quarta-feira, 23 de agosto de 2017

17. Quem é o (a) culpado (a)?


                O primeiro dia de aula tinha acabado bem para Rafael, sua reaproximação com Ricardo parecia promissora. Os dois haviam conversado muito durante o intervalo e mesmo Rafael escondendo sua transsexualidade, ele conseguiu relaxar e conversar com o amigo de igual para igual.
                Após voltar para casa, ele almoçou com a família, que parecia perfeita como uma família de comercial de margarina... Depois do almoço Rafael foi ao seu quarto e se permitiu tirar um cochilo, durante as férias seus horários haviam mudado muito e acordar tão cedo hoje, o deixou muito cansado.
                Seu cochilo acabou demorando duas horas, ele acorda assustado e se dirige ao banheiro. Quando retorna ao quarto ele decide adiantar as tarefas já passadas por alguns professores, a maioria era para ser entregues na quinta, mas ele não tinha outra coisa para fazer, então decide antecipar-se.
                Ao abrir sua bolsa, logo ele percebe um envelope estranho, ele não se lembrar de tê-lo posto ali, então ele o pega e o abre. Lá há uma folha A4 e nela uma mensagem escrita com recortes de letras de revistas. Algo infantil, como um trabalho de Artes do primário.
                Rafael fica sem entender nada, mas ao terminar de ler a mensagem, percebe o por que do trabalho, a pessoa queria se manter anônima.
                “Assuma que é uma bixinha, ou sua família descobrirá da pior forma.”
                Não havia assinatura, nada que indicasse o autor da ameaça, mas Rafael não precisava de nada disso. Ele tinha certeza que sabia quem era.
                Ele rasga a mensagem e joga de volta na mochila, para não correr o risco de alguém mais lê-la.
                Sem se arrumar ou se preocupar em avisar a sua mãe, ele sai apenas com sua carteira.
                A sua raiva é tão grande que ele não teme a nada. A última vez que fizera esse caminho estava de noite, e ele só se localizava porque tenha alguém o guiando, agora ele estava completamente sozinho, a única coisa que o guiava agora era seu ódio.
                Ele sai no metrô e puxa na memoria qual era o restante do caminho, seus passos começam a ficarem hesitantes, ele aos poucos se acalmava, mas agora já era tarde, ele não iria deixar isso barato.
                Ele chega ao prédio e sobe as escadas. Bate na porta e espera para ser atendido.
                Para sua sorte quem abre a porta é Linda. A mulher fica realmente surpresa em vê-lo e abre um sorriso, mas Rafael não permite que ela se anime muito.
                – É melhor você não se meter comigo! – ele já começa alterado, botando o dedo na face de Linda, que arregala os olhos, assustada.
                – Você está bem? – ela pergunta.
                – Pare de ser sínica. Você realmente acha que eu não iria adivinhar que era você?
                – Olha, eu não sei do que você está falando, eu...
                – Cale a boca. – ele grita.
                – Ei, quem você pensa que é para vir a minha casa e me mandar calar a boca? – Linda começa a se irritar.
                – Sem dúvidas, um ser bem mais digno que você. – acusa.
                – Se isso ainda for por causa da sua irmã, eu já lhe pedi desculpas, o que mais você quer que eu faça?
                – Pare de ser sínica. – ele repete, desta vez, mais irritado.
                – Eu não estou sendo sínica, eu realmente não estou entendendo.
                – Ah! Claro, você quer se fazer de boazinha. Você ainda quer que eu creia que você é um ser bondoso, que está do meu lado, que me entende.
                – Rafael...
                – Porque em? – ele a interrompe. – É por dinheiro? Quanto você quer?
                – Eu não preciso do seu dinheiro.
                – Então, por quê?
                – Porque o quê?
                – A ameaça. – ele grita e ela não diz nada. – Isso mesmo, aquela mensagem de recortes que você deixou na minha mochila.
                – Olha, não fui eu.
                – Claro que foi você. – volta a acusar.
                – Eu não cheguei perto da sua mochila, como você quer que seja eu?
                – Então como você sabe que estava na minha mochila?
                – Porque você acabou de falar isso. – Rafael se sente tonto, o nervosismo é tanto que ele começa a sentir o controle se esvaindo de seu corpo.
                – Eu não sei como você conseguiu colocar aquela ameaça na minha mochila, eu só sei que foi você!
                – Você já tentou se escutar? – Linda o questiona. – Você não percebe que está fora de si? Porque tem que ser eu? Porque não pode ser outro alguém que tenha acesso a sua mochila? – mesmo nervoso Rafael não se permite abalar.
                – Só você sabe o que sou, você é a única que tem motivos para querer atrapalhar minha vida.
                – Eu não tenho nenhum motivo para atrapalhar sua vida. – Linda se defende, agora mais calma, com a voz serena.
                – Ah, não tem não?
                – Não. – reafirma. Rafael quer dizer algo, mas não consegue rebater. – Eu não sou a única pessoa que sabe sobre você.
                – É sim. – Rafael não grita.
                – Sua mãe também sabe. – ela diz.
                – Ela não faria isso.
                – Você realmente acredita que eu tenho mais razões que ela para lhe prejudicar?
                – A ameaça fala sobre eu me assumir ou minha família descobrirá da pior maneira, minha mãe não quer que eu me assuma. – Rafael explica. – Não é ela. – afirma e Linda suspira.
                – Mas tampouco sou eu. – diz segura. – Eu não sei quem foi, mas eu juro que não fui eu! – Rafael não diz nada.  – Acredite em mim. – o garoto parece pensar, mas depois mexe sua cabeça em negativa.
                – Você não me engana mais. – diz e se distancia, indo embora sem se despedir. Linda não diz nada, nem volta a insistir.
                Na volta Rafael já está mais calmo, ele se permite pensar em alternativas diferentes, pensar em prováveis culpados, mas toda direção que ele segue retorna para Linda.
                 Foi ela!
                Ao chegar a sua casa, ele escuta o barulho de pratos sendo lavados. Ele vai até a cozinha e encontra a sua mãe, que não lhe pergunta onde ele fora.
                – Eu vou dizer a verdade sobre os pontos na cabeça de Anna, mas você tem que prometer que vai me ajudar a sair dessa e que a culpada pague caro por isso. – ele diz, a mãe dele larga os pratos e desliga a torneira.
                – Estou escutando. - diz inflando-se e Rafael percebe que terá sua vingança.

Continua




Métis: Lucas é aquele personagem que vai ser difícil de definir, acredito que ele tem potencial para fazer o bem e também tem potencial para fazer muito mal. Muito obrigada por comentar. 

Um comentário:

  1. Mexer com a sexualidade de uma pessoa é muito pesado. Fico muito triste em cenas assim :(
    Eu não tenho em quem confiar EU FICO MUITO NERVOSAAAAAA.
    Mas eu estou adorando tudo. Todo o suspense só me deixa com vontade de mais e mais.
    Eu quero te convidar de um projeto que eu e uma amiga estamos preparando que se chama Ficstape. Nesse post explica tudo direitinho e eu espero que você possa participar dele (http://gyllenswift.blogspot.com/2017/08/projeto-ficstape.html)
    Posta mais.
    Beijos, Métis.

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