós, seus dois filhos cansados. Chegar em casa, para nós, não é o fim do trabalho, mas sim o começo de um trabalho diferente, tentar anima-la não é uma missão fácil, mas é tudo o que queremos fazer, queremos ter a nossa mãe feliz novamente, a mãe que sempre estava disposta ao acordar, que sorria do nada, simplesmente porque queria, queremos a mãe que iria brigar com a gente quando entrasse em nosso quarto que está uma verdadeira zona, queremos a mãe que sempre saia na rua para comprar pão, ou algo assim, as vezes nem precisava ir para algum lugar especifico, ela só queria sair, ver a luz do sol tocar sua pele clara, sentir o vento fresco que vem do mar, que não fica muito longe de onde vivemos, ela gostava de dar ‘bom dia’ a todos que passavam, ela conhece a  maioria das pessoas que moram perto, todos torcem por ela, todos a querem bem, mas nada disso parece ser suficiente mais.
           _ Em algum momento temos que chegar lá. – Gregório diz.
           _ Sim. – concordo, mas não me movo. _ Isso um dia vai acabar. – eu digo.
           _ Quando? – Gregório pergunta.
           _ Eu não sei. – respondo. _ Mas isso um dia terá que acabar. – falo e dou o primeiro passo para frente. Gregório me acompanha.

           _ Olá garotos. – diz Emanuel, assim que atravessamos a rua e chegamos a calçada do outro lado. Ele tem uma floricultura na rua de nossa casa, velho, porém muito simpático, sempre que pode tenta nos ajudar. _ leve esta rosa a mãe de vocês. – ele diz, pegando uma rosa branca e entregando-me. _ Ela gostava muito dessas. – diz sorrindo.
           _ Isso é muito gentil da sua parte, Emanuel. – digo.
           _ É um presente, o aniversario dela está chegando, não está? – pergunta. _ Seu pai sempre comprava rosas nessa época do ano.
           _ Todos os dias, durante toda a semana. – Gregório relembra.
           _ Sim. – Emanuel confirma. _ Sempre rosas brancas, e no ultimo dia ele comprava um buquê, e ia à padaria e comprava uma caixa grande de bombons. – ele lembra. _ Eu sei que não será igual, mas leve a rosa, mantenham a tradição. – ele diz. _ Isso pode alegra-la um pouco. – conclui.
           _ Não temos dinheiro para lhe pagar agora. – Gregório diz.
           _ Não, não, não. – Emanuel fala com certa urgência. _ Nada de dinheiro, é meu presente. Seus pais já me ajudaram quando precisei também, não tenho condições de fazer muito, mas posso dar essa rosa, e sei que isso significará muito.
           _ Muito obrigada, Emanuel. – vejo que os olhos de Gregório mareiam. Logo ele o irmão durão.
           _ Ei, durante a semana, sempre parem aqui, eu irei fornecer mais, sempre as mais bonitas. – ele diz sorrindo.
           Foi difícil de sair da floricultura de Emanuel. A lembrança de nosso pai ainda é dolorosa.
           Descemos mais a rua e recebemos vários “Bom Dia” e olhares de compaixão.
           Destranco a porta para entrar em casa. Gregório entra e já corre para dentro. Ele tem essa mania, sempre enrolamos para chegar, mas quando chegamos corremos para saber se está tudo bem.
           Tranco o portão, mas não corro para dentro, fico olhando para a rosa em minha mão. Emanuel provavelmente já estava esperando por nós, pois já havia retirado os espinhos, trabalho que ele só faz, quando se confirma a venda.
           Não sei se Gregório estava como eu, mas eu me sentia tão cansado que por um momento havia esquecido a data que se aproximava. Não temos o costume de fazer grandes festas na minha família, mas temos pequenas tradições ou manias que sempre repetíamos na semana e no dia do aniversário de algum de nós.
           Meu pai sempre foi o que mantinha tudo organizado e ele realmente seguia as tradições, todo aniversario de minha mãe, ele trazia as rosas brancas, uma por dia durante toda a semana e no dia do aniversario dela, um buquê e a caixa de bombom. No fim do dia íamos a um restaurante, o que minha mãe quisesse, e lá comíamos feito reis. No meu aniversario e no de Gregório, mamãe passava a semana fazendo nossos pratos prediletos, mesmo que isso significasse fazer duas coisas totalmente diferentes, e nosso pai, sempre dava um jeito de sair mais cedo do trabalho e nos levava para jogar futebol, ou basquete e soltar pipa na rua de trás da nossa casa, era legal, pois ele sempre trabalhava muito e essa era a semana que mais o víamos em casa, no dia do nosso aniversario sempre acordávamos com um bolo para cada um, meu pai tirava folga de um dia e nossa mãe, quando ainda trabalhava, ia trabalhar mais tarde. Enquanto nossa mãe trabalhava, íamos com nosso pai para a praia, entravamos no mar, jogávamos futebol na areia, simplesmente conversávamos, no fim da noite podíamos sair para onde quiséssemos, eu e meu irmão gostávamos de ir para o boliche, então quase sempre passávamos a noite de nosso aniversario lá, às vezes levávamos alguns amigos conosco, mas na maioria das vezes era algo entre a família, sem ninguém de fora. No aniversario de nosso pai era um pouco mais complicado, ele não gostava de muitas coisas, então durante a semana mamãe sempre inventava algo, algum tipo de surpresa, eles saiam sozinhos ou junto com nós, íamos a lugares diferentes, comíamos coisas diferentes, visitávamos cidades vizinhas, e no dia do aniversário dele sempre era um bolo e uma noite a sós com nossa mãe, eu e meu irmão sempre dormíamos fora de casa, quando menores íamos para casa da nossa avó ou tia e quando crescemos íamos para casa de amigos ou da namorada que estivéssemos no momento. Tudo para não nos traumatizarmos. Sei o que nossos pais fizeram para nos ter, mas não preciso presenciar isso no quarto ao lado.
           Nesse ano não teríamos nada disso.
           Descido entrar em casa. Ficar ali relembrando me fez começar a chorar.
           Limpo as lágrimas ao passar pela porta, e encontro já na sala a TV ligada. Isso é normal, sempre que chegávamos nossa mãe está vendo algo na televisão, porém mesmo com a TV ligada, não a vejo sentada no sofá.
           _ Mãe? – chamo-a. Olho para a mesa e vejo que não há lanche pronto e isso é um sinal ruim, nossa mãe, quando acorda bem, sempre nos faz lanche para quando chegarmos cansados, comermos, porém no dia em que ela está muito triste, triste demais para se quer conseguir levantar da cama, ela não faz o lanche. _ Gregório? – o chamo e subo as escadas para o segundo andar, onde ficam os quartos.
           Assim que chego, levo um susto.
           Vejo Gregório desmaiado no chão.
           _ Gregório! – grito e vou até a ele. Balanço-o para ver se ele acorda, tento apertar seu pulso para ver se ele está vivo, no nervosismo não consigo sentir nada, mas ao tocar em seu rosto sinto o ar saindo pelas suas narinas. Ele está vivo.
           Ainda assim minha cabeça roda, eu fico imaginando o que pode ter acontecido. Ele teria passado mal? Talvez algo no trabalho, ele carrega muito peso de vez em quando, ele podia ter deslocado algo? Mas deslocar algo pode causar desmaio?
           Tento lembra-me se ele parecia passar mal enquanto vínhamos para cá, mas não consigo detectar o momento em que ele deixa transparecer que algo de errado estava acontecendo.
           _ Gregório. – grito novamente. Quero descer, para pegar o telefone e ligar para a emergência, mas antes corro até o quarto de nossa mãe, talvez ela soubesse como nos ajudar e quem sabe, mesmo estando em seus dias ruins, ela levantaria da cama e ajudaria.
           Vou até lá e abro a porta, mas não a vejo de imediato.
           _ Mãe? – a chamo.
           Fico assustado, mas penso: será que ela saiu de casa? Será que ela estava se sentindo melhor e saiu para caminhar? – uma leve onde de animação me inunda, só de pensar que talvez minha mãe estivesse melhor.
           Minha alegria não dura muito, pois logo escuto sua voz.
           _ Vitório? – ela chama meu nome, bem baixinho. Entro no quarto e vejo-a sentada no canto esquerdo, se espremendo entre a cômoda e a parede.
           _ Mãe? – fico sem entender nada. _ o que está acontecendo? – pergunto. Ela chora e isso corta meu coração.
           Minha mãe estica suas mãos em minha direção, vou até a ela, agacho-me na sua frente e ela toca meu rosto.
           _ Filho. – ela sorri, mas ainda há lágrimas jorrando de seus olhos.
           Vejo que ela olha para minha mão, nem mesmo tinha notado, mas eu ainda seguro a rosa que Emanuel deu, porém o talo agora está quebrado na metade.
           Eu entrego a rosa, e ela tira a mão esquerda de meu rosto para pega-la.
           _ Gregório está desmaiado no corredor, temos que ajuda-lo. – eu digo com urgência. Minha mãe me olha e sorri fraco.
           _ Eu sei. – ela diz triste. _ Chegou o dia. – ela fala.
           _ Do que você está falando mãe? O que está acontecendo? – pergunto.
           _ Não adiantou fugir. – ela diz. _ Eles nos encontraram. – ela fala. Penso que pode ser alucinação, dizem que a mistura de remédios pode causar isso, ela nunca teve, mas talvez hoje ela tivesse exagerado nas doses e por isso falava nada com nada.
           _ Mãe, eu vou chamar a emergência. – digo.
           _ Não. – ela agarra meu braço, me mantendo no chão, junto a ela. _ Não há o que fazer. – ela diz. _ Eles não irão desistir.
           _ Mãe, por favor, você está alucinando...
           _ Não. – ela me interrompe. _ Eu não também não entendi quando seu pai falou. – ela diz. _ Mas quando vieram nos visitar, falando do plano deles...
           _ O que isso tem a ver com o papai? – pergunto um pouco irritado, eu estava perdendo tempo, eu precisava ajudar meu irmão.
           _ Tudo. Isso... Isso passa. – ela diz. _ É genético, está no seu sangue, é quem você é.
           _ O quê que ‘passa’?
           _ O que tem dentro de você. – ela toca a mão que segura em meu peitoral, onde fica o coração. _ O que você guarda dentro de você passa de pai para filho. – ela diz.
           _ Eu estou doente? – pergunto. _ Por isso Gregório está desmaiado? – insisto. _ Há cura? – pergunto desesperado.  
           _ É algo lindo, mas tome cuidado, use para o bem. – ela diz.
           _ Mãe...
           _ Não, filho, você vai entender. – ela sorri, mas depois começa a chorar compulsivamente. _ Eu só queria que vocês pudessem ficar comigo. – ela diz.
           _ Mãe, eu não vou te abandonar. – eu digo e tento abraça-la, porém ela me afasta e olha para trás. Ela parece ver algo atrás de mim. Quero ver o que é, mas ela volta a segurar meu rosto e me obriga a ficar olhando para ela. _ Feche os olhos.
           _ Mãe...
            _ Feche os olhos Vitório! – ela ordena. Eu não quero, não entendo o porquê de ela estar agindo desta maneira estranha. _ por favor. – ela pede com a voz fraca em meio ao choro.
           Suspiro frustrado por não entendê-la, mas fecho os olhos.
           E não os abro mais.

Continua

Mais um capítulo postado, espero que tenham gostado, comentem o que acharam, quero muito saber a opinião de vocês.
Bjsss


Anônimo: Creio que agora já dá para começar a fazer algumas teorias, mas entendo que ainda não dê pra entender toda a história, mas a partir que mais capítulos forem postados ficará mais fácil fazer teorias. Muito obrigada por comentar. Bjssss

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

2. Theodor



Quinta-feira


_ Aquele cara deveria ser você. – assusto-me com a voz de Philip.
_ Não sei do que você está falando. – minto e coloco minha guitarra na case com bastante cuidado, a guitarra é nova, a comprei após um mês inteiro me privando de várias coisas, apenas para juntar dinheiro para compra-la, hoje havia sido a primeira vez que eu a usara no palco e posso dizer que todo sacrifício tinha valido a pena.
_ Aquele cara aos amassos com Sofia, ali no bar. – ele se especifica, deixando-me sem ter onde fugir. Fecho a case e posso dizer que minha parte está terminada.
_ Mas não é. – digo duro. _ E isso não deveria ser da sua conta. – concluo. _ Quer ajuda para guardar sua bateria? – pergunto, querendo mudar de assunto.
              _ Eu realmente não entendo vocês dois. Vocês claramente amam um ao outro, menos vocês mesmos. – ele ignora minha tentativa.
              _ Eu sei que amo Sofia. – deixo escapar baixo.
             _ Se soubesse mesmo não estaria aí, fazendo corpo mole.
              _ Não estou fazendo corpo mole, ela não gosta de mim, simples assim.
_ Não existe isso de “ela não gosta de mim”, todos sabem que você a ama e todos sabem também que ela te ama, o que ela tem é medo de se envolver e você é um besta que não faz nada para concertar isso.
_ E o que você quer que eu faça? Eu que a obrigue a ficar comigo? – irrito-me.
_ Não! Eu quero que você seja o cara que tira todo esse medo dela, quero que a faça superar o passado, é só isso. – ele diz. _ Todo mundo torce por vocês.
Não quero admitir, mas as palavras de Philip me fazem pensar. Eu conheço Sofia faz três anos, não foi amor à primeira vista, mas não demorou mais de um mês para que ela se tornasse meu primeiro pensamento ao acordar.
Nesses três anos criamos uma forte amizade. Eu sei que ela confia em mim mais do que em qualquer um, ela se abre comigo mais do que se abre com qualquer outra pessoa. Eu gosto de crer que temos uma intimidade e uma conexão que só pode ser explicada pelo fato de que nos amamos, mas Sofia gosta de se fazer durona, gosta de agir como a insensível, que não se importa com nada. Se tornar amigo dela, muitas vezes pode ser algo complicado, pois ela pode ser bem bruta quando quer, mas todos sabem que na hora da necessidade ela é a pessoa mais doce e prestativa que existe, e eu sei que Sofia, na realidade, é uma pessoa doce, eu sei que a Sofia bruta é uma mascara, um escudo, uma proteção, eu sei, porque eu a conheço e porque eu a amo, amo muito.
Ano passado, no impulso, eu disse a ela que eu a amava, parecia o certo a se fazer, eu já estava guardando isso comigo por muito tempo, mas a resposta que tive não foi a que eu esperava receber. Ela não quis saber de mim, cheguei a pensar que nunca mais a veria, mas ela não me afastou completamente, apenas deixou claro que o que temos é amizade e que sempre seremos apenas amigos e companheiros de banda, nada mais que isso.
Escuto uma voz feminina gritando.
Não preciso nem olhar para saber de quem se trata.
O bar não está muito cheio hoje, quinta-feira não é dia de muito movimento, então mesmo que ela não esteja gritando muito alto, todos podem escutar sua interjeição.
Eu e Philip pulamos do palco e vamos até o bar.
Empurro o homem de perto de Sofia.
Ele é maior que eu, mas não me importo.
Sou forte também, posso não ser musculoso, mas consigo me garantir numa briga.
_ Theodor, pode deixar, está tudo bem agora. – Sofia diz, atrás de mim.
_ Escutou ela, guitarrista? – diz com desdém. _ Está tudo bem agora.
Sofia cheira a álcool. Ela bebeu durante o show inteiro, o que a deixou bem alterada, e isso ajudou durante sua performance, os poucos que vieram ao bar se animaram durante nossa apresentação, e Sofia, como vocalista, é grande responsável sobre isso, mas agora, está bem claro que a bebida não estava mais a fazendo bem.
Não é a primeira vez que Sofia tem problemas com homens no bar. Ela é bonita.
Um pouco baixinha e com sardas no rosto, isso a deixa com uma aparência inocente, mas Sofia tem um corpo muito bonito, o famoso corpo violão, suas curvas são perfeitas, e o fato de que ela tem várias tatuagens espalhadas pelo corpo, faz com que o ar de inocência suma e lhe dê um ar sensual. Geralmente ela consegue se esquivar de homens mal intencionados, mas algumas vezes ela precisa da nossa interversão. Porém esta e a primeira vez que ela não aceita nossa ajuda logo de cara.
Ignoro ao homem e me volto para Sofia.
_ Sofia, vamos embora. – digo, já pegando seu braço e puxando-a.
_ Ei cara. – o homem me empurra. Solto a Sofia para que eu não caia e a leve junto. _ Ela pediu para que você saísse, não que você a levasse. – ele diz. Phillip fica ao nosso lado, mas não intervém, ele é menor que eu e tem completa aversão a brigas, pois ele sempre perde.
_ Eu não sei quem você é, e sinceramente, pouco me importo, eu só sei que é melhor você se afastar, eu não estou brincando. – digo sério, mas o homem ri.
_ Quem você pensa que é cara? – ele pergunta marrento.
_ Alguém que sabe reconhecer quando uma mulher está sóbria ou não. – digo. _ Simplesmente um homem de verdade.
De canto de olho percebo que Phillip tira Sofia do local, mas creio que enfureci tanto ao homem a minha frente que ele nem mesmo se importa.
O homem vem para cima de mim com um soco, mas desvio, dando um pulo para trás, sei que o seu golpe havia sido forte, pois ao não me alcançar ele quase se desequilibra, pois é puxado para frente pela sua própria força.
Sei que sou forte e que posso lutar contra ele, mano a mano, mas sinto que posso perder muito mais no final, desde um dente até mesmo o emprego de músico aqui no bar.
Tocar é mais um passatempo (e uma maneira de ficar mais tempo perto de Sofia), do que necessidade para mim. Durante a semana trabalho como Programador de Software para uma empresa, se me despedissem daqui por brigar com um cliente, eu não sofreria muito, mas não posso dizer o mesmo dos meus colegas de banda, Phillip também tem um segundo emprego, como repositor de estoques num supermercado, mas Sofia e Lara (a baixista), vivem apenas da música, Lara também faz bico de professora particular de vez em quando, mas para Sofia é apenas música, e mais nada. Prejudica-las não é minha intensão.
Assim que o homem retoma seu equilíbrio ele dispara mais um soco contra mim, o soco é dirigido a meu rosto, desvio novamente, porém não tenho a mesma sorte da primeira vez, este acerta meu ombro em cheio e a dor é bem forte.
_ Vai ficar fugindo é seu frangote? – ele esbraveja.
Isso me atiça, talvez dar só um soco não fizesse mal, não é?
Descido partir para cima também, mas por sorte sou interrompido por George o segurança do bar.
_ Vocês dois, parem agora. – ele exige. George é grande, ele naturalmente causa medo nas pessoas, eu, que o conheço, sei que na verdade ele é tão doce quando uma garotinha de quatro anos de idade, mas o homem que estava brigando comigo não o conhece desse jeito, e ele fica claramente assustado com George.
_ Esse cara está me atrapalhando. – o homem diz. George o ignora.
_ Theodor, é melhor você deixar essa passar. – ele diz baixo, apenas para mim. _ Vá para casa. – sugere.
Não insisto, eu não queria brigar mesmo.
Volto ao palco apenas para pegar a case com minha guitarra e sair do bar. Vou até o estacionamento, lá encontro Phillip e Sofia encostados em meu carro.
_ Ela vai precisar de carona. – Phillip diz. _ A Quitinete dela é totalmente fora do meu caminho. – ele diz, eu sei que é mentira, é um pouco longe de onde ele mora, mas não tão fora de mão assim, Phillip está apenas tentando, mais uma vez, nos aproximar.
Meu carro é pequeno e velho, um Ford Ka, que comprei após juntar vários salários, na época que eu era professor de informática para idosos, ganhava pouco, mas meu trabalho era fácil, então não tinha o porquê reclamar.
Guardo a case na parte de trás do carro, enquanto Sofia senta-se no banco do passageiro, tomo cuidado para que a case não acabe apertando as teclas do teclado que está guardado aqui também. O teclado também é velho, mas tem um ótimo som, Sofia o toca, dependendo o repertório, porém hoje ela não tinha usado ele.
Sento-me no banco do motorista e tento ligar o carro, comemoro internamente quando ele funciona após minha segunda tentativa, pois geralmente preciso tentar umas quatro vezes até ter sinal.
Sofia está sem cinto de segurança, e sua cabeça está encostada na janela do carro, que está fechado do seu lado.
_ Eu não te tirei de lá por mal. – eu digo, puxando um assunto. _ Você verá isso quando acordar amanhã.
_ Eu sei. – ela dá de ombros. _ Não é isso. – ela diz.
_ Então o que está acontecendo? – pergunto.
_ O detetive. – ela começa e logo entendo seu descontrole de hoje, Sofia não é exatamente muito controlada, mas hoje ela tinha ultrapassado vários limites e agora tudo começava a fazer sentido. _ Ele não encontrou nada. – ela diz. _ Novamente. – ela suspira frustrada.
_ Mas você sabia que isso poderia acontecer. Você mesmo disse que não confiava nele. – digo, tentando melhorar a situação.
_ Ele não achou minha mãe, mas achou meu pai. – ela diz e percebo que nada que eu dizer agora irá ajudar.
_ Talvez ela tenha largado ele. – digo. _ Não pense no pior, Sofia.
_ Largado a ele... Abandonado a mim. – ela diz. _Ótimo.
_ Talvez ela também esteja te procurando. – digo.
_ Ela sabe onde eu moro, Theodor, ela não precisa me procurar, se ela está viva, ela sabe onde eu estou. – se irrita e começa a chorar.
_ Sofia... Eu... – eu não sei o que dizer.
_ Eu vou parar. – ela diz. _ Eu passei os últimos quatro anos buscando por ela, quatro anos recebendo nenhuma notícia, gastando o dinheiro que eu não tenho com detetives, a maior parte deles picaretas... Eu procurei médiuns, um charlatão atrás do outro, e agora? Agora eu sei que meu pai está aí, andando para todos os lados como um homem de bem. E minha mãe? Onde ela está? Ninguém sabe ninguém viu.
_ Talvez seja melhor mesmo. – concordo. _ Seguir em frente, quem sabe é só isso que falta? Talvez quando você acalmar ela apareça. – eu digo.
_ Que seja. – ela dá de ombros, nada que eu diga agora irá melhorar seu humor. _ Obrigada por hoje. – ela diz e eu acabo sorrindo de canto.
_ Você sabe que pode contar comigo sempre.
_ Eu sei. Theodor: o protetor. Sempre perto para proteger a todos que precisam. Principalmente a pobre Sofia.
_ Também não precisa ficar caçoando. – digo.
_ Não, não estou zoando com você, estou dizendo a verdade, você sempre quer proteger a todos, sempre pensa nos outros antes de agir, se você quer fazer algo, mas sabe que isso pode prejudicar a alguém, você não faz. Esse é você e isso é algo admirável. – ela diz.
_ Fico feliz que você ache isso.
_ Eu não estou aceitando nada. – ela deixa claro.
_ Eu sei, somos amigos, somente amigos. – não consigo fingir animação, e isso faz Sofia rir.
_ Talvez um dia... – ela começa, mas hesita. _ Eu consiga...
Alguém me corta e eu piso no freio instantaneamente, eu paro, mas encosto na traseira do carro que me cortou.
Puxo o freio de mão, para poder tirar o pé do freio, olho para Sofia e ela bateu a boca no painel do carro.
_ Sofia... – entro em desespero. Vejo que pouco a frente o motorista que me cortou parou o carro. Ele sai e vem em minha direção. Ele é loiro e alto, mas estou tão preocupado com Sofia que não consigo pegar nenhum outro detalhe.
_ Eu estou bem, ela diz. – mas seus lábios sangram. Ela passa a língua pelos dentes. _ estão todos aqui. – sorri, me acalmando e eu acabo rindo também.
Quando olho para fora o homem já está do lado do meu carro.
_ Eu quero conversar. – diz o motorista.
_ Eu vou te passar meu número...
_ Não, não preciso, eu quero conversar. – insiste. Está de noite e as luzes não estão muito fortes, aperto o olho para ver se reconheço o homem, chego a pensar que ele é o mesmo que procurou briga no bar, mas não é.
Ele levanta as mãos e se afasta um pouco do carro.
_ É só uma conversa cara. – diz.
_ Qualquer coisa, grava e chama a policia. – digo para Sofia e ela acena com a cabeça, concordando.
Saiu do carro e vou até o motorista.
_ Desculpa por qualquer coisa, mas foi você que me cortou. – fico na defensiva.
_ Eu sei. – ele diz bem calmo.
_ E o que você quer? – pergunto, sem entender aonde ele quer chegar.
Ele sorri antes de responder.
_ Vocês. – diz apenas. Dou um passo para trás.
_ Eu não tenho nenhum dinheiro. – digo. _ Por favor, somos apenas músicos. – digo, talvez ele ficasse com dó, não é nenhuma novidade que músicos geralmente são pobres e desvalorizados.
_ Eu sei. – ele diz e isso acaba me assustando mais ainda. Olho para Sofia e vejo que ela está desmaiada no banco do passageiro.
 Desespero-me.
_ Sofia!
Vou até a ela, mas caio de joelhos assim que chego à porta do carro.
Vê-la lá, desmaiada me dá forças para tentar levantar, mas não consigo, acabo desmaiando também.

Acordo, mas não tenho certeza.
Sei que já acordei outras vezes, mas todas às vezes pareciam irreais, coisas irreais aconteciam.
Demora um pouco para que eu perceba que desta vez as coisas a minha volta parecem bem reais.
Levanto da cama em que eu estou e o frio me pega em cheio.
Estou em um quarto branco e minimalista.
Vejo que há um homem sentado, frente a uma mesa, a outra cadeira vazia.
Eu não reconheço o homem.
Ele não parece perigoso, mas isso não impede que eu fique com medo.
_ Quem é você? – pergunto.
_ Sente-se comigo, Theodor. – ele me chama pelo nome.
_ Quem é você? – insisto.
A porta do quarto em que eu estou se abre.
O motorista que me fechou entra. Posso reconhecê-lo, pois seu cabelo loiro, quase dourado, é bem característico.
_ Onde está Sofia? – pergunto, agora em alerta.
_ Ela está bem. – o homem sentado me responde.
_ Eu quero vê-la. – exijo.
_ Primeiro eu gostaria de conversar com você.
_ Não. – eu digo. _ de novo não. – foi assim que eu parei aqui, não quero cair nesta armadilha novamente. _ Quem é você? – insisto.
_ Theodor, a questão não é quem eu sou, mas sim quem você é.

Continua

Quero agradecer as visualizações que venho recebendo, e apensar de não ter recebido muitos comentários, espero que o maior número de visualizações da página seja um sinal positivo.
Essa história é bem diferente do que eu costumo escrever por aqui, então sei que pode estar um pouco confuso para quem já me acompanha, mas prometo que tudo ficará um pouquinho mais claro no final e que todo esse “mistério” tem um motivo especial.
Muito obrigada a todos.



Anônimo: kkkkkkk fico feliz que gostou, seu comentário significa muito para mim, espero que goste da história. Muito obrigada. Bjsss

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

1. Megan


Quinta-feira


                  É a terceira chamada, na próxima eu sei que ela entrará no meu quarto, furiosa.
                  Decido levantar da cama, em alguma hora terei que fazer isso mesmo, então eu vou adiantar o começo da minha penúria.
                 Coloco o uniforme da escola, passo a minha base favorita no rosto, uma sombra leve, para destacar meus olhos claros, lápis de olho, uma batom, bem vermelho, como eu gosto, eu passo uma escova no meu cabelo loiro, só para não deixa-lo desgrenhado, mas assim que termino, decido passar uma prancha, é algo rápido, pois meu cabelo já é liso, só preciso tirar as ondulações que se formam quando durmo com ele molhado, o que foi o que aconteceu hoje.
                   Assim que desço para o café da manhã, meu pai me olha e sorri humorado, ele já sabe o que vem por aí e se diverte com isso.
               _ Megan! – minha mãe grita. _ Vá tirar esse batom vermelho agora.
               _ Mãe, me deixa. – viro os olhos e me sento na cadeira para tomar meu café da manhã.
              _ Aron, faça algo. – minha mãe pede.
              _ Filha...
                _ Pai, não há nada demais, todas as meninas na escola usam. – digo e meu pai olha para minha mãe, como sempre ele não consegue se impor.
               _ Eu já fui muitas vezes na sua escola, Megan, e eu não vejo nenhuma menina andando feito uma palhaça como você.
               _ Eu não pareço uma palhaça. – digo pegando uma torrada e passando geleia de morango nela. _ Pareço pai? – mordo a torrada.
                _ Claro que não, filha.
                _ Aron!
             _ Mas, sem duvidas se maquiar assim não é apropriado para o ambiente escolar. – diz, após ser repreendido por minha mãe.
                _ Vocês são dois caretas. – reclamo.
                _ Eu só quero que você se forme logo. – minha mãe resmunga.
                _ Eu também.
                 _ Então vá tirar essa maquiagem, pelo menos o batom.
                 _ Isso não vai me atrapalhar nos estudos, mãe.
                _ Não me fale isso, pois você viu o que aconteceu ano passado. – ela se refere ao fato de eu ter repetido o  ano no último ano da escola, isso junto ao fato de já tido tomado uma repetência antes, no 7º Ano, fez com que eu me tornasse dois anos mais velha que a maior parte das pessoas da minha classe, portanto sou a mais velha.
             _ Ano passado foi ano passado, agora está tudo bem... – digo.
             _ Isso é o que vamos ver.
              _ Você é muito pessimista, mãe, se eu repetir o ano novamente, vai ser por causa do seu agouro.
             _ Agora a culpa é minha?
            _ Claro que é. – riu.
            _ Você sabe que isso é culpa sua. Não sabe? – ela o acusa.
            _ Minha? Mas eu não fiz nada! – meu pai se defende.
            _ Exatamente, você não deu limites a essa garota, por isso ela está assim agora.
            _ Mas...
            _ Sem “mas”, você está no limite para não chegar atrasado ao trabalho e você, mocinha, vá escovar os dentes e corre para o carro, essa sua seção de beleza já lhe atrasou. – ela diz. Volto até meu quarto, mas não é para escovar meus dentes, mas sim para pegar minha mochila e pegar uma bala.
             Coloco a bala na boca e desço direto para a garagem.
              Assim que entro no carro vejo que minha mãe já está lá.
            _ Bala, Megan? De novo? Como você pretende ter dentes aos 30 anos?
            _ Mãe, não exagere.
            _ Não exagere? Eu aposto que se eu te levar no dentista hoje ele vai achar um monte de carie.
            _ Também não é assim. – ela dá partida no carro.
             _ Não é assim? Você precisa ser mais responsável, Megan, próximo ano você irá para a faculdade, como que eu lhe deixo ir se você não sabe cuidar nem dos próprios dentes? – ela indaga.
             _ Eu sei cuidar dos meus dentes, mas você mesmo disse que eu estava atrasada, escova-los só iria me atrasar mais.
            _ Então, da próxima vez, se maquie menos e escove mais os dentes. – ela diz.
            _ Você é muito chata. – digo e conecto meu celular no rádio do carro.
            _ Você e suas músicas sem nexo...
            _ Tem nexo, mãe.
            _ Essa, por exemplo, só têm batidas. Qual o nexo disso? – ela pergunta.
            _ Você sente a batida e quer dançar. – eu digo.
            _ Pois eu prefiro dançar com uma música romântica, com letras românticas... – eu aumento o volume da minha música. _ Não precisa aumentar o volume disso, basta falar que eu entendo. – ela diz.
           _ Ok, mãe, pare de falar. – ela faz cara feia, mas se cala.
        Durante o percurso vejo-a mexendo, levemente, a cabeça ao ritmo da música e quando a música troca, eu a vejo balbuciando a letra completa, mesmo ela tendo reclamado, falando que eu não deveria escutar uma cantora drogada, pois isso é uma má influencia para mim.
        _ Tchau mãe. – digo assim que ela para na porta da minha escola.
        _ Boa aula filha. – ela responde.
        Saio do carro e entro na escola.
        Hoje as aulas são mais “calmas” tenho uma aula de Espanhol no 1º horário, um de Artes no 2º, Filosofia no 3º, uma de física no 4º e dois penosos horários de matemática para terminar.
Após as aulas vou para a lanchonete em que trabalho por meio período durante a tarde. Trabalho lá como forma de punição a minha repetência do ano passado. Sei que se formar nesse ano, eu poderei sair dessa espelunca e isso me atrai mais até que o diploma.
        Chego à lanchonete em que trabalho, eu vou até o vestiário dos funcionários e troco o uniforme da escola pelo do trabalho. Enquanto o uniforme da escola é confortável o da lanchonete, além de feia, é totalmente desconfortável.
        O ambiente da lanchonete tampouco é agradável, tanto que na maior parte do tempo esse lugar anda as moscas.
         Bruno se aproxima do balcão onde estou. Como sempre, ele está  sorridente.
        _ Você ficou sabendo do evento que terá aqui? – ele pergunta.
        _ Que evento? – pergunto já respondendo sua resposta.
        _ Sr. Gonzáles está planejando fazer um evento aqui.
        _ Sr. Gonzáles sempre está planejando fazer algum evento pra ver se alguém encara entrar aqui. – digo. _ E isso nunca vai para frente.
        _ Desta vez parece que é sério, ele mandou fazer cartazes e tudo. – ele diz.
        _ Bom, nunca chegamos a este estagio mesmo. – pondero. _ Será um evento de quê? – pergunto.
        _ Leitura de Poesias. – ele faz careta. _ Eu não entendi muito bem o que isso significa.
        _ Eu tenho quase certeza que Leitura de poesias é basicamente pessoas lendo poesias. – digo obvia.
        _ Ah, eu sei, mas é que parece meio desconfortável vir para uma lanchonete como essa, com o ar-enfeite-condicionado, para alguém ficar lendo poesias. – eu acabo rindo com o “ar-enfeite-condicionado”, essa é uma piada interna que temos por aqui. Estamos no estado mais quente de todo o país, numa lanchonete fechada, em que as únicas fontes de ar corrente são a chaminé da cozinha, uma pequena janela nos banheiros (uma no masculino e uma no feminino), e a porta quando ela está aberta. Claramente que apenas esses buracos não são suficientes para refrescar o ambiente, então o Sr. Gonzáles, dono do estabelecimento, comprou de segunda mão um ar-condicionado e ele mesmo o instalou. Foi um alivio para todos, arrisco-me a dizer que conquistamos alguns poucos cliente com isso, porém toda essa felicidade durou pouco mais de um mês, do nada o ar-condicionado não quis mais funcionar, parou, reclamamos, mas ainda assim não fizeram nada, apenas o deixaram lá, pregado na parede, como um “belo” enfeite. Para se redimir por não chamar ninguém para vir concertar o ar-condicionado, Sr. Gonzáles nos deu um ventilador portátil que funciona a base de pilha. Não é muito útil, mas no desespero...
        _ Eu não sei quem é o louco de fazer isso, mas se tiver algum, ótimo, mais gorjetas. – digo e ele ri concordando.
        _ Lara virá hoje. – ele diz. E eu viro os olhos.
        _ Babe menos. – digo.
        _ Não estou babando. – ele reclama.
        _ “Lara virá hoje” – eu o zoo.
        _ Nossa, você é chata mesmo em? – eu o mostro a língua. Não posso dizer que tenho amigos no trabalho. Lara, que costumava trabalhar por aqui, acredite ou não, por diversão, sempre implicava comigo, nós mais brigávamos do que trabalhávamos, mas de certa forma nos dávamos bem, eu sei, parece confuso, mas funcionávamos juntas. Bruno hoje ocupa a posição dela. Ele não é de brigar, nem de implicar comigo, mas eu implico com ele e muito. Tem Gloria, e ela é insuportável, não nos damos nada bem, só falo com ela quando necessário.
        _ É meu dom. – digo e ele ri.
        _ Você tinha que ter algum, não é? – retruca e eu faço uma careta.
        _ Vou ignorar o que você disse. – digo _ Você deveria falar com ela. – sugiro e ele olha para mim assustado.
        _ Como assim?
        _ Ela vai vim pegar a ultima parte do que o Sr. Gonzáles deve para ela, depois disso, adeus Lara. – digo. _ Pode ser sua ultima oportunidade de chama-la para sair?
        _ Mas... – ele olha para baixo, sem saber o que fazer. _ Você acha que ela vai aceitar? – pergunta por fim. Eu acabo rindo de leve.
        Gosto de brincar com ele, não por maldade, é porque ele é fácil de ser zoado. Mas desta vez eu realmente queria ajuda-lo, pois, no fim de tudo, ele era a única pessoa que conversava comigo por aqui e ele é legal. Posso ter um lado do mal, mas não sou de toda ruim.
        _ E porque não? Vocês dois se davam tão bem. – dou de ombros.
        _ É por que... Você sabe né? A Lara é a Lara e eu? Eu sou eu. – ele sorri cabisbaixo.
        _ Não se diminua assim e muito menos coloque a Lara num altar. – digo rindo. Tudo bem a garota é linda, olhos verdes, pele perfeita... Mas poxa, eu já tinha visto meninas melhores, eu por exemplo.
        Eu acabo rindo com meu próprio pensamento.
        _ Você me acha bonito? – ele pergunta com um sorriso torto. Eu começo a devanear, Bruno não é feio, mas sem duvidas não é bonito. Ele tem um cabelo preto e sedoso muito bonito, e tem olhos castanhos que o deixa com um quê de inocência e isso é fofo, ele tem um corpo bonito, não é musculoso, mas tampouco é gordo, porém ele tem um nariz gigantesco, fino e pontudo. Ele também é extremamente branco, mas por viver quase sempre na praia, sempre está bronzeado, mas quando eu digo bronzeado, eu não digo aquele bronze bonito, eu digo algo vermelho alaranjado. Ele é basicamente um Cheetos humano. _ Eu já entendi. – ele diz cabisbaixo após meu silêncio.
        _ Não, não é isso... É porque você não é exatamente o meu tipo, mas eu acho que você é o da Lara.
        _ Sério? – um sorriso largo brota em seu rosto.
        _ Sério. – eu digo.
        _ Eu poderia convida-la para vir nesse evento que o Sr. Gonzáles está programando para cá, não é?
        _ O de leitura de poesias? – pergunto.
        _ É. – ele dá de ombros.
        _ Você é louco? – pergunto um pouco indignada.
        _ Não é só que... Ah, não sei...
        _ Por favor, Bruno, não me diga que você está com medo de gastar?
        _ Não é como se eu ganhasse muito por aqui, e você como ninguém sabe disso, e a Lara também.
        _ Bruno!
        _ Megan!
        _ Bruno!
        _ Megan!
        _ Bruno! Se for assim eu retiro o que disse.
        _ Megan!
        _ Bruno!
        _ Mas eu não tenho dinheiro.
        _ A Lara pode até não ser como eu, muito... Muito... – tento achar a palavra adequada.
        _ Fútil. – ele completa.
        _ Exigente! – eu o corrijo e ele ri. _ Como eu ia dizendo: A Lara pode até não ser como eu, muito exigente, mas ela vive numa família boa, ela recebia pouco aqui, mas era por simples diversão, não por necessidade, ela está acostumada com coisa muito melhor do que você está querendo oferece-la. – paro de falar quando vejo que ele ficou bem triste.
        _ Você acha que pode me ajudar? – pergunta. Normalmente eu diria que não, mas como fui eu a causar sua tristeza, descido redimir.
        _ Como posso te ajudar? – pergunto.
        _ Você também não trabalha por necessidade. – ele comenta.
        _ Eu sei.
        _ Mas sim por castigo.
        _ Eu sei. – digo um pouco menos paciente.
        _ Você poderia me ajudar a pagar algo melhor...
        _ Você só pode estar brincando.
        _ Só metade, ou só as suas gorjetas, eu fico te devendo uma. – ele implora.
               _ Não deva nada a ela, pois ela cobra com juros altíssimos e injustos. – vejo Bruno ficar branco, mesmo por baixo do seu bronzeado alaranjado.
 É Lara.
               _ Não te falaram que escutar conversa do outros é errado? – eu digo, disfarçando e ela se aproxima, abraçando a Bruno, que ainda não reagiu do susto.
_ Quando se trata de salvar o amigo de pessoas como você. – ela responde fazendo careta.
                _ Toda vez que eu penso que não terei que te ver novamente meu coração palpita de alegria. – eu digo sorrindo falso.
                _ Acredite, o sentimento é reciproco. – ela responde.
                _ Quer saber? Eu vou deixar vocês dois conversando sozinhos e vou trabalhar. – digo.
                _ Trabalhar? Não tem ninguém aqui. – ela diz. _ Você vai entrar em alguma rede social, isso sim.
                _ Como você a aguenta? – dirijo-me a Bruno.
_ Ele é legal, você não. – Lara responde por ele.
_ Tchau para você tá? – digo sem paciência. _ E você, Bruno, hoje eu saio mais cedo. – digo.
_ Isso quer dizer...
_ Sim, isso mesmo, você é legal. – digo e vejo que Lara faz careta. _ Não tenho o porquê ser chata com você.
Digo e entro para parte da cozinha, Glória está por aqui, o que automaticamente deixa o ambiente carregado, mas finjo que não a vejo e começo a mexer no celular.
O dia não exige muito de mim, como sempre, poucos clientes parecem, decido sair duas horas mais cedo do que o normal, já que Bruno irá cobrir esses horários para mim em troca do meu salário e gorjetas.
Ligo para meu pai, para que ele me busque e enquanto ele não chega, troco de roupa, apenas tiro a blusa da lanchonete, já que essa além de apertada e feia, também me espeta.
Quando saio dos banheiros dos funcionários, para ir embora, passo na frente da lanchonete e lá vejo um cliente bem incomum, ele está bem vestido, parece ter dinheiro. Ele é bonito, seu cabelo é loiro, um loiro dourado, incomum, mas lindo.
_ Meu Deus, que homem é esse? – Bruno escuta.
_ Não é? Como um cara desses veio parar aqui? – pergunta.
_ Tinha que ser justo na hora que eu decido sair? – fico injuriada. Bruno ri.
_ Pensa pelo lado positivo, você não está trabalhando, pode ir falar com ele. – sugere.
_ Deu certo com Lara, não deu? – pergunto.
_ Sim. – ele sorri. _ Eu ainda nem acredito.
_ Se eu não tivesse ligado para meu pai, eu até arriscaria, mas se ele descobrir que eu estou dano em cima de um cara mais velho...
_ Seu pai é gente boa.
_ E muito, mas ele é bem ciumento em certos assuntos.
_ Bom, quem sabe ele volta. Aí você tem sua segunda chance.
_ Se depender do clima e da comida ele provavelmente não volta não. – digo e Bruno ri.
_ Tchau Bruno. – digo.
_ Tchau Megan. – ele responde.
Vou até a porta, mas faço questão de mudar a rota, apenas para passar na mesa em que o cliente lindo está sentado, a me ver ele sorri e posso jurar que ele pisca para mim, seus olhos são verdes, um verde penetrante. Me seguro para não pirar, como um homem tão lindo assim pode existir?
Saio e fico na porta esperando por meu pai. Ainda são 17 horas, mas o céu já está quase todo escuro, provavelmente vai chover, o que seria bom, já que está muito quente.
Aguardo por quase 5 minutos, antes de receber o telefonema de meu pai.
_ Pai onde você está? – pergunto
“Filha, onde você e está?” – ele pergunta.
_ Na porta da lanchonete. – digo. _ Como sempre. – completo.
“Não filha, eu estou na porta da lanchonete” – ele diz.
Olho de um lado para o outro, tentando encontrar seu carro, mas não vejo.
_ Pai, eu não estou vendo seu carro. – digo. _ Você tem certeza que está no lugar certo? – pergunto.
“Eu te busco todos os dias, Megan, eu sei onde você trabalha!” – ele se exalta.
_ Pai, se você quiser, eu posso pegar um ônibus. – digo, talvez ele não esteja querendo me buscar e por isso brinca comigo.
“Filha...” – ele para alguns segundos.
_ Sim, pai?
“Você realmente está na frente da lanchonete, não está?” – pergunta, seu tom de voz muda, ele parece preocupado e isso automaticamente me preocupa.
_ Sim. – respondo, estranhando sua pergunta.
“Filha. Corra”
_ Oi?
“Corra”
_ Como assim? Correr para onde? – posso perceber que ele está nervoso, existe uma urgência em sua voz, mas não sei o porquê dele está agindo assim.
“Tente ir para um lugar seguro e quando chegar lá, me diga onde é que eu te busco, mas corra”.
_ Não pode ser para dentro da lanchonete?
“Não, filha, nem para a lanchonete, nem para nossa casa, vá para outro lugar” – fico sem saber o que fazer.
_ Pai, o que está acontecendo?
“Corre, filha, corre!” – ele grita. Eu entro em desespero e começo a correr. Não sei para onde devo correr, nem o porquê de eu estar correndo, a rua está movimentada e eu acabo trombando com várias pessoas pelo caminho, mas corro. Corro, pois vejo que meu pai está vendo algo que eu não consigo ver, algum perigo, não sei dizer o quê e tampouco sei se quero saber.
Começo correr sem direção, mas logo vejo que posso ir para escola, não é muito longe daqui, lá tem seguranças em todas as entradas e câmeras em quase todos os corredores, lá é seguro.
Viro a esquina que liga a rua em que estou até a entrada lateral da minha escola.
Tropeço. Olho para trás e me sinto uma idiota ao ver que não há nada no chão e que eu provavelmente tropecei em meu próprio pé.
_ Ei, quer ajuda? – alguém me sede a mão para me ajudar a levantar. Quando olho é o mesmo homem que estava na lanchonete. Como ele chegou aqui tão rápido?
Levanto-me rápido, a adrenalina da corrida ainda está no meu corpo, porém isso me faz sentir tontura.
_ Você está bem? – ele pergunta. _ Vi você correndo.
_ Não é nada. Só preciso chegar a um lugar. – digo. Há alguns minutos atrás eu teria adorado esse cenário, ser salva por um home tão lindo... É uma situação digna de contos de fadas, mas a incrível rapidez dele, que a pouco estava comendo tranquilamente no bar, e a coincidência de ser logo ele a me ajudar, me incomoda, algo estava acontecendo, meu pai sentiu ou viu isso, e eu sei que ele está certo.
_ Você está fugindo de alguém? – ele insiste, tendo soltar minha mão da dele, pois a tonteira já passou.
_ Não. – respondo fria. _ Preciso ir. – insisto e ele me solta.
_ Você não precisa ir a lugar nenhum. – ele diz olhando-me fixamente com seus lindos e amedrontadores olhos verdes.
_ Vou sim. – irrito-me e dou um passo para frete, porém não vou mais além. Volto a sentir tontura.
O que está acontecendo?
_ Ei. – o homem diz. _ Não precisa ter medo.
Apago.

Acordo.
Não sei onde estou, mas posso dizer pelo frio que sinto que não estou em casa.
Não me levanto, mas olho para o lado e aí vejo que não estou sozinha.


Continua
Oi gente, capítulo postado, espero que vocês tenham gostado. Sei que eu deveria ter postado ontem, mas me confundi com as datas.
Comentem o que acharam, isso é muito importante para mim.

Obrigada.