sexta-feira, 26 de maio de 2017

8. O Segredo de Rafael (Parte 1)



Durante as férias

                A porta se abre e Rafael dá um pulo de susto. Seu coração está acelerado e meus olhos arregalados.
                É só sua mãe.
                Ele se acalma, mas não fica feliz, pois seu olhar de reprovação não permite.
                – Poderia ser seu pai. – ela diz num tom amargurado e fecha a porta, atrás de si, bem rapidamente.
                – Eu sei. – Rafael olha para o chão, sem coragem para encarar a mãe.
                – Tire isso logo ou, pelo menos, vista algo por cima, tampouco sou obrigada a ver isso. – a mãe ordena e Rafael tira o sutiã, e se olha no espelho, seu tronco agora está nu, e para ele, incompleto.
                Sua mãe percebe seu incomodo, mas ignora, ainda é difícil para ela entender ao filho, ou filha, ou sabe-se lá o que ele realmente é.
                Ela trás as roupas que acabara de lavar e as coloca, vagarosamente, no armário do filho.
                – Você vai ficar trancado aqui durante as férias? – ela o questiona. – Você não saiu com nenhum amigo desta vez. E não falta muito para que suas aulas voltem. – observa.
                – Talvez eu saia. – ele dá de ombros.
                – Talvez... – sua mãe não fica satisfeita. – Olha, eu sei que tem todo esse... Negócio...
                – Não é ‘negócio’, sou eu. – ele diz. – Você não entende.
                – Não entendo mesmo, você não é isso que você quer insistir que é. – a mãe briga.
                – Eu não sou esse que vocês insistem em dizer que eu sou! – Rafael contrapõe e a mãe olha para ele de maneira reprovativa.
                – Você é o melhor jogador do time de futebol da escola, você é o garoto que trouxe a primeira namoradinha aqui em casa aos 11 anos, você é um homem, tem um corpo bonito de homem, feito para enlouquecer todas as garotas...
                – Mãe, mãe, pare. – Rafael a interrompe. – Você está se escutando? – ele a pega pelo braço e a obriga a olhar em seus olhos. – Tudo isso é um absurdo.
                – Absurdo? – ela ri nervosamente. – Absurdo é isso que você está fazendo, Rafael, como você acha que nossa família vai reagir? – Rafael se cala. – Exatamente. – a mãe diz. – Pare com isso, Rafael, pare enquanto você ainda pode. – ela pede e se desvencilha das mãos do garoto.
                Sem animo para continuar colocando as roupas no armário, ela sai do quarto, deixando a cesta de roupa no chão.
                Rafael se olha no espelho que fica na porta do seu armário. Sua face demonstra sua tristeza e desanimo.
                Seu corpo não é seu corpo, para muitos ele pode parecer ter o corpo ideal, alto, magro e com músculos bem formados, mas Rafael não consegue se sentir feliz por isso, pois este não é o corpo em que ele se sente confortável. O corpo ideal teria as curvas e delicadezas de um corpo feminino. Seus lábios seriam mais comportados e menores, seus peitos e bunda seriam maiores, seu cabelo seria longo, sua sobrancelha estaria feita e ele não teria aquele pomo de adão bem no meio de sua garganta. Mas, antes de tudo, ele não teria o que tem entre as pernas, e no fim, para ficar tudo completo, ele não seria ele. Ele seria ela.
                Sua mãe o surpreende ao adentrar novamente ao quarto. Ela não sorri e mal o olha.
                – Seu pai e eu passaremos o fim de semana na casa de sua tia, já que você não vai sair, pode olhar sua irmã? – a mãe pergunta, tentando não soar rígida.
                – Claro. – Rafael sorri. Ele ama a irmã caçula, e cuidar dela seria um prazer.
                A irmã mais nova de Rafael, Anna, tem apenas dois anos de idade, sua inocência é o que mais encanta a Rafael, com ela, ele se sente à vontade para conversar, porque ela não o julga, talvez pela falta de entendimento ou pela falta da maldade e preconceitos, e ultimamente, a menina é a única que Rafael pode contar nesse quesito.
                – Tudo bem. – a mãe suspira. – Iremos hoje durante o fim da tarde. – ela anuncia. – qualquer coisa, há uma chave de emergência debaixo do tapete da sala, dinheiro reserva, dentro do fundo falso, da segunda gaveta da escrivaninha de seu pai e deixaremos nossos telefones sempre ligados, caso você precise se comunicar conosco. – ela diz e isso magoa Rafael, pois ainda faltam horas até que os pais saiam de casa, se a mãe está ditando todas as precauções agora, era porque não tinha o interesse de falar com ele novamente. – Devo me preocupar com possíveis festas na casa? – ela pergunta.
                – Não. – Rafael responde, e a mãe assente e torna a deixa-lo só.
                O dia passa vagarosamente. Rafael mal sai do quarto, ele assiste alguns episódios de sua série favorita e depois começa a conversar pelo chat de uma rede social, com uma nova amiga, Linda, que é transexual, assim como ele, porém ela já está avançada na sua transição.
                Linda se tornou sua melhor amiga nos últimos tempos, desde que Rafael resolveu aceitar sua condição.                 Aproveitando que seus pais não estariam em casa, Rafael decide convida-la para ir a sua casa e ela aceitou.

                Os pais de Rafael se despedem demoradamente da pequena Anna, seu pai também demora na despedida com Rafael, mas a mãe não o acompanha.
                Assim que saem, Rafael começa a brincar com a irmã, na sala de estar, e ela se divide em rabiscar os cadernos de desenhos e brincar com uma boneca Barbie.
                A casa de Rafael fica em um bairro familiar de classe alta, porém, a sua residência é a menor de todas, três pequenos quartos, dois banheiros, uma cozinha e uma sala, o quintal é grande e tem uma piscina, e este é o maior luxo da casa inteira. Ele, ao contrario da maioria de seus colegas de classe, não nasceu rico, seu avô ganhou uma indenização quase milionária de uma empresa que ele trabalhou na sua juventude, e com o dinheiro, o avô e o pai construíram uma empresa de construções. No começo, ambos não se saíram muito bem, mas depois de um tempo, com os investimentos certos, a empresa cresceu em disparada. Hoje o avô já é falecido, mas a empresa segue em crescimento.
                Mesmo já tendo uma renda que ultrapassa os milhões, o pai de Rafael gosta de manter tudo simples, não quis gastar demais em uma mansão, nem fica trocando de carro uma vez por ano, sua mãe faz a maior parte das tarefas domesticas, só tem a ajuda de uma domestica uma vez no mês. A única coisa que seu pai não se incomoda em gastar é na educação dos filhos. Anna, mesmo muito pequena, já está na escolinha e também já está aprendendo a tocar piano, e Rafael está em uma das melhores escolas particulares da cidade.
                Linda chega após uma hora da saída dos pais de Rafael.
                Assim que entra na casa dele, ela fica encantada com a pequena Anna. Delicada, ela faz uma trança com o cabelo loiro e ralo da pequena, enquanto conversa com Rafael.
               
                – Quero lhe produzir. – diz Linda, olhando fixamente a Rafael, que não entende logo de cara o que a amiga quer dizer. A voz de Linda ainda é grossa, ela ainda se esforça muito para controlar seu tom, mas os remédios hormonais já começam a fazer um grande efeito e ela sabe que logo o tom feminino sairá bem mais naturalmente.
                – Não tenho nada aqui.
                – Vamos a minha casa. – ela sugere.  – É um pouco longe, mas se pegarmos o metrô nem vai perceber a distancia.
                – Mas e minha irmã?
                – Podemos leva-la. – Linda dá de ombros. – Vivo com minha mãe, ela é velha, mas pode nos ajudar a cuidar dela.
                Rafael hesita, mas Linda insiste muito e o convence.
                Os três saem e o sol já se foi do céu. No começo Anna está animada com a caminhada noturna, mas em menos de cinco minutos a menina pede colo e logo depois já está dormindo nos braços de Rafael.
                O garoto não pode evitar perceber os olhares dirigidos à Linda, alguns parecem confusos, outros não se enganam, eles sabem que Linda é trans e a matam com os olhos.
                Linda tinha razão, após entrarem no metrô, a distancia entre as duas casas, parece pequena.
                A rua da amiga de Rafael é totalmente diferente da rua dele, as casas são menores, as luzes mais fracas, as ruas menos cheirosas.
                Eles entram num prédio, que não tem portaria, e sobem dois andares de escada, já que não há elevador.
                O apartamento de Linda é pequeno, mas aconchegante. A sala é acoplada com a cozinha, e um pequeno corredor abriga dois quartos e um banheiro pequeno.
                A mãe de Linda é simpática, sorri a Rafael e a menininha que está em seu colo.
                Os três vãos até o quarto de Linda. O quarto é cheio de perucas e há uma grande penteadeira cheia de maquiagens, o armário de Linda nem mesmo fecha com tantos vestidos e sapatos. Rafael se encanta com tudo o que vê, e sente inveja de Linda, pois ela tem aceitação da mãe e já pode viver sem se esconder.
                Rafael vai até ao pequeno banheiro e tenta retirar sua barba o mais rente possível. Assim que termina, encontra Anna dormindo na cama de Linda.
                A transformação não é rápida, quilos de maquiagens são gastos e Rafael experimenta várias perucas, na questão de roupas ele não tem muita opção, Linda é menor que ele e já tem  algumas curvas, e a maioria das roupas que ela tem não cabem ou não ficam bem no corpo do garoto.
                Um vestido solto é tudo o que Rafael pode usar. Para finalizar, pela primeira vez em sua vida, Rafael coloca um salto alto que não seja de sua mãe. Fica um pouco apertado em seu pé, pois Linda tem o pé um número menor que o dele, mas Rafael não se importa, ele está tão feliz por se ver daquela maneira pela primeira vez, que não sente dor, nem mesmo cansaço pelas horas que acabara de passar se transformando.
                – Eu estou lindo. – Ele sorri bobo, olhando-se no espelho da de Linda. A amiga, que também sorri ao seu lado, se aproxima de sua orelha e diz bem baixinho.
                – Não. – ela o corrige. – Você está linda.

Continua



Olá, peço perdão por novamente não postar na data correta.
Sei que isso é ruim, mas serei obrigada a não mais marcar uma data fixa para as postagens, pois não estou conseguindo controlar meus horários.
Tentarei postar pelo menos uma vez por semana, e espero conseguir tal feito.

No mais, obrigada e espero que tenham gostado do capítulo. 
Amanhã postarei a parte 2

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