domingo, 4 de junho de 2017

10. As consequências de Rafael



                O pronto socorro está movimentado, o bairro de classe baixa é perigoso e isso reflete nos casos de urgência que surgem a cada instante, ainda assim, o movimento intenso não parece afetar a Rafael, que, sentado no canto da sala de espera, já não se importa com os olhares que recebe, afinal, ele tirou a peruca e sua maquiagem está borrada, sua aparência causa estranhamento. Linda está sentada a seu lado e se mantem calada, não sabe o que dizer, não sabe como se desculpar... A mulher transexual resolveu deixar sua mãe em casa, a pobre idosa estava desesperada demais, leva-la ao pronto socorro só deixaria a Rafael ainda mais apreensivo.
                – Vocês são os parentes da Anna Barcellos? – o médico pergunta e Rafael salta da cadeira.
                – Sim, eu sou o irmão dela. – ele diz e o médico o olha de maneira estranha. – Ela está bem?  - Rafael pergunta tentando voltar à atenção do médico ao assunto que realmente interessava.
                – Ela já está acordada e consciente, não apresentou nenhuma alteração nem na tomografia nem no Raio-x, ela tem um grande corte na parte de trás da cabeça, tivemos de dar cinco pontos, mas no mais não parece ter nada de errado. – Rafael suspira aliviado. – Ainda assim não vamos libera-la ainda, queremos mantê-la em observação, só para garantir que está realmente tudo bem. – o medico completa.
                – Tudo bem. – Rafael concorda, enquanto ainda assimila tudo o que acabara de escutar. – Posso vê-la? – pergunta.
                – Sim, ela está sobre o efeito de um remédio para dor, por isso está um pouco mais letárgica, mas não se preocupe, ela está bem. – o médico avisa e Rafael assente. – Você também quer entrar? – o médico pergunta a Linda, que a todo o momento esteve ao lado de Rafael, mesmo sem se manifestar.
                – Acho melhor ele ir sozinho. – Linda responde, querendo respeitar o espaço do amigo, que até o momento se apresentou arredio a sua presença.
                – Eu quero que você vá. – ele diz de maneira bruta, sem olhar para a amiga.
                Ambos entram no quarto em que a menina está internada, ela divide o mesmo ambiente com outras três pacientes, uma, que parece jovem, da idade de Rafael, está bem machucada e ele é obrigado a virar o rosto para não ver a profundidade dos ferimentos. Já a outra mulher é bem mais velha, recebe soro na veia e faz uma careta ao ver as amigas entrarem no quarto.
                – Ei pequenina. – a menina sorri ao vê-lo. – Você está bem? – ele pergunta carinhosamente. Confusa a menina o olha, ela nunca tinha visto o irmão daquela maneira. – Sou eu. – ele toca em sua mãozinha. – Seu irmão. – a menina volta a sorrir, parece reconhecê-lo agora. Linda se mantem dois passos atrás, observa a menina de longe, e agradece a Deus por ver que a ela está sã e salva. – E agora, o que eu faço? – Rafael se dirige a amiga. – Como que eu vou esconder isso? – ele diz pegando a cabeça da irmã e mostrando onde ficaram os pontos. – O cabelo dela já é ralo, ainda rasparam essa parte, como que eu escondo isso? – Rafael começa a se alterar.
                – Não sei. – Linda se mantem calma. – Mas podemos pensar. – ela começa a tentar encontrar ideias em sua mente instantaneamente.
                – Eu nunca deveria tê-la deixado com sua mãe. – ele lamenta. – Ela é velha, é claro que ela iria dormir com um livro na mão.
                – Foi um acidente. – Linda parte em defesa da mãe.
                – Isso não teria acontecido se eu tivesse ficado em casa, quieto, apenas brincando com ela. – Rafael responde alterado.
                – Então a culpa é minha? – Linda pergunta, se segurando para não se descontrolar.
                – Você que insistiu. – Rafael responde seco.
                – Claro. – Linda morde os lábios. – Talvez você devesse falar a verdade, começar com isso seria uma boa, evitaria que coisas assim acontecessem. – ela diz e Rafael fica vermelho de raiva.
                – A primeira coisa que você me disse quando me conheceu é que todos nós temos nosso tempo, que eu não deveria me cobrar e muito menos apressar-me. Você teve seu tempo, você teve seu apoio, eu não tive isso, eu não estou tendo isso! – ele já se alterou completamente.
                – Eu tive meu tempo? Eu fui obrigada a me assumir, fui obrigada por eu precisava que alguém me apoiasse, porque eu estava sofrendo, pessoas riam de mim, e falavam de mim, eu apanhava... Porque você acha que eu vivo nesse fim de mundo? Sabe essa velha que você tanto culpa? Ela lutou contra tudo e todos para me defender, sim eu tive o suporte dela, mas ela foi abandonada pelo marido, virou inimiga da família, perdeu a maior parte dos amigos dela, passou fome só para que fosse quem eu sou. Eu já apanhei demais nessa vida, Rafael, e eu só queria te ajudar. Você pensa que está sofrendo? Você acha que eu tenho a vida perfeita? Que tudo foi perfeito para mim? Não existe vida perfeita para pessoas como nós. – Linda não consegue segurar.
                – Por favor. – uma enfermeira os interrompe. – Aqui não é lugar para discussões. – ela diz séria.
                – Eu já estava indo. – Linda responde antes que Rafael tenha a oportunidade de falar algo. – Eu realmente espero que seja melhor para você do que foi para mim, Rafael. – ela diz agora mais calma. – Melhoras para sua irmã. – deseja e parte junto à enfermeira.
               
                A menina recebe alta ainda durante a manhã do dia anterior. Rafael a leva para casa e passa o dia tentando encontrar os melhores penteados para esconder a linha dos pontos na cabeça da irmã. A pequena reclama algumas vezes e isso o faz se desesperar, ele teria apenas um dia para inventar uma desculpa cabível.
                Depois de muito tentar, Rafael consegue amarrar o cabelo da irmã em um coque torto, mas que deixa um tufo denso de cabelo bem encima dos pontos, que acabam sendo escondidos. Ele sabia que esse penteado não duraria para sempre, mas tinha esperança que isso o desse mais tempo para pensar numa justificativa valida.
                Aquele seria o domingo mais apreensivo da vida de Rafael, após receber a ligação que os pais já estavam retornando para casa, ele deixou que a apreensão tomasse conta de si.
                Tomou repetidos banhos, para ter certeza que não havia mais nenhum vestígio de maquiagem ou brilho em sua pele, certificou-se de que as vestes e a peruca que Linda o colocara estavam bem escondidas, e fez e refez o coque na cabeça da irmã, até que a mesma já se irritasse e corresse do irmão, sempre que o via com a escova na mão.
                Quando os pais de Rafael chegaram, já era tarde da noite, ambos estavam cansados da viagem. O pai pouco falou, apenas cumprimentou os filhos, perguntou ao garoto se tudo estava bem e foi tomar um banho para se deitar, já a mãe, após fazer as mesmas perguntas que o pai fizera, andou pela casa a procura de alguma bagunça, talvez ela suspeitasse que o filho tivesse feito alguma festa na ausência dela, no fundo ele acredita que ela teria gostado, caso isso tivesse acontecido, mas como, obviamente, não encontrou nada, pediu ao menino que pedisse uma pizza, caso este estivesse com fome e foi dar atenção a filha menor, que já estava sonolenta a essa altura.
                Rafael dormira aliviado durante aquela noite, mas ao acordar deu de cara com a mãe bem ao lado de sua cama.
                No susto o garoto deu um pulo, revelando seus trajes de dormir, que consistiam em uma cueca samba-canção azul, e uma meia, branca, nos pés.
                Séria, sem nenhum sorriso em seu rosto e com os braços cruzados, a mãe perguntou:
                – Você pode me dizer o que é aquilo na cabeça da sua irmã?

Continua


Olá a todos, mais um capítulo postado, espero que gostem.

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